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Página das letras > Os nossos poetas
A magia do soneto!
Sonetos
Sonetos
D. Gonçalo da Silveira
Beatriz de Noronha, descendente
do sexto marechal de Portugal,
foi sepultada em Góis conjuntamente
com seu marido, guarda-mor real.
Foi um casal perfeito, cujos filhos,
que em número de dez ambos tiveram,
não se afastaram nunca dos seus trilhos
e por diversos modos se impuseram.
O mais novo, chamado D. Gonçalo,
custou a vida à mãe quando nasceu,
abrindo-lhe o caminho para o céu!
Morrendo ao dar à luz um filho santo,
a donatária aguarda que, entretanto,
a Igreja se disponha a homologá-lo!
Regionalismo
É um produto, o Regionalismo,
do espírito beirão dos habitantes
das terras de Arganil e circundantes,
agora em fase de revivalismo.
Não é fácil dizer em que consiste
por muito que se saiba português:
é um modo de ser, de estar…talvez,
que só por estas bandas é que existe.
É um género local de sentimento
peculiar das condições de vida
impostas por um certo isolamento.
Passa por dar valor à região,
prestando-lhe a atenção que lhe é devida
face ao alheamento da nação!
Cimeira euro-africana
Sob o azul do céu de Portugal
dois continentes vão-se dar as mãos
independentemente por sinal
de serem muçulmanos ou cristãos.
Na Lisboa das naus de antigamente
chefes de estado de África e Europa
à mesa vão sentar-se, frente a frente,
comendo por igual a mesma sopa.
Nunca se viu na história coisa assim,
povos tão diferentes em cultura
a congregar-se para o mesmo fim:
reconhecer a toda a criatura
o supremo direito à liberdade
como um valor real da humanidade!
Museu de Góis
Se bem que Góis se assuma só por si
como um burgo-museu por natureza,
só teria a ganhar, tenho a certeza,
com o Museu que em tempos concebi.
Albergaria, desde a pré-história,
diversos testemunhos do passado
bem como algum artístico legado
para perpetuar sua memória.
Museu de Góis teria por letreiro
ou preferentemente, em meu juízo,
Museu do Ceira, como eu quis primeiro.
Além de ser uma atracção futura
em termos de turismo, bem preciso,
daria à vila um timbre de cultura!
D. Luís da Silveira
Grande embaixada chega à capital
de Carlos V, em terras de Castela:
garbosamente vai à testa dela
o guarda-mor do Rei de Portugal.
Veste o senhor de Góis à portuguesa
a fim de impressionar os castelhanos,
austeros, graves, frente aos lusitanos
que gostam de ostentar sua grandeza.
Leva o encargo de em Valhadoli
apalavrar a boda das irmãs
de ambos os soberanos entre si.
Saiu-se bem: agradecendo ao céu,
ei-lo com seus brasões e lorigãs
ajoelhado sobre o mausoléu!
Pedras do Lumiar
Pedras do Lumiar, altos Penedos
quartzíticos, silúricos, de Góis,
quisera desvendar vossos segredos
para os contar a quem vier depois!
Com mais de quatrocentos milhões de anos
contendes os vestígios de animais
que se moviam pelos oceanos
nessas remotas eras abissais.
Devido porventura à imponência
do vosso aspecto fostes entretanto
considerados como lugar santo.
Populações de ignota procedência
que nas vossas vertentes se instalaram
sinais de si no xisto nos legaram!
Titularidade
Com todo o peso que lhe dá a História
e o encanto que lhe vem da natureza,
a povoação de Góis é de certeza
no centro do país a mais notória.
Em pleno panorama sedativo
aos pés de aristocrático castelo
não há na região burgo mais belo
com seu traçado ainda primitivo.
Por suas ruas, templos, casario
mantendo todo o ar da Renascença,
durante a qual foi nobre senhorio,
acima da esperança, tenho a crença
que há-de alcançar a titularidade
de Património ou Bem da Humanidade!
Mais nobre do que pobre
A ideia que de Góis tenho na mente,
longe de ser a de uma zona pobre,
de certos bens essenciais carente,
é mais a de uma terra ilustre e nobre.
Pode orgulhar-se, como se tem dito,
do seu passado histórico servido
por donatários de alto gabarito
e de prestígio nunca desmentido.
Além de possuir um património
sem paralelo em múltiplos aspectos
por obra dos artistas mais selectos,
é Góis, até no seu sector campónio,
o burgo, a serra, a região talvez
onde melhor se fala o português!
Rei mago sem coroa
Nas tábuas quinhentistas da matriz
de Góis, meio de pé meio dobrado,
é ele, o donatário D. Luís,
que de rei mago está representado.
Vestido ricamente de brocado,
não é motivo para admiração
vê-lo daquele modo figurado
dado o seu gosto pela ostentação.
Guarda-mor do monarca e seu valido,
quando de embaixador foi recebido
por Carlos Quinto em terras de Castela,
causou sensacional deslumbramento
a sua escolta cheia de espavento
desde os arreios de ouro às vestes dela!
Guerra e amor
Em vão não foi que ingleses e franceses
durante as guerras de Napoleão
terçaram armas por diversas vezes
em Góis e respectiva região.
Ainda hoje por aqueles alcantis,
aldeias, lugarejos e casais,
se encontram polvoreiras e fuzis
que diferentes são dos actuais.
São restos dos antigos invasores
que remendados e modificados
ainda servem para os caçadores.
Crê-se que vem daí, quanto às donzelas,
a par dos seus cabelos alourados,
o predomínio azul dos olhos delas!
Memorial
Serra do Boco em tempos se chamou
a que do Açor agora se apelida
e foi por Rui de Pina referida
na crónica afonsina que a citou.
Por lá passaram para a Covilhã
vindas da Várzea por caminho esconso
as hostes do Infante D. Afonso
sem chefe, sem comando, ao Deus dará.
Corria a primavera, mas o certo
é que o terreno estava ainda coberto
por neves sobrepostas ou "dobradas".
Muita gente morreu na travessia
assinaladament nas chamadas
veredas do lugar de Albergaria!
"O carteiro"
Em todo o ser humano há um carteiro
que um dia se enamora de uma dama
querendo antes do mais saber primeiro
o nome que ela tem, como se chama.
Para uns é Beatriz, como a de Dante,
para outros Leonor, Laura ou Diana,
para Camões seria... Violante,
sua ama e na afeição sua tirana.
Todos somos carteiros nesta vida
que em dada altura, sem lugar nem data,
nos vemos ante a imagem pretendida.
Só que nem todos temos um Neruda
para com seus poemas na hora exacta
nos dar a sua… calorosa ajuda!
Cosmopolitismo
Devido ao bom cariz da sua gente,
amável, generosa, hospitaleira,
tornou-se Góis, no coração da Beira,
uma estância europeia com patente.
A cada passo chega gente nova
com armas e bagagens que se instala
na sua região para habitá-la,
como o poder autárquico comprova.
São estrangeiros que bem recebidos
e pela natureza surpreendidos
acabam por ficar na região.
Assim se vai enriquecendo a urbe
e seu concelho sem que se perturbe
a sua milenária tradição!
José Malhoa
Malhoa interpretou como ninguém
a gente portuguesa e seus costumes,
suas paixões, excessos e ciúmes
em quadros que pintou por um vintém.
Exímio retratista popular,
nas suas hoje valiosas telas
tanto na rua como nas capelas
o povo das aldeias tem lugar.
Insigne mestre sem qualquer rival
no género das obras que pintou,
seja lá fora seja em Portugal,
teve em Amália a paga merecida
quando ela em fado o imortalizou
na sua voz do mundo conhecida!
Brilho perdido
O conjunto de quadros da matriz
do burgo aristocrático goiense
tem um grande valor, o que condiz
com a capela-mor a que pertence.
Devido à sua originalidade,
quer no desenho quer no colorido,
não possuem qualquer afinidade
com tudo o que entre nós é conhecido.
Acontece, porém, que necessitam
de algumas obras de conservação
por pessoal com acreditação.
Segundo os entendidos que as visitam,
aquelas quatro tábuas no total
são do melhor que existe em Portugal!
Lourdinhas
Na capelinha dita do Castelo
foi de estadão o nosso casamento,
tu de vestido a todo o comprimento,
eu de casaca do melhor modelo.
Era a primeira vez que na capela
depois de restaurada se fazia,
segundo o que na terra se dizia,
uma festividade como aquela.
Toda a gente de Góis compareceu
para assistir à linda cerimónia
sem o mais leve assomo de acrimónia
pela simples razão de que ninguém
como um anjo puríssimo do céu
deixara nunca de querer-te bem!
LIBERDADE
Eu quero a liberdade, a verdadeira,
escrita com maiúsculas na base
dos monumentos sem nenhuma frase
que a desvirtue por qualquer maneira.
Eu quero a liberdade na soleira
da minha porta para quando entrar
saber que ela se encontra no meu lar
sem trela, sem açaimo e sem coleira.
Eu quero a liberdade como Deus
ao ser humano a deu quando o criou
para o amar na vastidão dos céus.
Eu quero a liberdade sem mais nada
exactamente assim como brotou
para entre todos ser compartilhada!
Ode à liberdade
Há que perder o medo de falar
e de pensar também: são atributos
que Deus nos deu sem termos de pagar
para os usar… impostos ou tributos.
Ninguém é mais que Deus, há que dizê-lo,
para arbitrariamente ou em função
de alardeado ou farisaico zelo
nos açaimar a boca e a razão.
O mais que pode acontecer à gente
não suportando o abuso de poder
é sujeitar-se a não sobreviver.
Mas antes isso do que prescindir
da faculdade de fazer-se ouvir
dada por Deus ao homem de presente!
Os Góis
Góis de apelido ou Goes talvez primeiro,
há muita gente assim denominada
e por diversas causas espalhada
no território luso-brasileiro.
Herdado ou simplesmente procedente
da respectiva zona ou região,
tirando os raros casos de brasão
tornou-se um antropónimo corrente.
Conforme alguém com créditos firmados
nos estudos históricos ligados
à vida do concelho deste nome,
longe chegou o áulico apelido
que à dita cuja vila anda cingido
por qualquer lado ou prisma que se tome!
Benazir Bhutto
Cobardemente assassinada a tiro,
à queima-roupa, por um suicida,
Benazir Bhutto terminou a vida
em pleno sonho sem qualquer suspiro.
Morreu subitamente rodeada
dos seus indefectíveis apoiantes
que em dísticos e vozes triunfantes
lhe davam a vitória desejada.
Democraticamente era a esperança
de um povo em prolongada ditadura
sob a invocação da segurança.
Morreu Benazir Bhutto: uma vez mais
uma mulher de grande envergadura
morreu pelos seus altos ideais!
Questão de pundonor
(Ode camoneana)
Como, Camões, por mais que experimente,
não chego nem de longe à tua altura,
prefiro apenas ser uma figura
igual a qualquer outra, a toda a gente.
Deus não me concedeu pessoalmente
uma sombra sequer, por desventura,
da tua inatingível estatura,
que a ninguém mais permite nem consente.
Por isso vou deixar de ser poeta,
meter a minha lira na gaveta
e dedicar-me a diferente vida.
É que profundamente me magoa
a hipótese de ser outro Pessoa,
émulo teu… de via reduzida!
Sapatinhos brancos
Em vez de pés descalços ou tamancos
nas povoações do nosso interior
todas as criancinhas , sem favor,
deviam ter seus sapatinhos brancos.
Deviam ter lacinhos na cabeça
como as meninas usam na cidade
e vestidinhos em conformidade
embelezando a vida que começa.
Deviam todas ter, sem excepção,
meias e luvas brancas destinadas
ao acto da primeira comunhão.
Numa sociedade democrática
que ao menos possam figurar calçadas
de sapatinhos brancos...nesta práctica!
O quarto rei mago
Aos meus cinco bisnetos
Além dos três reis magos que vieram
guiados por um astro refulgente
das remotas paragens do Oriente
e no berço a Jesus ofereceram
incenso, mirra e ouro em homenagem
ao Rei do mundo como Deus e Homem,
há lendas, que nos séculos se somem,
que falam de uma quarta personagem.
Era um monarca russo conhecido
pela sua bondade e que partira
repleto de riquezas que ia dando
pelo caminho aos pobres que ia achando,
de modo que Jesus desvanecido
vendo-o chegar sem nada… lhe sorrira!
Iniquidade
Escandalosamente Portugal
tornou-se num país onde a miséria
ombreia com o grande capital
sem nada se fazer nesta matéria.
Enquanto a maior parte da nação
vive de escassos meios económicos
não falta gente, em postos de gestão,
fruindo de ordenados astronómicos.
