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Góis nas orlas da discórdia

Página das letras > Painéis de S. Vicente

GÓIS NAS ORLAS DA DISCÓRDIA


Os ares de Góis andam carregados de História. Sente-se à flor da pele o perpassar de aragens vindas de um passado que teve eco na prosa dos cronista por se prender com acontecimentos que são do foro da história nacional propriamente dita, acontecimentos indissociáveis da gestação do Estado português. Sobre os campos de Góis, antanho, sopraram ventos de glória e de tragédia. E até de epopeia. Nos seus domínios fez-se História. Sobejam exemplos. Como o que segue, escolhido pela sua palpitante e incontornável actualidade.

Nas calendas de Abril corrente fez quinhentos e cinquenta anos que se deu na região o frente-a-frente , com uma légua de permeio, entre os dois irmãos inimistados, infantes da ínclita geração, D. Afonso e D.
Pedro, por motivos de lealdade à coroa posta em causa pelo segundo, aleivosamente suspeito de ambições ao trono. Foi o prelúdio de Alfarrobeira, onde D. Pedro, ferido de morte, viu desvanecer-se o seu grande "désir" de um Portugal europeu. Até um dia. Até poder cumprir-se como ele o sonhou, isto é, moderno, aquele Portugal, que, na esteira do infante, também o arganilense Veiga Simões idealizou.

Honra a ambos, irmanados mas distanciados por mais de cinco séculos!
Chamado à corte pelo rei Afonso V, quando as relações deste com o ex-regente se azedaram, prevendo-se horas difíceis, o octogenário duque de Bragança só tinha um caminho à sua frente para se dirigir a Santarém sem ter de passar pelas terras do irmão, o Duque de Coimbra, que se opunha obstinadamente a deixá-lo passar armado, isto, com forças militares ainda que ao serviço do rei e a mandado seu. Esse caminho era a travessia da serra da Estrela ou seus contrafortes, o que não era aconselhável pelo intenso frio que se fez sentir naquele fim de inverno de 1449. Era arriscado e sumamente incómodo. Por isso, tentou uma solução de compromisso, por forma a não se afastar demasiado das ordens do monarca: chegar à corte com o maior número possível de gente armada, o que implicava ter de evitar confrontos com o irmão pelo caminho.

Acompanhado por cerca de quatro mil homens, entre os quais os devotados cavaleiros da ordem militar de S. João Baptista, por si mesmo instituída em Chaves onde habitualmente residia, o duque de Bragança fez-se à estrada real em direcção ao sul, incorporando quantos no percurso davam mostras de estarem pelo rei, supostamente ameaçado pelo sogro que, por sinal, teria infiltrado partidários seus nas hostes do poderoso irmão bastardo.

Ante a barreira , formada pelos muitos senhorios do infante D. Pedro no centro do país, os quais se estendiam sem interrupção desde o litoral à serra da Lousã, o duque de Bragança após ter passado o Vouga, deve ter inflectido para leste a fim de atravessar o Mondego por alturas de Midões, longe de Coimbra, com o objectivo seguramente de entrar em domínios que não estavam sujeitos à jurisdição do ex-regente. E é assim que, segundo Rui de Pina, aparece em Coja, pertencendo ao bispo de Coimbra e logo seguidamente em Arganil, do mesmo bispo, que por certo não apoiara os "estranhos procedimentos" de D. Pedro. A partir daqui e contornando sempre os domínios senhoriais do irmão, sem neles penetrar, o Duque, de Bragança acha-se em casa, entre partidários, os senhores de Góis. São eles a donatária D. Brites de Góis e seu marido, o nobre D. Diogo da Silveira. Tanto ela como ele são cabeças de linhagens enfeudadas à pessoas do rei e desafectas ao duque de Coimbra.

É de recordar que logo no inicio, quando os ares começaram a turvar-se por suspeitas, aliás sem fundamento, de o ex-regente guardar armas e provisões nos seus castelos com intenções hostis, o rei mandou a Tentúgal uma pessoa de confiança e qualidade com a incumbência de o censurar e chamar à razão, atalhando o mal no seu princípio. E essa pessoa de confiança e qualidade foi precisamente D. Diogo da Silveira que nas palavras do cronista, "o repreendeu em nome. d'el-rei de cousas em que o infante nunca tivera culpa". O duque de Bragança está pois em casa, entre partidários seus e do monarca. Acolhendo naquela hora crítica, o bastardo real, o senhor de Góis mais uma vez deu provas inequívocas da sua lealdade ao jovem soberano, por cuja vida dará mais tarde a sua própria, em Marrocos, cobrindo-lhe a retirada na serra de Benalcofu onde o rei se viu a braços com um inimigo numericamente desajustado às suas forças. Lealdade a todo o preço! Até o da vida.