Há que denunciá-lo abertamente
e em nome dos princípios da justiça
pôr cobro aos exageros da cobiça.
Entre as populações do continente,
por muito que este quadro se componha,
somos um caso extremo de vergonha!
Cidadania
Não há que ter receio de falar
denunciando o mal onde ele existe
e sobretudo quando ele persiste
em se manter e até se exacerbar.
Constitui um dever do cidadão
bater-se contra toda a demasia,
quer do poder central quer da autarquia,
no que respeita à sua actuação..
Calar-se ante o abuso do poder
por cobardia ou falta de coragem
é não cumprir um cívico dever.
Há que recuperar a nossa imagem
de povo livre e rejeitar a canga
que nos pretenda impor qualquer capanga!
"Lição de tolerância"
Ao Prof. Erik Trinkaus
Dou-lhe toda a razão, sinceramente,
insigne Professor, pela censura
que faz ao mundo de hoje, à nossa gente,
de acordo com a sua conjectura.
Embora exista alguma discordância,
tudo faz crer que entre os Neandertais
e os nossos mais antigos ancestrais
houve uma relativa tolerância.
Contrariamente a nós, civilizados,
onde o racismo ainda é uma praga,
eles nos dão lições… que nada paga.
Tratando-se de ramos afastados
da espécie humana em franca divergência,
nada impediu a sua convivência!
Inutilidades
Que triste parlamento que nós temos,
sem nível, sem prestígio, sem altura,
quase uma espécie de caricatura,
imagem do país em que vivemos!
Para que servem tantos deputados
ali fazendo não se sabe o quê
pois toda a gente se dá conta e vê
que a maioria se mantêm calados?
Pior, há que dizê-lo sem temor,
somente os deputados dos concelhos,
sejam laranjas, rosas ou vermelhos.
Faça o poder autárquico o que for,
abúlicos, acéfalos, daltónicos,
não dizem nada porque são afónicos!
O Cristo Negro
No centenário do nascimento
de Monsenhor Nunes Pereira
Expressamente um dia para mim
o Padre. Monsenhor Nunes Pereira
com toda a sua excepcional craveira
fez um desenho a tinta de nanquim
do Cristo Negro exposto no Museu
conimbricense, um Cristo que entretanto
foi sujeito a restauro, tal e tanto
que o primitivo aspecto se perdeu.
Esse desenho que paguei bem caro
por se tratar de um documento raro
fiz dele oferta à Escola de Gouveia,
de onde foi retirado sem pudor
por cupidez ou se tratar de ideia
contrária à de um qualquer opositor.
O painel goiense dos Reis Magos
Que original é o quadro dos Reis Magos
que na igreja de Góis está patente,
sendo de lamentar os seus estragos
por obra só do tempo certamente.
Nunca vi cena tão encantadora
dando nas vistas, antes de mais nada,
o lindo rosto de Nossa Senhora
tão expressivamente recatada.
Também me toca muito o coração
o Menino estendendo a sua mão
ao mais barbudo rei da comitiva,
o qual, ao que parece, faz tenção
de lha beijar de forma alternativa
entre veneradora e afectiva!
Santa Maria Maior
Todas as Nossas Senhoras
são grandes por natureza,
todas sendo encantadoras,
todas de extrema beleza.
Há-as de vários tamanhos,
conforme o sítio ou lugar,
uma têm olhos castanhos,
outras azuis cor do mar.
Bonitas são todas elas,
todas são lindas e belas
pois são a Mãe de Senhor.
Em todas há santidade,
mas a de Góis, na verdade,
é de todas… a Maior!
"Hony soit qui mal y pense"
Quem a seu cargo tem, na sua mão,
seja em que forma for ou entender,
dinheiros pertencentes à nação
de suspeições se deve precaver.
Ainda que não haja essa intenção,
ninguém pode impedir de se dizer
que é fácil existir a tentação
de se lhes dar o fim que se quiser.
O caso é que são tantos e tão vários
os actos deste género que o povo
admite estar perante um caso novo.
Nesta questão de fundos monetários,
há que tomar os máximos cuidados
com as suposições dos mal pensados!
Aldeias do xisto
Vezes sem conta, em Góis, eu percorri
suas aldeias típicas de xisto;
não sei já quantas vezes por ali
andei sem pretender gabar-me disto.
Podia enumerá-las uma a uma,
desde Aigra Velha e Nova à Comareira,
mas eu prefiro não citar nenhuma
a fim de não pôr lenha na fogueira.
Por elas passa, julgo, em grande parte,
o futuro turístico de Góis,
que entre a montanha e a vila se reparte.
Falo por mim, que numa viva roda,
por ventos, chuvas, esquentados sóis,
trilhei aquela zona… hoje na moda!
Objurgatória
Quem do Museu, que foi minha paixão,
na vila de Arganil organizado
por minha iniciativa, é o ladrão
do monumento ali depositado?
Como se disse no comunicado
a que foi dada larga difusão,
era uma ara romana, cujo achado
não se verificou na região.
Era de Góis e dedicada estava
à divindade indígena Ilurbeda
que por aqueles sítios se adorava.
Seja quem for o seu depredador,
que ela o castigue em lenta labareda
até que em seu lugar a volte a pôr!
Lidar com pedras
As vilas, as aldeias, as cidades,
na sua topográfica estrutura,
têm alma própria, têm identidades
como qualquer pessoa ou criatura.
Existe um eixo de orientação
no seu traçado, nunca lhes faltando
um largo principal, cuja feição
não se deve alterar de quando em quando.
Não se pode mexer de qualquer modo
numa edificação, num monumento
sob pena de estragá-los no seu todo.
Cada lugar merece ser tratado
quando se impõe, mas com discernimento
a fim de não ficar… desvirtuado
Envolta em véus
(Ode formalmente nerudiana)
- "Sabe, vizinho, o que é a Poesia,
essa deusa discreta, envolta em véus,
que embora tenha por morada os céus
às vezes faz aos homens companhia?
É que eu, por mais que tente descrevê-la,
não encontro as palavras acertadas
e nem sequer um pouco aproximadas
que possam dar qualquer imagem dela".
- "Olhe, vizinho, ainda que eu quisesse
dar-lhe uma ajuda, não lho sei dizer
porque ela por aqui não aparece".
- "Esse é precisamente o meu problema,
pois quanto mais a quero conhecer
mais ela se me oculta… por sistema"!
Identidade e património
A maneira de ser, a identidade
de uma nação, de um povo, que se entende
como uma espécie de comunidade,
da forma de governo não depende.
Assenta no diálogo constante,
ininterrupto, a bem dizer diário,
com as leiras que temos por diante
servindo-nos de berço e de cenário.
Governe-nos um rei ou presidente,
Manuel, João, Cesário ou Possidónio,
o caso nada tem de transcendente.
O que de uma horda faz uma nação
é o seu comum apego ao património
ainda que não passe de um torrão!
Crimes de opinião
Vem do fundo dos tempos um clamor,
de todos os quadrantes do universo,
contra o poder despótico, perverso,
que encheu a humanidade de pavor:
gritos de sofrimento nas fogueiras
ateadas pela Santa Inquisição,
gente de bem metida na prisão,
execuções sem culpas verdadeiras.
Quando passeio os olhos da memória
pelas vilezas de que fala a história,
um sentimento de asco me domina.
Perante os crimes que o poder inventa,
não há sabão, lexívia ou água benta
que lave a mão que as mentes assassina!
Divina graça
Senhor, estou-te grato por me teres
feito nascer aqui em Portugal
onde são meigas todas as mulheres
dotadas de candura natural.
Podia ter nascido na Inglaterra,
França, Alemanha, Espanha, em qualquer parte
notável pela força e pela guerra
ou pelas mais famosas obras de arte.
Mas ainda bem que assim não sucedeu
pois de outra sorte nunca encontraria
aquela que inteirinha se me deu.
Onde é que fora deste meu país,
católico romano de raiz,
mulher tão recatada existiria?
Por tudo ria
Ria por tudo; era um regalo ouvir
as suas espontâneas gargalhadas,
inconfundíveis, personalizadas,
como somente os puros sabem rir.
Era um sintoma de felicidade,
de paz interna, autêntica, assumida,
peculiar de uma alma dividida
entre o prazer da vida e a santidade.
Por tudo ria, qual uma criança,
sem mal algum, com toda a confiança,
na rua, no café, no lar, à mesa.
Desde o momento em que ela faleceu,
ouvem-na agora os anjos lá no céu
sem darem quaisquer mostras de estranheza!
João de Ruão
Tenho uma Nossa Senhora
feita de pedra d'Ançã:
compreia-a numa penhora
de nobre casa beirã.
Parece vinda de fora
pela impressão que me dá,
mas o certo, muito embora,
é que é de pedra de cá.
Tem uma cara tão bela,
uma expressão feminina
tão delicada, tão fina,
que por outras como a dela
se vê ser obra da mão
do mesmo autor coimbrão.
"Pour bien"
De volta a casa
Não foi de espada em punho e sujeição
à viva força, como os castelhanos,
que os portugueses, com o coração,
foram de meio mundo soberanos.
Hispânicos no berço e nas raízes,
mas desde logo os mais ocidentais,
pese à identidade das matrizes,
sempre nos mantivemos desiguais.
No contexto europeu que perfilhámos
de volta do Império que deixámos
entregue de bom grado aos seus destinos,
há que fazer ouvir a nossa voz,
pois apesar de sermos pequeninos
temos o génio de Camões por nós!
Apresentação
Desvanecido o poeta lê seus versos
com cavernosa voz e gestos largos,
uns menos graves, outros mais amargos,
passando as folhas, ao calhar, dispersos.
Na mesa, gente grada da cultura,
que escuta atenta como se gostasse
a avaliarmos pela sua face
virada para a dita criatura.
Aplausos na assistência prolongados,
consagratórios, mesmo que ninguém
tenha entendido os tópicos versados.
Um êxito: o poeta com desdém
abandona o salão persuadido
de ser um grande génio incompreendido!
O último Silveira
Em pé, de corpo inteiro, sobre a tela,
vestido de armadura de parada,
gola branca de folhos, engomada,
à maneira da corte de Castela,
eis o terceiro conde de Sortelha,
senhor de Góis e D.Luis de nome,
Silveira de apelido e de renome
prócere ilustre da nobreza velha!
Da boca do mastim posto ao seu lado
pende-lhe em ferro o guante descalçado
de uma das mãos de fina contextura.
No canto esquerdo, ao cimo, da pintura
à laia de brasão vê-se a figura
de flecha a prumo em arco retesado!
Falar com rosas
Falar com rosas é falar com Deus
que nelas pôs a sua complacência,
sem precisão de O procurar nos céus
onde Ele tem a sua residência.
Nelas eu vejo a sua natureza
na sua especiosa perfeição,
deixando-me vencer pela certeza
de nelas eu ter Deus à minha mão.
Se Deus tem cheiro, como às vezes penso,
o mesmo deve ser que as rosas deitam,
mais apurado embora ou mais intenso.
Quando com Deus desejo conversar,
sirvo-me delas, que aos montões enfeitam
as jarras "Vista Alegre" do meu lar!
Modus in rebus
Haja decoro na governação:
perante o povo imerso na miséria
evitem os sinais de ostentação
de forma escandalosa e deletéria!
Respeitem quem vos paga os ordenados
com seu suor do rosto e rendimentos
de autêntica pobreza comparados
com os vossos iníquos vencimentos!
Em vez de luxuosas viaturas
topo de gama, para dar nas vistas
como se fossem grandes criaturas,
desloquem-se de modo mais modesto
e, se possível for, sem motoristas,
visando dar ao povo um ar honesto!7
Raça
Seja o que for que esta palavra diga
e tanta gente incomodar parece,
não me deixo levar nessa cantiga
porquanto nem me aquenta ou arrefece.
O que é verdade é que ela é muito antiga
e facilmente não desaparece;
por mim, por mais que alguém me contradiga,
sobre ela digo quanto me apetece.
Se alguém não quer ter raça, é lá com ele,
seja qual for a cor da sua pele
e a forma corporal de que disponha.
No que me diz respeito, continuo
a proclamar a raça que possuo,
sem de ser português… eu ter vergonha!
CAEIRO
Estás equivocado no que dizes,
neste último poema vindo a lume,
quanto ao que diz respeito às directrizes
às quais teu pensamento se resume.
Se não, vê lá: se escreves com razão
que não havia tempo como tal,
como entender a tua afirmação
de ele ter um começo e um final?
Nas tuas teorias não embarco
e por muito respeito que me inspires
nada me impede de agitar o charco.
Nem tudo é "definido" e "limitado",
Poeta intimamente defraudado
por uma simples "cousa" te sentires!
Não te esqueças, Senhor, dos meus Amigos!
Senhor, eu sei que tenho ao pé de Ti
um lugar reservado em atenção
àquela que me deste e que eu perdi
para desgraça minha em dia não.
Se nunca grande coisa te pedi,
peço-ta agora, nesta ocasião,
enquanto não me levas para aí,
onde reside já meu coração.
Guarda também, Senhor, uns bons lugares
para todos os meus familiares
perto de nós os dois, se puder ser!
E não te esqueças, que isso é importante,
dos meus Amigos, que desejo ter
num sítio nem somenos nem distante!
Farisaísmo
Como qualquer de nós, também mamou
o Menino-Jesus em pequenino
conforme antigo artista o figurou
no quadro de um convento feminino.
Hoje depositado no museu
da cidade de Aveiro, em bom estado,
de quando em vez um que outro fariseu
se mostra com a cena inconformado.
É que a Senhora sua Mãe, de pé,
mostra um dos seios túrgido de leite
que a criancinha suga com deleite.
Que tem a ver o caso com a Fé
se foi precisamente à sombra dela
que o seu autor pintou aquela tela?
Heróis, poltrões e santos
Do cobarde ao herói medeia um passo,
uma folhinha de papel de seda,
um breve instante, um minguado espaço,
o tempo de um carvão ser labareda.
E vice-versa, pode porventura
o consagrado herói dar em poltrão,
bastando às vezes ter, a dada altura,
uma oportunidade à sua mão.
Quantos heróis são fruto ocasional
de um fugir para a frente face ao medo
que se apodera do poltrão banal?!...
Entre um e outro é mínima a fronteira,
o que não constitui nenhum segredo:
difícil é ser santo a vida inteira!
"Trago-te na minha vida"
Vítor Matos e Sá
Comigo a trago ainda antes de eu nascer:
ainda era eu pó de estrela ou coisa assim
e já prevendo o que ia acontecer
Deus a terá pensado para mim.
Desde o primeiro instante em que eu a vi,
toda "purinha" como a luz da aurora,
olhos nos olhos, a reconheci
imediatamente, sem demora.
Hoje que ela voltou ao paraíso
onde, se não for antes, penso vê-la
no prometido dia do juízo,
continuo em espírito a trazê-la
dentro de mim nos filhos que me deu
e prova são de que ela não morreu!
Discriminação intelectual:
o drama português
A discriminação pode tomar
as mais diversas formas da existência
desde o país, a raça ou o falar
aos diferentes graus de inteligência.
De todas as razões que a determinam
esta é a mais cruel e revoltante
porquanto a sua vítima eliminam
por se tratar de um cérebro pensante.
Para a mediocridade que detém
as rédeas do poder ou do saber
uma pessoa destas não convém.
Como alegada escória que não presta,
fora da pátria, a estranhos só lhe resta
a sua inteligência … oferecer!
Disparidade
Nada melhor para com Deus falar
que a linguagem musical do verso,
a mesma que entre si devem usar
os anjos e as estrelas do universo.
Não creio ser critério controverso
nem das sagradas normas se afastar:
por isso é deste jeito que converso
com Quem fez o favor de me criar.
É sempre sob a forma de soneto
que me dirijo a Ele com afecto
por se tratar da flor da poesia.
De igual maneira em verso me dá troco,
embora com maior categoria,
primando pelo espírito barroco!
Ilurbeda
Il est des lieux où souffle l’esprit”
Maurice Barrès
Andam deuses pagãos pelas vertentes
voltadas para a crista do Penedo
em cujo panorâmico fraguedo
há do seu génio provas evidentes.
A par do nome hispânico-latino
inscrito em duas árulas romanas
muitas gravuras há pré-lusitanas
sopradas pelo espírito divino.
Difícil é saber interpretar
o que as populações nos transmitiram
nos riscos que deixaram lá ficar.
Sem pretender qualquer decifração,
limito-me a dizer que elas sentiram
andarem deuses… por aquele chão!
“O destino do homem é o conhecimento”
Ao Prof. Carlos Fiolhais
Saber cada vez mais, dia após dia,
ilimitadamente, é de certeza
o destino supremo, que o inebria,
de todo o ser humano que se preza.
Ir aumentando os seus conhecimentos
pelos caminhos árduos da ciência,
compartilhando os seus descobrimentos,
que outro labor mais nobre há na existência?
Dos telescópios aos laboratórios,
da congeminação à conjectura,
o sábio faz da vida uma aventura.
Nos seus elaborados relatórios,
vai da ignorância levantando os véus
até chegar à concepção de Deus!
Candura e optimismo
Enganam-se a si próprios os políticos
que tudo à sua volta querem ver
nadar num mar de rosas… sem dizer
que os tempos actuais são muito críticos.
O mal é quando, procedendo assim,
pensam que iludem a comunidade,
que farta está da sua vacuidade
e só vê mato onde eles vêem jardim.
Já vem de muito longe esta atitude
que por igual afecta ambos os lados:
quem pretende enganar e os enganados.
Só que presentemente, por virtude
de não querer fazer figura de urso,
o povo já não vai nesse discurso!
Voltar ao paraíso
Talvez um dia o homem descontente
com a visão da Terra poluída
a troque por um sítio diferente
onde reconstruir a sua vida.
Mais próximo de Deus seguramente
e sob a sua paternal guarida,
em Marte, onde é propício o ambiente,
terá nova existência garantida.
Sem precisar de leis, em anarquia,
em liberdade física e mental,
outra será também sua moral:
nada de “excelentíssimo senhor”
nem presidente seja do que for
ainda que tão-só de freguesia!
Glória olímpica
Nenhuma glória humana se compara
à do participante com sucesso
nos olímpicos jogos, a mais rara
de todas as proezas que conheço.
De volta ao seu país, levando ao peito
a medalha de bronze, prata ou ouro,
é motivo de orgulho e de respeito
como entre os gregos era outrora o louro.
Acima dos políticos que breve
o povo esquece e, quase como escória,
reduz a pó nas páginas da história,
o atleta que na frente se manteve
em qualquer uma das competições
incólume atravessa as gerações!
Nelson Évora
Ao som da “portuguesa”, olhos no céu,
lento subiu no mastro principal
a bandeira das quinas em sinal
de se ter ganho o olímpico troféu.
Ante o esforço que inundou de pasmo
quem teve a dita de presenciar
do luso atleta a prova singular
todo o país vibrou de entusiasmo.
Merece honras de herói o campeão
que medalhado de ouro conquistou
o reconhecimento da nação.
Nesta hora de profundo abatimento
em que o poder político a lançou
vê nele a pátria uma razão de alento!
Editorial
Para que Portugal, em nossos dias,
se recupere e se coloque ao lado
de qualquer outro progressivo Estado
tem de alterar seu nível de chefias.
O mal está, não na população,
sujeita aos sacrifícios mais extremos,
mas nos banais políticos que temos
e que estão dando cabo da nação.
Em vez de ocasionais oportunistas
à frente dos destinos do país
que tem todo o direito a ser feliz,
fazem-nos falta os grandes Estadistas
capazes de fazer de Portugal
uma nação moderna e actual!
Testemunho olímpico
Jogou-se, conviveu-se em paridade
como se a China fosse o mundo inteiro
sem distinções de nacionalidade,
de raças, línguas, cor da pele ou cheiro.
Em clima fraternal de amor e paz,
lutou-se com vigor por um lugar
no pódium reservado ao mais capaz
em cada última prova a disputar.
Durante três semanas, em Pequim,
reacendeu-se o espírito da Grécia
sem qualquer incidente ou peripécia.
Extinta a chama olímpica por fim,
de novo passará de mão em mão
para outra universal competição!
"La boina gris"
Paráfrase a Pablo Neruda
Pela minha existência não passaram
Natércias verdadeiras ou fingidas
nem quaisquer outras musas referidas
pelos Poetas que as imaginaram.
Não tive Marissóis nem Marissombas,
as "boinas grises" das canções de amor
dos verdes anos de Neruda em sombras
e brasas escaldantes de fervor.
Com Dinamenes, Bárbaras cativas,
Ofélias, Julietas não sonhei
nem poeticamente as invoquei.
Sem recorrer a literárias divas,
foi a "Rucinha" a doce companheira
que a mente me ocupou a vida inteira!
Uma só cor de pele
Foi uma apoteose a sua entrada
na sala reservada à Convenção
dos Democratas, calendarizada
em torno à Presidência da Nação.
Por entre intermináveis ovações
e respectivos agradecimentos,
que enchiam de calor os corações
unidos pelos mesmos sentimentos,
o negro cidadão Barack Obama
em voz segura e calma apresentou
as linhas principais do seu programa.
A América no “sonho” acreditou:
a fazer fé nas perspectivas dele,
ninguém terá diversa cor de pele!
Os meus sonetos
São poesia pura os meus sonetos,
seja qual for o tema ou a matéria
tratada nos quartetos e tercetos
escritos sempre de maneira séria.
Não facilito desde logo em nada
desde o vocabulário que utilizo
à musicalidade combinada
com meu estilo límpido e conciso.
Não sei se alguma vez qualquer poeta
me superou nesta modalidade
a que dedico a minha actividade.
Ainda que espontâneos no começo,
trabalho-os da maneira que conheço
para lhes dar uma expressão correcta!
Fazer o mal… por bem
Ao Poeta Zé-Manel Polido
Por excesso de zelo ou calculismo
- quem poderá fazer a distinção? –
encheu-se o céu de santos por acção
de um falso e diabólico humanismo.
Nas chamas que ateou a Inquisição
a fim de combater o judaísmo
e limpar de erros o catolicismo
houve quem alcançasse a remissão.
Fosse cinismo ou pura crueldade
ou simplesmente assomos de vaidade,
o mal em si não conheceu fronteiras.
No juízo de Deus, provavelmente,
quantos hereges mortos nas fogueiras
ganho terão de santos a patente!
Premonição talmúdica
Se pactuares com a crueldade,
se face ao mal não te escandalizares,
se perante a injustiça não te irares,
serás tu próprio réu de iniquidade.
Escrito está no texto do Talmude
esta premonição proverbial
que muito embora seja um tanto rude
é francamente sapiencial.
É que quem não combate a tirania,
quem a consente sem se opor a ela
talvez um dia venha a cometê-la,
podendo dar-se o caso, em teoria,
de mais cruel ainda vir a ser
que aqueles que não soube repreender!
“Cantigas de arroz pardo”
Estúpido não é, mas insensato
o povo português, a nossa gente,
deixando-se levar frequentemente
por um qualquer inepto ou mentecapto.
Por isso os maus políticos prosperam
no seio deste povo que é o nosso,
a quem nada mais deixam que o caroço
dos frutos cuja polpa eles comeram.
Por falta de bom senso ou de cautela,
sem nos valer de nada a experiência,
caímos sempre todos na esparrela.
Com lérias ou cantigas de arroz pardo,
induzem-nos, à força de insistência,
a docilmente suportar o fardo!
Ouço uma voz no céu
Ouço uma voz no céu por mim rezando,
inconfundível, meiga, aveludada,
uma voz de anjo, toda perfumada,
que ter comigo vem de quando em quando.
É sobretudo à noite que a escuto
quando coalhado está o firmamento
de estrelas, em que vejo um elemento
do espírito de Deus ou atributo.
Chega até mim não sei por que trajecto,
mas a verdade é que eu a reconheço
pelo seu tom dulcíssimo de afecto.
É como uma cadência de orações
ininterrupta, que não tem começo
nem fim terá nas minhas ilusões!
Cinzas do mal
A muito custo, após tanto sofrer,
livrámo-nos da Santa Inquisição
e mais recentemente, a bem dizer,
dos vários campos de concentração.
Tirando algumas poucas excepções,
livrou-se o ser humano da tortura
e das maciças exterminações
de povos por motivos de cultura.
Presentemente reina a liberdade
em quase todo o mundo por virtude
de uma geral mudança de atitude.
O que intimida ainda a humanidade
são nos confusos tempos actuais
as pequeninas "soluções finais"!
Aquele violino
Na solidão da noite quando chega
com pés de seda vagarosamente
e todo o meu espírito se entrega
às solicitações desse ambiente,
ponho-me a ouvir o som dos violinos
das grandes sinfonias siderais,
inconfundíveis, doces, genuínos
regidos por maestros geniais.
Entre eles tenho a estranha sensação
de existir um, à guisa de excepção,
que toca unicamente para mim,
o que me leva a pretender saber
qual é a estrela que tocando assim
me quer na sua música envolver!