Ora, face à presença do irmão em Coja e seguidamente em Arganil, terras que não lhe eram afectas, antes pelo contrário, o duque de Coimbra, que entretanto se deslocara para Penela e, daqui, para a Lousã, domínios seus, talvez por deduzir que os planos do bastardo consistiriam em avançar para sul pelas margens do Ceira, nas orlas do ducado, mas de qualquer forma dentro dele, saiu-lhe ao caminho e, postando-se-lhe à frente com aguerrida hoste, cortou-lhe. o passo nos campos de Serpins, a uma légua da Várzea de Góis, onde acampara o adversário. A este, só restava a luta ou a vergonhosa retirada.

O infante D. Pedro tinha consigo, além dos seus homens de armas, alguns dos velhos companheiros da saga da Hungria, à cabeça dos quais o famoso capitão-mor do mar, Álvaro Vaz de Almada, cavaleiro da Jarreteira e conde de Avranches, no país normando, onde pelejara na guerra dos cem anos, um dos valentes de Azincourt, o qual, ao saber em Lisboa do aperto em que se encontrava o seu inseparável "irmão de armas", acudiu pronto em sua ajuda com outros indefectíveis partidários. Era lendária a sua reputação de destemor. "Três de cada vez eu chamo a duelo em campo aberto todos os seus infames detractores" - terá dito a el-rei em Santarém quando, em Conselho, tentou justificar as atitudes do infante seu amigo e parceiro de aventuras e viagens. Ninguém levantou a luva, limitando-se o monarca a uma postura branda e mole. Corriam pela Europa as formidáveis façanhas do cavaleiro-andante luso que, em Alfarrobeira, à lança e à espada, se bateu até à exaustão sem receber no corpo um único ferimento, acabando por cair de cansaço sobre o cadáver do ínclito companheiro. Só então, crivado de golpes infindáveis, sucumbiu às mãos da vilanagem. E assim se sagrou na lenda.

Neste entrementes, no Vale do Ceira, encaixado entre escarpas, foi caindo a noite. Em acordo com o senhor de Góis muito provavelmente e guiado por gente sua, conhecedora do terreno, o duque de Bragança, não por medo certamente, como por vezes se tem insinuado, mas por obediência ao rei que, por carta entregue em mão por João Pires de Carvalho, lhe ordenava não dar luta, decidiu atravessar sem armas a serra da Lousã furtivamente com os seus mais próximos e, ao cabo de três dias, por caminhos não sabidos, chegou a Santarém, onde o rei o recebeu "com o maior contentamento", Desse jeito, passando desarmado, o duque D. Afonso não só evitou a refrega, que parecia inevitável, mas contrária às ordens reais, como não cometeu a afronta ou desprimor de, em aparato de guerra, pisar sem o seu consentimento as terras de outro grande senhor, demais a mais irmão seu. Quanto às tropas, acampadas na Várzea, junto a Góis, o duque de Bragança, ao decidir-se pela ardilosa travessia da serra da Lousã a coberto da noite e no maior sigilo, ordenou-lhes que, volvendo atrás, isto é, a Coja, passassem pelos montes que, da parte sul, bordejaram a serra da EstreIa, indo sair à Covilhã e daqui, em marcha apressada, se encaminhassem para Santarém, onde voltariam a encontrar-se todos. Ainda hoje, pela chamada "estrada de trás-de-serra", no alto concelho de Arganil, existem ruínas de uma construção que deverá ser a tal Albergaria a que Rui de Pina se refere com a informação de que, ao frio e à fome, ali sucumbiram muitos homens e cavalos. Que pena lá não se encontrar, ao menos, uma simples pedra comemorativa! Isto é cultura!...

Está a decorrer o ano evocativo dos cinco séculos e meio que passaram sobre Alfarrobeira, o campo de batalha em que, por instantes, se defrontaram, a 20 de Maio de 1449, duas opções de vida para a nação portuguesa: a modernidade ou a feudalidade. Venceu esta e, quanto àquela, houve que aguardar o neto do infante D. Pedro, o rei D. João II, para a fazer vingar, reatando o sonho do avô.

Pois bem, dentro do ano em curso e em causa, estamos sobre a data comemorativa do face-a-face que, entre a Várzea e Serpins, entre Góis e a Lousã, .precedeu de um mês e meio o desenlace fatal de Alfarrobeira, às portas de Lisboa.

Assim é, com efeito. Por conseguinte, e dada a sensibilidade que têm demonstrado possuir em alto grau para a cultura a sério, estou certo que os dois municípios envolvidos não se pouparão a esforços para, além de outros actos alusivos, erguerem cada qual o seu padrão memorativo, o seu "marmoural", um na Várzea com as armas do duque D.Afonso de Bragança, outro em Serpins com as armas do duque de Coimbra, o infante das "Sete Partidas", que um dia cavaleirosamente abalou de Portugal "vestido de armadura" e, três anos depois, regressou ao reino envergando o "gibão moderno". Não tem que ser já. Há o resto do ano para dar corpo à sugestão. Por imperativo da História. Por ser um acto de Cultura em grande. Por se tratar de um gesto comovente, que pelo menos Góis não deixará de praticar em consonância com as responsabilidades que tem vindo a assumir na revitalização do seu.
passado mais que ilustre.

Assim se espera.

João de Castro Nunes


"Publicado na imprensa regional em 8.4.1999".

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