Leonardo da Vinci
Meu quarto de estudante estava cheio,
pelas paredes a carvão pintadas.
de frases suas seleccionadas,
que ainda estarão lá, segundo creio.
Durante toda a minha juventude,
como aliás nos dias de hoje ainda,
o meu modelo foi, porque não finda
um ideal, por mais que a gente mude.
Eu nele via a perfeição suprema
da criatura humana, a que eu então
aspirava também com força extrema.
Fiquei pelo caminho! Que mais dá?
Se, no tocante ao mais, não cheguei lá,
ultrapassei-o… pelo coração!
A minha versão
Painéis de S. Vicente! que loucura
o que se tem escrito a seu respeito,
teses para esquecer, coisas sem jeito,
faltando só chamar-lhe iluminura!
Que simples é, porém, sua leitura
em consonância com o meu conceito,
solene, teatral, de grande efeito,
independente de qualquer figura!
Basta olhar para o todo e concluir
estar ali a sociedade inteira
de novo unida após Alfarrobeira.
Ao cabo de cem anos de discórdia,
é tempo de parar de discutir
perante o testemunho da Concórdia!
“Cântico dos cânticos”
Tão recatada como a flor do cardo,
que linda foste, meu amor, que linda!
que bem cheiroso era o teu corpo a nardo
que não se esvaneceu de todo ainda!
Ai quem me dera ter de Salomão
a lira que ele usou para cantar
da esposa a irresistível sedução,
morena como as tendas de Quedar!
Como eu te exaltaria, ó bem amada!
qual outra Sulamita requestada,
mas de alva pele e olhos cor do céu!
Ninguém mais falaria, ouvindo o meu,
no “Cântico dos Cânticos” judeu,
senhora!… que por Deus me foste dada!
Ode à estupidez
Contra a boçalidade, seja qual
a forma que assumir ou que tiver,
modo não há de a gente se bater
pois sempre acabará por ficar mal.
Já Schiller na Alemanha o afirmava
em termos lapidares que hoje ainda
estão constantemente na berlinda,
porque à estupidez ninguém a trava.
Os próprios deuses, diz, que todos devem
nos templos escutar sem retorquir
a combater com ela não se atrevem.
Só quem for louco, pois, ou muito burro
dá réplica ao estúpido casmurro
perante o qual é inútil… insistir!
“Miragem”
Antero de Quental, meu Santo Antero
que electrizaste a minha juventude
pela tua bondade e porte austero,
ao mesmo tempo generoso e rude,
ainda agora sei, quase de cor,
os teus sonetos todos, mais de cem,
que são para o meu gosto os de maior
beleza e perfeição que fez alguém.
Também pelo Ideal, quando estudante,
lanças quebrei na liça com denodo,
armado em puro cavaleiro andante.
Tirando o Amor, Antero, tudo o resto
em vasa se desfez, como de resto
contigo aconteceu: fumaça e lodo!
Serviço público
Ninguém pode dispor do que é de todos
seja qual for a táctica adoptada:
comum melhoramento ou, pelos modos,
particular benesse encapotada.
Estando em causa os bens que constituem
o património da comunidade,
é bom que os curiões não continuem
a pretender impor sua vontade.
Em tudo quanto seja decidir
acerca do bem público em geral
há que actuar com limpidez total.
Sem desejar no mínimo atingir
quem quer que seja, trata-se somente
de posição tomar nesta vertente!
Abuso de poder
Ao Engº Dr. João Nogueira Ramos
Quem lida com bens públicos não deve
em caso algum ser alvo de suspeita:
não pode receber nenhuma peita
ou ser objecto da pressão mais leve.
Importa com lisura proceder,
com toda a transparência em cada caso;
ainda que se trate de um só vaso,
dispor não pode de qualquer haver.
Se no tempo dos reis isso era norma
a ponto de diversos infractores
passarem por gravosos dissabores,
agora que vivemos, hoje em dia,
num arremedo de democracia,
porque não se actuar da mesma forma?
Um bom combate
Travei um bom combate. É tempo agora
De, próximo do fim, fazer as malas
E no porta-bagagens colocá-las
Para a qualquer momento me ir embora.
Quer dentro de fronteiras quer lá fora
O meu país servi, travei batalhas
Nas áreas do saber, não quis medalhas,
Deixando uma família… que me adora.
Reveses tive alguns, porque ninguém
Se encontra livre de na vida achar
Pessoas que não trazem mais que azar.
Tudo, porém, foi compensado e bem
Pelo maior amor que alguém já teve
E para o qual a vida foi tão breve!
Bolhas de ar
Quando esmorece o meu patriotismo
e desfalece a minha presunção
de pertencer à clássica nação
que se imortalizou pelo lirismo;
quando me vence acaso o pessimismo
ainda que pela única razão
de não ter tido nunca ocasião
de praticar um acto de heroísmo;
recorro logo aos versos de Camões
para como acendalhas atiçar
as cinzas das extintas ilusões.
E por instantes arde em labareda
a minha fé, que a alma me embebeda
de sonhos, que são bolhas cheias de ar!
Democraticidade
Democraticamente governando
há que ser transparente nos seus actos
de modo algum desfigurando os factos
mesmo que seja só de quando em quando.
Há que perante cada cidadão
lhe prestar contas rigorosamente
sem lhe deixar a dúvida na mente
ou fundamento algum de suspeição.
Nos cargos pelo povo conferidos
não pode haver os mínimos buracos
ou, por outras palavras, pontos fracos.
Quem não reúne, pois, as condições
para exercer os cargos referidos
melhor será… que deixe essas funções!
O chapéuzinho dela
Tenho guardado o chapéuzinho dela,
de palha, de aba larga, que trazia
quando com seus irmãos se divertia,
ficando sob o carro que a atropela.
Sem lhe prestar socorro, o condutor
fugiu desconcertado… em altos gritos
enquanto os seus pequenos irmãozitos
não sabem que fazer, cheios de horror.
Tinha nove anos, uma mulherzinha,
bonita, muito fina, encantadora,
a quem chamavam todos… Mariinha.
Guardado tenho o seu chapéu de palha
como se acaso fosse uma mortalha
que me acompanha,,, pela vida fora!
“O melhor… são as crianças”
Deus proteja as crianças: elas são
incontestavelmente, é bem de ver,
a lídima esperança da nação,
o seu futuro…ainda por haver!
Permita Deus, de todo o coração,
que no mundo actual possam crescer
livres de todo o mal, da corrupção
que pode o seu porvir comprometer!
Eu nisto estou de acordo com Pessoa
quando ele afirma que o melhor do mundo
são as crianças de que se povoa.
Não tem perdão quem as escandaliza,
não tem desculpa quem as martiriza,
um crime grave … a combater a fundo!
Irrelevância e transcendência
Quando uma estrela perde a sua luz,
quando se apaga uma constelação,
o espírito de Deus não se reduz
nem se ressente a sua condição.
Mais astro menos astro… nada diz
ao ser divino que a existência deu
à raça humana para ser feliz
como uma espécie de retrato seu.
Enquanto a morte de qualquer estrela
é para Deus um facto irrelevante
sem dar sequer talvez por falta dela,
o mesmo quanto ao homem não sucede,
pois é por ele, como ser pensante,
que a sua própria dimensão se mede!
Beira e Beirões
Os chamados Beirões não constituem
os habitantes de qualquer das Beiras,
embora quase todos continuem
a ter estas noções por verdadeiras.
A Beira é que é a terra dos Beirões
que deram nome ao solo que ocuparam
e nele, vindos de outras regiões,
com armas e bagagens se instalaram.
Hei-de provar um dia, se calhar,
que assim aconteceu com fundamento
em dados de cariz elementar.
Do meu ponto de vista não duvido
de que esta teoria faz sentido
na plena fé… do meu convencimento!
Recíprocas mensagens
No céu, por trás do mundo das estrelas,
a milhões de anos-luz, provavelmente,
onde se chega apenas pela mente,
que é mais veloz que o movimento delas,
toca um violino sobrenatural,
um “stradivárius” de alta qualidade,
que apenas eu possuo a faculdade
de ouvir por um motivo especial.
É a tua voz, amor, que Deus permite
que chegue aos meus ouvidos, em surdina,
porque para o amor… não há limite.
Em reciprocidade eu te respondo
com minha poesia genuína
que para ti na terra vou compondo!
A dança goiense do baião
Na Quinta do Baião, junto do Ceira,
em Góis, que é região de fidalguia,
passou-se muita história verdadeira
que não deixar morrer importaria.
Foi um solar de gente da nobreza,
como se nota sem dificuldade
devido ao seu aspecto de grandeza,
que ainda se mantém na actualidade.
Comprada pela Câmara, tem sido
objecto, sabe Deus por que razões,
de trocas e baldrocas sem sentido.
Há que pôr termo a estas confusões
por se tratar de um bem municipal
de grande relevância cultural!
A vida comanda o sonho
Mais do que o sonho a comandar a vida
está minha vontade, o meu querer,
que à sua frente leva de vencida
quanto se oponha ao que pretendo ser.
É bonito sonhar de olhos abertos
perante a mais banal realidade,
mas é preciso dar os passos certos
para atingir qualquer finalidade.
Venha o sonho dourar em cada dia
meus actos, meus projectos pessoais
como se fossem pura fantasia!
As coisas mais concretas e reais
não devem prescindir da Poesia
que lhes confere a luz dos Ideais!
Mona Lisa
Quem é, quem foi, de quem será o rosto,
quem fez a encomenda do retrato,
porque a aceitou e a pintou com gosto,
o artista nunca o disse por recato.
À falta de segura informação,
teremos que ser nós a desvendá-lo
com o nosso poder de intuição,
tentando com a alma interpretá-lo.
Varando-me os sentidos como um dardo,
sempre me seduziu essa pintura
e, através dela, o próprio Leonardo.
Real ou talvez não, eu imagino
que o mestre nos legou nesta figura
uma visão do eterno feminino.
Última instância!
A educação vai mal em Portugal:
ninguém se entende, em qualquer grau de ensino,
sobre o que deve ser fundamental
e qual o seu papel ou seu destino.
Quer do ponto de vista sindical,
pelo que vejo e pelo que imagino,
quer do critério ministerial,
o que se passa é puro desatino.
Pelo que diz respeito à educação,
está em causa, a muito breve trecho,
a própria identidade da nação.
A continuar assim, neste desleixo,
a formação da nossa juventude,
só resta a Deus pedir… que nos ajude!
Engº Manuel Nogueira Ramos
Foi-se com ele para a sepultura,
na velha Góis dos seus antepassados,
um dos seus filhos mais qualificados
em termos de nobreza e de cultura.
Trato cortês, distinto de figura,
estou a vê-lo, modos educados,
costumes sociais afidalgados,
uma excelente e amável criatura!
Assim vai Góis perdendo os seus valores,
os seus aristocráticos senhores,
as suas mais notáveis personagens.
Que ao menos o padrão da sua vida,
que Deus chamou a si na hora devida,
de exemplo sirva às próximas linhagens!
D. João da Silveira
Herdeiro por direitos de nobreza
dos títulos do pai, senhor de Góis,
em Alcácer-Quibir, entre os heróis,
deu a alma a Deus nessa funesta empresa.
Acompanhando D. Sebastião
menino e moço cheio de ilusões,
honrou seus pergaminhos e brasões
cumprindo o seu dever de cortesão.
Nunca um senhor de Góis regateou
à Pátria e ao seu Rei por lealdade
seu próprio sangue, a vida e o porvir.
Também por ele, em Alcácer-Quibir,
de onde aos seus paços nunca mais tomou,
gemeram as guitarras ... da saudade!
Benazir Bhutto
Cobardemente assassinada a tiro,
à queima-roupa, por um suicida,
Benazir Bhutto terminou a vida
em pleno sonho sem qualquer suspiro.
Morreu subitamente rodeada
dos seus indefectíveis apoiantes
que em dísticos e vozes triunfantes
lhe davam a vitória desejada.
Democraticamente era a esperança
de um povo em prolongada ditadura
sob a invocação da segurança.
Morreu Benazir Bhutto: uma vez mais
uma mulher de grande envergadura
morreu pelos seus altos ideais!
Saber ouvir
Só não quer escutar a voz do povo
quem não está seguro da razão
e quer impor a sua opinião,
o que aliás não é nada de novo.
Há que remar contra esta má tendência
de tudo resolver sem referendo
seja qual for o caso ou diferendo
que esteja em causa face à prepotência.
Dê-se ao povo em questões de discordância
o supremo direito que possui
de se pronunciar… mesmo à distância.
Depreciar o parecer alheio,
além do mais, no fundo constitui
a mais completa prova de receio!...
João Alves Simões
João Alves Simões, amigo meu
que muito estimo e prezo, à sua custa
subiu a pulso e por maneira justa
à posição que tem e mereceu.
Admiro-lhe a indómita vontade
de triunfar na vida social
mantendo embora o porte pessoal
da sua originária identidade.
Ufana-se de ser "um pé rapado"
que em berço d' ouro, em brasonado lar,
não foi nascido e menos embalado.
Sem desdenhar sua ascendência pobre,
plebeu de facto, como faz notar,
entre os mais nobres não é menos nobre!
Dr. Mário Ramos
Mário Paredes Ramos esquecido
por muitos dos goienses tem andado
embora em seus estudos tenha sido
quem lhes patenteou o seu passado.
Quem pretender saber com precisão
alguma coisa sobre o que ocorreu
no velho burgo e sua região
consulte o Arquivo que ele promoveu.
Fonte de informação não há melhor
em todos os sentidos e matérias
desde as menos credíveis às mais sérias.
Nele tem Góis o seu cronista-mor,
sendo de lamentar que sua história
não seja objecto de maior memória!
Pobres de espírito:
in memoriam
Em certas terras, vilas e cidades,
é frequente verem-se uns tolinhos
que, originando às vezes burburinhos,
são incapazes de fazer maldades.
Conheci muitos pelo país fora,
almas lavadas, corações de pombo:
seu nome não figura em nenhum tombo
nem autarquia alguma os comemora.
Dou como exemplo, em Góis, o bom do Mário,
inofensivo como foi o Roque,
embora não iguais, pelo contrário.
Sem ter de seu um único ceitil,
como ninguém merece que se evoque
o Toninho Espanhol, em Arganil!
A Realeza em Góis
De Góis o velho burgo senhoril
festivamente em arco embandeirou
para saudar, amável e gentil,
Sua Alteza Real que o visitou.
Foi há cem anos que precisamente
El-Rei D. Carlos fez igual visita,
que D. Duarte Pio, seu parente,
noutro contexto agora reedita.
Então, para o banquete oficial,
mandou-se vir de França, em porcelana,
um serviço de mesa especial.
De todo o território da comarca
é Góis a região que mais se ufana
de ter ficado na alma do Monarca! 7
"Margaritas ante porcos"
S. Mateus VII 6
Como nas suas fábulas compara
Esopo ou Fedro, indiferentemente,
é fraca ideia dar a um demente
uma esmeralda ou qualquer gema rara.
É como quem a porcos ou galinhas,
em lugar de bolotas ou ração,
lhes dá para comer, à refeição,
uma porção de pérolas marinhas.
Mal empregado o tempo e o feitio,
desperdiçada a cera e o pavio,
a burilar poemas a preceito,
quando se verifica que a pessoa
a quem são dedicados, com efeito,
preferiria carapau com broa!
Azeite de Góis
Que tratos de polé sofre a azeitona
até chegar a ser azeite puro,
seja em que parte for, lugar ou zona,
sem se prever mudança no futuro!
Há sítios como Góis onde, porém,
o método seguido no lagar
é do melhor que a tradição mantém
na forma de o fazer e preparar.
Bom para o prato, à mesa da família,
também nos templos da comunidade
arde ante Deus à guisa de vigília.
Entre Arganil e o termo da Lousã
pela sua excelente qualidade
melhor azeite que o de Góis não há!
Pedagogia familiar
Nas famílias goienses predomina
um sentimento de aristocracia
não por razões de genealogia,
mas de nobreza de alma, que se ensina.
Tanto partilha deste sentimento
quem na vila reside ou fora dela:
goiense é todo aquele que revela
identidade de comportamento.
Do seu passado histórico orgulhoso,
todo o goiense nem por isso deixa
de ser acolhedor e prestimoso.
Socialmente quando promovido,
o cidadão goiense não se queixa
de em berço de ouro não haver nascido!
Historicidade
Na sua estrutural complexidade
a História não se faz unicamente
com textos de isenção suficiente
e presumível autenticidade.
Faz-se também, com mais veracidade,
com pedras, cacos, contas de colar,
que desde logo têm o seu lugar
no que respeita à historicidade.
Se o texto escrito às vezes nos ilude
por não passar de uma qualquer versão
de quem promove a sua redacção,
a fonte arqueológica, em virtude
de não ter compromissos com ninguém,
é se calhar a que mais força tem!
Maria de Lourdes Guimarães
Em Góis nasceu, em Góis a namorei,
a Maria de Lourdes Guimarães,
com quem na capelinha me casei
mandada construir, além do mais,
pelo senhor da povoação de Góis
e conde de Sortelha, guarda-mor
de D. João Terceiro, embaixador,
que em Góis viria a falecer depois.
Recordo a vila sempre com saudade
pois lá passei românticos momentos
de rara e juvenil felicidade.
Sempre que lhe ouço o nome ou quando o leio,
é para lá que vão meus pensamentos
pois foi dali que minha esposa veio.
Em paridade
Da França vindos e da Normandia,
então sob o domínio de Inglaterra,
quando o Renascimento principia
e a Idade-Média finalmente encerra,
em Góis pululam grandes arquitectos,
artistas de renome contratados
para levar a cabo altos projectos
ainda agora em parte conservados.
Não é para admirar que desde então
em Góis se manifeste a propensão
para o convívio internacional.
Seja qual for a cor dos estandartes,
é grato ver a gente de outras partes
buscar para viver este local!
A caixa de charutos
Na tampa duma caixa de charutos
tenho um quadro pintado por Malhoa:
comprei-o numa loja de produtos
de artesanato há tempos em Lisboa.
Era hábito do mestre utilizar
para dar corpo à sua inspiração
o que na altura ou em qualquer lugar
para esse efeito ele encontrasse à mão.
De natureza sacra, representa,
muito ao seu gosto, Cristo ajoelhado
no sítio onde será crucificado.
Analisada por pessoa isenta,
a caixa de charutos vale agora
uma fortuna… em caso de penhora!
A casa das Ferreirinhas
No Largo do Pombal considerado
em Góis a sua sala de visitas
foi demolido o prédio abandonado
das Ferreirinhas vulgarmente ditas.
Sem requerer nem aguardar despacho
da suprema entidade competente
pela autarquia foi deitado abaixo
na mira de um arranjo pertinente.
A verdade porém é que ainda agora
por mais que se lamente esta demora
tudo no mesmo estado permanece.
O caso é que, tirando o Paço Velho,
se trata do solar que se conhece
mais singular da sede do concelho!
Fidalgo
Cortês de modos e Cortês de nome,
o médico de Góis, Doutor Diogo,
era um grande senhor que desde logo
nunca do meu espírito se some.
No copo de água com que terminou
a minha boda em sala apalaçada
com pinturas no tecto decorada
foi ele quem brindou e discursou.
Era eu então ainda um escolar
em fim de curso, por licenciar,
a quem vaticinou ventos felizes.
Deus o ouviu, pois a verdade é esta:
em todos os aspectos e matizes
a nossa vida foi… sempre uma festa!
Democracia
Hugo Chávez perdeu; ficou provado
que contra o povo que viver deseja
em liberdade, seja como seja,
ninguém tem o poder assegurado.
Fácil não é vencer uma nação
sem primeiro a calar e humilhá-la,
que não há força que lhe tire a fala
enquanto lhe pulsar o coração.
Hugo Chávez perdeu; o povo em massa
saiu às ruas para demonstrar
que a viver livre quer continuar.
Não há para um país pior desgraça
que entregar-se nas mãos de um ditador
qualquer que seja a respectiva cor!
That is the question
Sob o pretexto de um qualquer partido
ao cabo de legítima eleição
indiscutivelmente haver vencido
não tem total poder de decisão.
Sem pretender, para o devido efeito,
fazer doutrina, quero tão-somente
dar uma opinião a este respeito
conforme aquilo que me vai na mente.
É que nem toda a gente vai votar,
o que não quer dizer que não desfrute
do cívico direito de opinar
quando apesar de achar-se programado
entre os vários autarcas se discute
assunto grave ou de maior cuidado!
"Atirai pedras, medíocres!"
Rubén Darío
Quando o monarca D. João Terceiro
por desacatos que ele provocou
Camões fora da pátria colocou
mudando-lhe em desterro o cativeiro,
um escarninho riso sorrateiro
no rosto dos rivais se divisou
e toda a corte se regozijou
por ver-se livre, enfim, do desordeiro.
O mal foi quando o Poeta ao regressar
na mão trazia para lhes mostrar
o poema que nas Índias compusera:
"Agora atirai pedras" - lhes dissera -
"medíocres de engenho e de talento,
atirai pedras, montes de excremento"!
O abantesma da matriz de Góis
Num quinhentista medalhão do tecto
por Luís da Silveira encomendado
a Diogo de Castilho, o arquitecto
daqueles tempos mais solicitado,
figura decepada uma cabeça
hirsuta, feia, trágica e horrenda
constituindo uma excelente peça
com nome epigrafado na legenda.
É o bíblico Holofernes, o feroz
perseguidor do povo da Judeia
a quem Judite deu um fim atroz.
Dada a similitude das feições,
quem desconhece… fica com a ideia
de ser o Holofernes de Midões!
Nossa Senhora do Bebé-chorão
Á memória do Pe. Nunes Pereira
no centenário do seu nascimento.
Por Monsenhor Augusto Nunes P'reira
sobre papel à pena desenhada
tenho na minha sala, encaixilhada,
uma Nossa Senhora à minha beira.
Supõe-se ser a imagem verdadeira
da célebre Senhora venerada
em Arganil em época passada
e quase de certeza que a primeira.
Brotou-lhe da caneta para mim
expressamente desenhada assim
num surto de espontânea inspiração.
Por via do Menino que segura
passámos a chamar a essa escultura
Nossa Senhora do Bebé-chorão!
O corrosivo mal da inveja
A inveja mata, corroendo lenta
mas imparavelmente a alma humana:
é mal que de si próprio se alimenta
e aos poucos vai tornando a mente insana.
Pintaram-na os artistas primitivos
da forma mais horrenda que é possível:
animalescos dentes incisivos,
aspecto facial vesgo e temível.
É sempre deletéria a sua acção
no meio social, embora às vezes
pareça ter o dom da emulação.
Por mim não acredito que assim seja
especialmente quanto aos portugueses
que primam sobre todos pela "enveja"!
Da penúria à demasia
Tendes razão, Amigos: quando a esmola
é de tal forma grande que não cabe,
por mais funda que seja, na sacola,
o pobre estranha… e que pensar não sabe.
É talvez caso para, em sua mente,
ficar de pé atrás, desconfiado,
julgando até que pode ser presente
no mínimo ardiloso… ou artilhado.
Para não dar aspecto de ludíbrio,
mesmo na esmola deve, em conclusão,
manter-se um razoável equilíbrio.
Na vida o sonho, diga-se a verdade,
é salutar, mas com moderação
para que tenha… credibilidade!
Sensibilidade democrática
A crítica é saudável: só tem medo
de prestar contas pela sua acção
quem não dispõe de justificação
ou guarda para dentro algum segredo!
Sem crítica não há democracia
no bom sentido que a palavra tem:
menosprezá-la pressupõe desdém
pelos princípios da cidadania.
Seja qual for o género de crítica
que se nos faça, em público ou privado,
no concernente à prática política,
todo ele é construtivo mesmo quando
por qualquer forma o povo discordando
demonstre não se achar do nosso lado!
Inveterado hábito
Enquanto o português não for capaz
de responder na volta do correio
a qualquer carta e deixa para trás,
por hábito arvorado em tradição,
a resposta devida ao remetente,
pode afirmar-se sem nenhum rodeio
que por melhor motivo que se invente
é falta elementar de educação.
Se assim continuarmos a fazer
contrariamente aos outros europeus,
é caso para se reconhecer
que muito embora à Europa pertençamos
ainda nem sequer nos abeirámos
do lado ocidental dos Pirinéus
"Pour bien"
Há quem veja na crítica uma ofensa,
abominável por assim dizer,
mas quem desta maneira julga ou pensa
não tem razão nenhuma para o crer.
Aliás, é conhecida a reacção
de Salazar às críticas honestas:
por mais legal que fosse a intenção,
eram-lhe sempre odiosas e molestas.
O mais provável que sucederia
a quem dele dissesse algo de mal
era candidatar-se ao Tarrafal.
Porém, segundo a etimologia,
sem ofender a crítica não passa
dum juízo de valor… que até tem graça!
Desenlace adiado
Se nas margens do Ceira os dois irmãos,
os Duques de Coimbra e de Bragança,
D. Pedro e D. Afonso, a espada e lança,
medindo-se, tivessem vindo às mãos,
não se teria dado Alfarrobeira
que segundo a Duquesa da Borgonha
foi para Portugal uma vergonha
imprópria de barões da Jarreteira.
E Góis, numa doméstica contenda,
de menos monta, sem o gonfalão
de El-Rei assinalando a sua tenda,
nas páginas da História hoje estaria
por no seu território logo então
sanada ter ficado a rebeldia!
Previdência
Se um dia em plena serra te encontrares
sob inclemente céu e sol ardente
e não tiveres onde te abrigares,
toma esta decisão na tua mente:
quando de novo por ali passares
não te esqueças de pôr uma semente
para fazer nascer, nesses lugares,
uma árvore… num gesto previdente.
Quem sabe se mais tarde, anos andados,
passando por ali um neto teu,
ele não vai agradecer ao céu
ter providenciado no sentido
de naquela aridez haver surgido
uma sombra… devida aos teus cuidados!
Papalvos
Papalvos, é o nome; parolada
à volta de dois riscos num rochedo,
uma dúbia figura lá gravada,
tentando interpretar o seu segredo!
É quase um crime, uma perversidade,
aproveitar-se da iliteracia
de uma qualquer boçal comunidade
para a induzir a entrar na parceria.
Utilizando termos nunca ouvidos
por aquelas paragens, descabidos,
querem deixar o povo embasbacado.
Mas o mais curioso disto tudo
é ver a autoridade sobretudo
deixar-se engarampar pelo seu lado!
Puro engano
Equivocado está rotundamente
o chefe do governo português
ao afirmar, neste final de mês,
que o povo deveria estar contente.
De vinte e um baixar-se tão-somente
o Iva para vinte, como o fez,
conforme a natureza do freguês
não representa nada… veramente.
Para quem rico é, tanto lhe dá,
nas compras que efectua ou que fará,
pagar mais um ou menos um por cento.
Pelo que ao pobre diz respeito, o certo
é que nas compras para seu sustento
nem à casa dos vinte chega perto!
Em Góis te vejo em tudo
Em Góis, que foi teu berço, junto ao Ceira,
vejo o teu nome escrito em toda a parte
desde que eu comecei a namorar-te
e nunca mais saí da tua beira.
Vejo-o no peitoril abençoado
da janela que deita para a frente
da casa onde moravas e que a gente
gastou de horas sem fim lá ter passado.
Vejo-o no Cerejal onde o gravei
em cada tronco de árvore no centro
de um coração, de forma a caber dentro.
Vejo-o na capelinha em que casei
em pleno inverno, a meio de Dezembro,
numa manhã de sol, se bem me lembro!
"Eixo do mal"
Por coisa alguma perco um seu programa,
sábado à noite, para me informar,
em crítico e sumário panorama,
acerca do que importa verberar.
A maneira melhor de exorcizar
a praga dos políticos sem chama
é com humor ridicularizar
seus actos em grotesco diagrama.
Vivendo-se em regime democrático,
é salutar o espírito socrático
brandindo o argumento da ironia.
Em luta aberta contra a pelintrice
e toda a espécie de cabotinice
eu não dispenso a sua companhia!
Vila morena
Que pena, Zeca Afonso, o uso que deram
ao teu lindo poema sobre a vila
de Grândola, a morena, que destila
todo o teu génio que eles perverteram!
Quando te veio à mente essa canção
em prol da liberdade, longe estavas
de ela servir para a revolução
que tudo foi… menos o que sonhavas.
Grândola há muito que deixou de ser
o símbolo do teu imaginário
traído pelas hordas do poder.
Principalmente na actualidade
ninguém vê nela, bem pelo contrário,
qualquer vislumbre de fraternidade!
João
Era o mais lindo nome que existia,
minha mulher dizia por amor,
o nome de João, o precursor
da vinda de Jesus, que ele anuncia.
Não há capela, igreja ou romaria
em que ele não esteja em seu andor,
em procissão saindo quando for
da sua festa o respectivo dia.
Sendo judaico primitivamente,
talvez não haja um único idioma
em que ele não exista no presente.
A língua em que, porém, tem mais beleza,
filha dilecta do falar de Roma,
é sem dúvida alguma a portuguesa!
Mais linda do que nunca
Hoje sonhei, amor, que tu voltaste
mais linda do que nunca, adolescente,
e que devagarinho me beijaste
para eu não acordar subitamente.
Tinhas recuperado a juventude
envolta numa auréola de estrelas
que me ofuscavam tanto que não pude
ver-te logo as feições por culpa delas.
De ti por todo o ar se difundia
um doce aroma como julgo terem
os anjos que te fazem companhia.
Se eles, ó meu amor, não se opuserem,
vem sempre que puderes como agora
sorrir-me em sonhos pela noite fora!
As minhas velharias
Tenho uma colecção de antiguidades
que em grande parte dos meus pais herdei
e que em diversas oportunidades
dia após dia aos poucos aumentei.
Em cada região por onde andei,
desde as pequenas vilas às cidades,
a pé, de carro, interrogando a grei,
obtive uma porção de raridades.
Móveis antigos, livros, pergaminhos,
armas, brasões, damascos e arminhos,
faianças, porcelanas, santos velhos
dos mais variados sítios e concelhos,
não só me cercam de arte e poesia
como me fazem culta companhia!
"O Justo dos Justos"
O cônsul Sousa Mendes referido
por montes de judeus ter arrancado
às câmaras da morte, condoído,
foi pura e simplesmente exonerado.
De nada lhe valeu ter apelado
e éticas razões ter aduzido:
o caso fora já sentenciado,
estando desde logo demitido.
Como será possível sem salário
catorze filhos sustentar sem ter
para o efeito o ganho necessário?!
Que fim de vida teve tão cruel:
doente e pobre, à beira de morrer,
pediu que o amortalhassem de burel!
Memória para sempre
Em Israel, no bosque consagrado
ao cônsul Sousa Mendes, de Cabanas,
algures entre aldeias lusitanas,
um facto deve ser assinalado.
As árvores que o integram, de ordem vária,
são tantas quantos foram os judeus
que o diplomata, pondo em risco os seus,
fez por salvar de execução sumária.
Diz-se que são dez mil exactamente
além de ao centro se encontrar mais uma
acima das demais, proeminente.
Crescendo, o bosque falará por si,
até que a própria terra se consuma,
do "anjo de Bordéus", lembrado ali!
Mantas de trapos
Na minha mente, em imaginação,
perpassam rostos, mãos que utilizaram
aqueles vários trastes que ficaram
de recuados tempos que lá vão.
Olha as colchas tecidas de farrapos
por enrugadas mãos de alguma avó
que para se entreter, vivendo só,
fazia mantas com montões de trapos.
Olha aquelas panelas ferrugentas
de ferro com três pés, aquele leito
de tábuas de castanho carunchentas.
Essas coisas sem préstimo hoje em dia
têm alma própria e guardo-as com respeito
na minha colecção de etnografia!
Veleidades
Filho de antiquários afamados,
coevos de Barjona e de Junqueiro,
nasci num berço de ouro verdadeiro
de príncipes há muito embalsamados.
Cresci por entre arcazes brasonados
de casas nobres sem nenhum dinheiro
que tudo iam vendendo ao adeleiro
para pagarem juros atrasados.
Daí meu gosto pelas velharias
que foram a paixão da minha vida
e me inspiraram tantas poesias!
Cercado de relíquias de solar,
eu me sonhava, de alma convencida,
um conde de algum reino… por achar!
Medo ancestral
Há que perder o medo e combater
de peito feito e de cabeça erguida
todo e qualquer despótico poder
que nos pretenda controlar a vida!
Há que perder o medo de falar
que vem de muito longe, das raízes,
desde que o humano ser, sem protestar,
se sujeitou a alheias directrizes.
Há que perder o medo de sair
à rua e proclamar sem desistir
os ideais que estão na nossa mente.
Há que perder o medo de supor
que carecemos todos de valor
como se nem sequer fôssemos gente!
"Frente-a-frente"
Eu vejo, às vezes, à segunda-feira,
o "Frente-a-frente" na televisão,
onde em disparatada cavaqueira
cada um emite a sua opinião.
Entristece-me a falta de craveira
da presuntiva elite da nação,
cujas ideias, próximas da asneira,
me causam uma péssima impressão.
O que me choca mais nestas sessões
são as intermináveis discussões
sem qualquer fundamento ou coerência.
Mas não me deixa menos consternado
uma descaradíssima tendência
para um certo esquerdismo assaloiado!
Confrontação
Ser contestado é bom; ser posto à prova
é salutar; faz bem de quando em quando
saber-se que nem toda a gente aprova
as nossas veleidades de comando.
Estamos muitas vezes saturados
de uma total respeitabilidade
que nos endeusa e torna equivocados
pelo que toca à nossa identidade.
Na Roma antiga era hábito chamar
aos generais nos triunfais cortejos
todos os nomes para lhes lembrar
que não passavam de homens como nós,
devendo refrear os seus desejos
porque o poder é efémero e veloz!
Antípodas
Gosto do céu porque ele é infinito,
gosto de tudo o que é maior do que eu,
do espaço sem limite, do granito
que mais do que ele nunca alguém viveu.
Gosto do que é eterno como Deus
com quem um dia me confundirei
passando a ser idênticos aos seus
os atributos que eu assumirei.
Formando um corpo só numa alma só,
farei parte integrante do universo
sem princípio nem fim, verso ou reverso.
Gosto de me sentir um ser acima
de simples "cousa" a desfazer-se em pó,
pois esse é o grande sonho que me anima!
Treze… a zero!
Para cada juiz do Tribunal
que tem concretamente por missão
verificar se face à Constituição
qualquer acção política é legal,
para seu uso próprio e pessoal
foi posto, sem nenhuma precisão,
um automóvel à disposição
topo de gama, sensacional.
E o povo mergulhado na miséria,
com salários de fome e de vergonha,
além dos que deixaram de ter féria!
Perante este cenário revoltante
não haverá, meu Deus, ninguém que ponha
às quatro rodas um travão possante!!
Caras e corações
Segundo Leonardo, o nosso rosto
permite ler o nosso interior
como um espelho à nossa frente posto
com todo o seu poder revelador.
Nem sempre assim será, seguramente,
havendo em rostos feios almas belas
e formosura apenas aparente
em corações repletos de mazelas.
Mas em princípio eu creio na doutrina
da suma autoridade florentina
que encheu de enlevo a minha mocidade.
Um claro exemplo és tu, amada minha,
cujas feições rivais das da "Purinha"
eram penhor da tua… intimidade!
Pendor azul
Respira-se de Góis na povoação
um ar de aristocrático ambiente
que por contágio tenho a sensação
de se estender a toda a sua gente.
De muito longe vem a fidalguia
dos seus armoriados maiorais
aos quais por sua vez se juntaria
a dos Silveiras, guardiães reais.
De todo esse passado que ficou
registado nas páginas da história
algo na vila de hoje perdurou.
Sem preocupações de pormenor,
dá-me a impressão que cada morador
é portador de atávica memória!
Heróis… outros
À memória de Sir Thomas More
Herói não é tão-só quem oferece
o peito às balas enfrentando a morte;
nem sempre é o soldado audaz e forte
que esse apelido excepcional merece.
Herói é sobretudo, quanto a mim,
quem perante o carrasco que o tortura
não verga, não se rende, mas perdura
nos seus pontos de vista até ao fim.
Herói é quem no poste das fogueiras
não cede e continua a defender
as crenças que ele tem por verdadeiras.
É perante esses que me curvo e rendo
porque são eles que, segundo entendo,
de heróis o vero nome devem ter!
"Servir os outros"
Para chegar a Deus da melhor forma,
a um xeque perguntou certo islamita
com boas intenções qual era a norma,
a via, face à lei, mais expedita.
Ele lhe respondeu sinceramente
que nele próprio estava a solução:
amar como a si próprio toda a gente
sem nenhuma reserva ou excepção.
Nada mais simples, nada mais directo
para Deus alcançar, acrescentou,
esteja ou não prescrito por decreto.
Pois é, diremos nós, o ser humano,
cristão, judeu, budista ou muçulmano,
foi sempre nesse campo que falhou!
Era monolítica
No mundo monolítico de agora
sente-se o homem só, desnorteado,
sem rumo certo, desvalorizado,
fruto de uma anomia que o devora.
Em cada madrugada, em cada aurora,
é sempre a mesma coisa, o mesmo enfado
que se exacerba pelo dia fora
e atinge à noite o grau mais elevado.
Num meio social de baixo nível,
sem crenças, ideais, motivações,
sente-se o ser humano desprezível.
Drama maior que a terra poluída
e a progressiva falta de comida
é o do homem só… perante as multidões!
Poéticos contrastes
À memória de Pablo Neruda
Lendo os teus versos sinto-me gorado
ante o fulgor da tua Poesia:
sou como um frio capitel talhado
a esquadro e régua em clássica harmonia.
Abrasa-me a envolvência dos teus temas
e sua tropical pujança e cor:
sob a cálida acção dos teus poemas
de mim se apossa um lânguido torpor.
Tumultuosos como o Amazonas
invadem-me a bramir todas as zonas
em que se gera o fogo da paixão.
Perante a tua ígnea inspiração,
ainda que escorreitos e correctos
que álgidos são, Poeta, os meus sonetos!
Beijing
Todos temos um sonho na existência,
pessoal ou colectivo, pouco importa,
pois o que está em causa é a sua essência
e não a realidade que o suporta.
Um sonho teve a China milenária:
fraternamente abrir ao mundo os braços
e com todos os povos solidária
quebrar fronteiras, estreitar os l
Sob a olímpica chama da igualdade
Levada até Pequim, ficou provado
estar a China aberta à Humanidade.
Cumpriu-se o sonho da longínqua China
mais perto agora de qualquer Estado
por desigual que seja a sua sina!
Saudade:
saúde, solidão, solicitude
Saudade é sida que se pega à gente
por mais que não se queira ou que se faça:
não se pode evitar ficar doente
por ser o mal maior da nossa raça.
Trazemos a moléstia nas entranhas
como se fosse um vírus insanável
que toma às vezes proporções estranhas
causando imensa dor, mas agradável.
“Delicioso pungir de acerbo espinho”,
como um grande Poeta lhe chamou,
a todos nos atinge um bocadinho.
O mal reside, convencido estou,
no termo em si, nessa palavra mista
que só na nossa língua se regista!
Espírito olímpico
Mais alto, mais depressa, mais possante,
em honra pan-helénica dos deuses,
era a norma prescrita por Elêusis
para alcançar o louro verdejante.
Em paridade todos os helenos
na palestra de Olímpia disputavam
o primeiro lugar a que aspiravam
numa modalidade… pelo menos.
Morreu a Grécia há mais de dois mil anos,
mas o seu ideal competitivo
ainda agora permanece vivo.
Só que nas actuais competições
são diferentes as motivações
que põem à prova os músculos humanos!
Superação sentimental
A minha mais normal forma de escrita
é preferentemente a poesia:
trabalho-a como quem de uma pepita
faz um produto de joalharia.
Quanto à modalidade favorita,
seja na prática ou na teoria,
é sem qualquer lugar a contradita
o clássico soneto de algum dia.
Tratado por Petrarca e por Camões
de modo exímio no Renascimento,
alvo é também das minhas atenções.
Se não possuo deles o talento,
tenho a favor de mim, sem restrições,
a força que me vem do sentimento!
Razões de agenda
“Por motivos de agenda”, valha-os Deus!
os nossos governantes principais
primaram pela ausência entre os demais
políticos de Estados europeus
nos olímpicos jogos de Pequim
a cargo da potência mundial
que é hoje a China, o que lhes ficou mal,
há que dizê-lo, procedendo assim.
Se algum país devia estar presente
a nível de governo em alto grau,
seria Portugal… logo na frente.
Para marcar a nossa primazia
nos tratos com a China bastaria
retroceder ao caso de Macau!
Pangloss
Neste país à beira-mar plantado,
onde são mais os tansos que as areias
e cujo povo vive enfeitiçado
pelo fingido canto das sereias,
abundam na política os farsantes
que pintam cor-de-rosa a negridão
e levam, mais agora do que dantes,
com suas lérias a população.
Na sua colorida linguagem
fazem lembrar aquela personagem
que no “Candide” escrito por Voltaire
só vê da forma que pretende ver,
em tudo pondo um fio de optimismo
sem sentido nenhum de realismo!
Ode olímpica
Com pompa e circunstância terminaram
os olímpicos jogos de Pequim:
os concorrentes que se defrontaram
não mais se esquecerão do povo chim.
Nem todos as medalhas alcançaram
de jade e ouro ou recompensa afim,
mas todos como irmãos participaram
no festival guardado para o fim.
Regressam como heróis aos seus países
que honraram pelo esforço dispendido
de acordo com severas directrizes.
Com seus requintes de hospitalidade
a China demonstrou ter o sentido
da mais universal fraternidade!
Miopia
Que em “pequenino” Portugal se está
de dia para dia transformando,
o que me leva a ir imaginando
como será no dia de amanhã!
Se já neste momento não se avista
de Portugal qualquer porção da Europa,
por este andar em breve ninguém topa
senão quanto estiver à sua vista.
Não é questão, digamos, de tamanho,
pois Portugal não cresce nem mingua,
mas cada vez se torna mais tacanho.
Na minha linguagem nua e crua,
a culpa é dos governos que, à porfia,
nos vão pegando a sua… miopia!
Chave na porta
Viver em paz, numa qualquer aldeia,
longe da insegurança da cidade,
vai-se tornando uma vulgar ideia
para escapar à criminalidade.
Tudo é questão, seja bonita ou feia,
de nela haver maior comodidade
quer nos acessos, coisa que rareia,
ou condições de habitabilidade.
É disso que o governo deveria
prioritariamente se ocupar
a fim de a situação não se agravar.
A quem viver deseja sem canseira,
tranquilamente, eu lhe aconselharia
a região da capital do Ceira!
Aquela velha casa
Ao Prof. Zé-Manel Polido,
em cuja poesia me inspirei.
Naquela casa antiga, cujas portas
há muito estão fechadas, já não mora
pessoa alguma, que se saiba, agora
porque talvez estejam todas mortas.
Foi casa nobre, incontestavelmente,
pelo brasão que ostenta na fachada,
bem como por aquela enorme escada
que lhe daria acesso pela frente.
Ali se amou, ali se conviveu,
ali se festejou, lá se morreu
na católica fé dos seus maiores.
Sempre que por lá passo, nunca posso
deixar de ciciar um padre-nosso
pelos seus falecidos moradores!
Regionalismo
É um produto, o Regionalismo,
do espírito beirão dos habitantes
das terras de Arganil e circundantes,
agora em fase de revivalismo.
Não é fácil dizer em que consiste
por muito que se saiba português:
é um modo de ser, de estar…talvez,
que só por estas bandas é que existe.
É um género local de sentimento
peculiar das condições de vida
impostas por um certo isolamento.
Passa por dar valor à região,
prestando-lhe a atenção que lhe é devida
face ao alheamento da nação!
Barack Obama
A todas as pessoas solidárias
com o “sonho americano”.
Barack Obama que, seguramente,
filho de negro e branca, amulatado,
será dentro de pouco o Presidente
do povo americano…esperançado
num futuro de paz e de igualdade
sem contar para nada a cor da pele,
mas tão-somente a personalidade,
tem toda a América a rever-se nele.
É novamente o “sonho americano”
à vir à tona da água, a ganhar asas,
a ser fogueira de sopradas brasas.
Mesmo sob o poder republicano,
permita Deus que a América do Norte
não dê motivos a que o sonho aborte!
Cinismo ou ironia?
Sem pôr em causa a sua “santidade”,
nunca existiu maior contradição
que a praticada pela Inquisição
durante toda a sua actividade.
Sem admitir qualquer diversidade
em matéria de fé, de opinião,
à sombra do espírito cristão
encheu de sofrimento a Humanidade.
Lembremo-nos que foi por cometer
um desses “crimes”, sem se desdizer,
que Jesus Cristo foi crucificado.
Perante o tribunal dos Fariseus,
por deles divergir, foi acusado
de um crime horrendo de bradar aos céus!
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O Roque era uma boa criatura,
um santo sem altar, tolinho manso,
que não tinha repouso nem descanso
para poder viver naquela altura.
Recados aviava a toda a gente
e não havia em Góis quem não lhe desse
um pouco de comida que crescesse
para ir matando a fome cristãmente.
Pois apesar de nada ter de seu,
havia de comprar a lotaria…
para te dar o enxoval… um dia.
Morreu com essa fé: nunca jogou…
mas pelo sonho que por ti sonhou
o Roque deve agora estar no céu!
Roseira brava
A minha poesia nada deve
a quem me antecedeu; brota de mim
como a roseira brava de jardim
que mão de jardineiro nunca teve.
Flui dos meus nervos postos à pressão
por uma espécie de necessidade
de literariamente dar vazão
à minha própria interioridade.
Só que de longe, quase desde o berço,
afino pela lira do universo
meus versos sem qualquer similitude.
São como sons de breves sinfonias
tocadas em melódico alaúde
sem fazer caso algum de teorias!
O regresso de Orfeu
Os poetas de Coimbra, onde é que estão?
será que a lira antiga se quebrou
e Orfeu das suas margens se afastou
por falta ou escassez de inspiração?!
Eu creio bem que sim. Tudo é banal,
poesia sem o mínimo sentido
do que é a Poesia como tal:
onde é que o génio se terá metido?
Camões, Antero, António Nobre, Régio,
Duarte Afonso e Torga constituem
os marcos do seu raro sortilégio.
Quem, senão eu, de novo há-de pegar
na harpa de Orfeu… para a reabilitar
em versos que o fulgor lhe restituem?!
"Faz também como ele!"
Segundo Lucas, um doutor da lei
a Cristo perguntou publicamente,
para o comprometer perante a grei,
como é que se vivia eternamente.
Jesus, dando-se conta da intenção,
instou-o a que, de moto pessoal,
dissesse os termos da legislação
que manda amar o próximo em geral.
"E quem ele é?" - Jesus sem responder,
dando-lhe a volta, o fez reconhecer
que foi dos três o tal samaritano
que ao desgraçado, a quem fizeram dano,
com desvelo tratou do ferimento
sem dele ter sequer conhecimento!
"Imagens de pensamento"
Lembra-me Deus a rosa: quando a olho
vem-me à ideia a sua perfeição;
por isso nos jardins nunca as desfolho
para não macular a minha mão.
Lembra-me o ouro a cor do teu cabelo
antes de envelheceres ao meu lado,
fazendo com que ainda esteja a vê-lo
imaginariamente… inalterado.
Para qualquer ideia ou pensamento
procuro dar-lhe forma visual
em todas as metáforas que invento.
Para ao adeus dar expressão real
que melhor coisa, objecto ou instrumento
que um lenço branco em linho natural!
“Gostar das pessoas”
Ao Poeta Zé-Manel Polido
Ao ler o seu encontro casual
em Nova Iorque com aquele moço
que tocava guitarra e, por sinal,
da sociedade humana era um destroço,
acudiu-me ao espírito a figura
da minha extremosíssima mulher
que face a qualquer pobre criatura
não lhe deixava nunca de valer.
Muitos a censuravam por excesso
de generosidade ante os drogados
ou quaisquer outros marginalizados.
Como em Você, Poeta, nos seus olhos
existia uma luz, que não esqueço,
capaz de em rosas transformar abrolhos!
Fernando Pessoa
Seja com heterónimo de ti
ou de uma qualquer outra personagem
de diferente porte ou linguagem,
nunca nos teus escritos me revi.
Falta-te génio, falta-te estatura
de autêntico poeta ou pensador;
és diletante em tudo, um amador,
com redundantes laivos de cultura.
Não me convences, digo-o francamente,
sem carácter de ofensa ou menosprezo
que muito longe está da minha mente.
Como dizia um certo arganilense
que bem te conheceu de amanuense,
em tudo foste simplesmente um teso!
À moda de Borgonha
Ele não é, não pode ser aquele
o Infante D. Henrique, por vergonha
de usar chapéu à moda de Borgonha,
isso bastando para não ser ele!
Tirando acaso a posição das mãos,
o resto não se ajusta, nem de longe,
em face dos seus hábitos de monge,
ao traje social dos cortesãos.
Trajar assim, à moda borgonhesa,
de resto, em Portugal, com à vontade,
só uma personagem portuguesa:
o Duque de Coimbra, habituado
a frequentar, devido ao seu estado,
as diversas nações da cristandade!
Feliz por dar
Mesmo que o Estado assuma a obrigação
de prestar assistência social
a todo o indigente cidadão,
seja qual for a causa do seu mal,
isso não tira necessariamente
a que haja outros processos de assistência,
até por vezes mais eficiente
como o dos órgãos de beneficência.
De todas as maneiras a mais nobre
sem dúvida é, porém, para o meu gosto,
a que na rua a mão estende ao pobre.
Conforme se notava no seu rosto,
o facto de ela ser tão esmoler
sempre feliz tornou… minha mulher!
Retorno
Cumpriu-se Portugal: ao fim chegou
o ciclo das províncias africanas
que se tornaram pátrias soberanas
como outras tantas filhas que gerou.
Ao cabo de alguns séculos de história
voltou-se à primitiva condição
de ibérica e minúscula nação,
a mais sentimental de que há memória.
Foi-se o império territorial
que por motivos de oportunidade
obteve a sua própria identidade.
Lá ficará, porém, de pedra e cal,
se não acontecer nenhum revés,
com nossa língua, o génio português!
Virtual presença
Tudo de ti me fala, meu amor,
nesta casa vazia do teu ser,
nos quadros das paredes já sem cor,
na mesa a que me sento sem te ver.
De ti me fala a roupa que deixaste
aos pés da cama, em cima da cadeira,
quando te foste embora e não voltaste
com teu sorriso… para a minha beira.
Tenho no ouvido o som da tua voz
que sempre vem, quando me encontro a sós,
amaciar a dor que me avassala.
Em cada objecto em que puseste a mão,
em cada quarto, corredor ou sala,
de ter-te ao pé de mim… vivo a ilusão!
Declaração… notarial
Não quero, sou contrário, não consinto
que seja lida a minha poesia
em recitais de autárquico recinto
ou solenes sessões de academia.
Escrita com profundo sentimento
ao som da sinfonia das estrelas
precisa do maior recolhimento
como o que reina dentro das capelas.
Não é para com voz roufenha e grossa
ser declamada por banais actores,
o que me causaria horrenda mossa.
É para dita ser como quem reza
religiosamente entre louvores
a tudo quanto é bom na natureza!
O poder da Poesia
O Poeta é como Deus: tem o condão
de não deixar morrer as criaturas
mantendo-as vivas na imaginação
de intermináveis gerações futuras.
Isto não são leveiras conjecturas
de literária congeminação,
mas fruto de profunda reflexão
e de numerosíssimas leituras.
Tal como a boa música mantém
as almas vivas para além da morte,
porque não tem material suporte,
com mais razão se poderá dizer
que a Poesia autêntica contém
em grau muito maior esse poder!
A minha arma secreta
Meus versos são uma arma de arremesso
que vai direita ao alvo em linha recta;
são por assim dizer a arma secreta
de que disponho e apenas eu conheço.
Comigo a levo para toda a parte
engatilhada e pronta a disparar,
bastando para tal alguém tentar
aguilhoar o meu “engenho e arte”.
Se há coisa com a qual eu não engraço
mas com a qual tropeço a cada passo
é, sobretudo, a mediocridade.
Sempre que exista a oportunidade,
fulmino-a, apontando-lhe directo,
com um disparo… em forma de soneto!
Realidade e sentimento
“O caminho por onde se sobe
é o mesmo por onde se desce”
Heraclito
Ainda que subir ladeira acima
seja por natureza mais custoso
do que descê-la, ou seja, mais gravoso,
pois para baixo cada santo anima,
o certo é que, de todas as maneiras,
segundo autorizado parecer,
tanto seja a subir como a descer,
é sempre igual o piso das ladeiras.
Não vale a pena, pois, torcer os factos
para, iludindo o próximo, intentar
em vão justificar os nossos actos.
Por mais que as pretendamos alterar,
as coisas que nos surgem pela frente
são como são, não como a gente as sente!
Música no coração
Era um prazer, amor, viajar contigo:
quando íamos com eles passear
punhas os sete filhos a cantar
no carro que nós tínhamos… antigo.
Como era um carro grande, uma banheira,
um Lincoln espaçoso, de oito assentos,
cabia nele sem constrangimentos
a nossa filharada toda inteira.
Na tua santa e doce companhia,
pelas estradas íngremes da Estrela,
cada um de nós alegre se sentia.
Não pertencendo à nossa parentela,
vezes se conta às nossas se agregavam
outras crianças… que no coro entravam!
Destino meu
Poeta por favor da Natureza
que me dotou desse atributo e gosto,
à posse lisonjeira da riqueza
prefiro a brisa que me afaga o rosto.
Prefiro a cor das tardes outonais,
o perfume das rosas que te ponho
cada manhã nas jarras principais,
os sonetos de amor que te componho.
Nada há que pague o som que vem do mar
envolto em nevoeiro… a recordar
histórias de partir o coração.
Fez-me Poeta Deus e como tal
em mim nunca morreu, por imortal,
o doentinho Dom Sebastião!
“Cada objecto tem uma história”
Bernardino Machado
O primeiro decreto que Lenine
fez promulgar quando principiou
a governar a Rússia, que o define
como o estadista que a regenerou,
foi para proteger do pandemónio
que se havia instalado no país
os bens do valioso património
que era do povo a histórica matriz.
De hoje em diante – disse – não se toca
numa pedra que seja da nação
que por motivo algum se vende ou troca.
Alienar qualquer antiguidade
do povo russo é crime de traição,
de pura e simples lesa-potestade!
A espadeirada
Sagrou-me Deus poeta: de joelhos,
fez-me mercê de com a sua espada
na reservada sala dos conselhos
me dar a ritual espadeirada.
Camões foi meu padrinho; quem melhor,
tratando-se da língua portuguesa,
eu poderia ter como mentor
em termos de poética grandeza?
Madrinha foste tu, amada minha,
a musa dos meus sonhos de alto nível
em torno do teu ser… inatingível.
Poeta assim sagrado e consagrado,
não tive outro remédio, nesta linha,
que ser fiel ao grau que me foi dado!
“Beiroa”
Não é preciso ser nenhum Pessoa
para saber que a forma mais correcta
de se dizer, ou seja, a mais selecta,
não é “beirã”, de facto, mas “beiroa”.
Aos meus ouvidos muito mal me soa
e meus sentidos por tabela afecta
essa palavra que nenhum poeta
que respeite a gramática… perdoa.
É simplesmente pura aberração
usá-la como forma feminina
do másculo vocábulo “beirão”.
Como espero prová-lo qualquer dia,
com fundamento na filologia,
“beiroa”… é a versão mais genuína!
Os excluídos
Quando a hora chegar a cada qual,
Deus há-de ter em conta, com certeza,
do ser humano a fraca natureza
que vem do seu pecado original:
assassinos, ladrões, maus governantes,
autarcas, vigaristas, aldrabões,
assaltantes de bancos e balcões,
terão perante Deus… atenuantes.
Disso estou convencido inteiramente,
quer pelo coração quer pela mente,
face ao divino amor à humanidade.
Só tenho uma reserva: os delatores
e os torcionários, que não são credores
de género nenhum..,. de piedade!
Pó de Deus
Cientificamente está provado
que a origem do universo resultou
de um núcleo de matéria concentrado
que em milhões de astros se pulverizou.
Comparativamente às vezes penso,
pelo que à alma humana é respeitante,
embora sem o mínimo consenso,
se ela não teve origem semelhante.
Teria sido Deus que em dada altura
se desdobrou em cada criatura,
formando deste jeito a Humanidade.
Numa explosão de enormes proporções,
não somos mais do que ínfimas fracções
da sua compartida… Divindade!
Amar até mais não
Amar, amar, amar até mais não.
amar fervendo, como tu dizias,
amar, amar, amar todos os dias
até se nos parar o coração;
amar ano após ano, a todo o instante,
sem hora para nada, além de amar,
amar, amar, nunca de amar deixar
em natural renovação constante;
amar como se nada mais houvesse
para fazer na vida a não ser dar-se
até final sem peso nem medida;
amar, quando o amor nos acontece,
é, por assim dizer, perpetuar-se
no ser amado para além da vida.
Ventos de mudança!
Obama triunfou; ovacionado
pela sua vitória indesmentível,
manteve-se contido e moderado,
sempre senhor de extraordinário nível.
Seguro de si mesmo e dos valores
que durante a campanha defendera,
mostrou perante os seus opositores
uma categoria… que os supera.
O povo americano doravante,
sem preconceitos de ordem racial,
é quanto à cor da pele… todo igual.
Civicamente, em termos de igualdade,
a América daqui para diante
será como um farol da humanidade!
Casa de orates
Parece que o país ultimamente
a converter-se está, valha a verdade,
num manicómio em que a sociedade
dá todos os sinais de estar demente.
Desde o governo ao zonzo parlamento,
passando pelas várias autarquias
e suas respectivas freguesias,
não há vislumbre de discernimento.
Se no que diz respeito à educação
tudo vai mal, o que dizer então
dos outros diferentes ministérios?
Fazem-nos falta governantes sérios
que com bom senso e lúcidos critérios
nos tirem de uma tal… situação!
Abutres!
Este país,,, chamado Portugal,
talvez de velho ou por esgotamento,
está a agonizar neste momento
sem se encontrar remédio para o mal.
Já foi desenganado no hospital
para ir morrer no seu apartamento,
só lhe restando um mínimo de alento
por forma a retardar… o funeral.
À sua volta, junto à cabeceira,
vai-se postando toda a ladroeira
a fim de partilhar os seus espólios.
Sem a administração dos santos óleos,
além de impenitente, excomungado,
falece dos seus bens desapossado!
"Por que razão era então?"
Que grande profusão de teorias
na tua mente vai, caro Pessoa:
tudo em teus versos são filosofias
em que tua razão se agita e voa!
Ninguém melhor que tu para fundir
coisas que em si carecem de sentido,
morrendo, a bem dizer, por exprimir
conceitos sem carácter definido.
Tu tantas voltas dás aos pensamentos
que acabas por torná-los nevoentos,
sem te entender nenhuma criatura.
Talvez sob o efeito da aguardente,
tudo afinal se venha, em tua mente,
a traduzir em genial… mistura!
E pluribus unum
Antes de eu ser, já era: há cem mil anos
que eu vinha a ser pensado no universo
para de corpo e alma ser diverso
de quaisquer outros meus irmãos humanos.
Para eu ser eu, tiveram de cruzar-se
em vários continentes e nações
mil gerações atrás de gerações
hoje quase impossíveis de contar-se.
Sangue de muitas raças se juntou
a fim de em minhas veias circular
de forma, a bem dizer, particular.
Além de Deus, também a Natureza
entrou no jogo para, de certeza,
eu ser exactamente como sou!
"Falta cumprir-se Portugal"
De costas para a Europa e frente ao mar,
que foi o seu caminho para o mundo,
assim é Portugal, país profundo
que ainda está por se realizar.
Pese às noventa décadas que tem,
quase um milénio, caso singular,
está na altura de se renovar
para na Europa de hoje… ser alguém.
Senhor do mundo foi quase total
com a cristianíssima missão
de lhe levar a civilização.
Voltou de mãos vazias e agora
o velho e aviltado Portugal
é mera sombra do que foi outrora!
Sensibilidades
Escreva cada qual como quiser,
à Fernando Pessoa ou José Régio,
que eu para mim só quero o privilégio
de me expressar da forma que entender.
Nada de trocadilhos enfeixados
a simular profundos pensamentos,
e muito menos , sórdidos, nojentos,
vocábulos ou termos conspurcados.
Se pensa alguém que a Arte verdadeira,
no que respeito diz à Poesia,
consiste em proceder dessa maneira,
longe me encontro dessa teoria
pois me repugna tudo quanto cheira
a esterco, lixo, estrume e porcaria!
Como um dom
São como a voz dos astros os meus versos
louvando a Deus que entre eles tem morada,
o Criador de quantos universos
fez emergir sem número do nada!
Afino-os pelas grandes sinfonias
dos consagrados músicos de outrora
que me compraz ouvir todos os dias,
especialmente pela noite fora.
Procuro neles imitar o som
que fazem as estrelas ao girar
na abóbada celeste, como um dom
que Deus me concedeu não sei porquê,
não me cansando de lhe demonstrar
a minha gratidão… pela mercê!
O vaso rachado
Uma mulher chinesa transportava
em cada extremidade de uma vara
dois grandes vasos, um dos quais largava
pelo caminho a água que buscara.
Ante a vasilha intacta, sem defeito,
a vasilha rachada se sentia
envergonhada por, daquele jeito,
desperdiçar a água que trazia.
A verdade, porém, é que do lado
da vasilha rachada em profusão
iam brotando rosas… pelo chão.
Não diga pois ninguém, desanimado,
que para nada serve nesta vida,
porquanto… tudo tem contrapartida!
Sabedoria oriental
Tendo um dia perdido o seu machado,
um certo camponês logo pensou
no filho do vizinho, que acusou
de ter aspecto de lho ter roubado.
Bastava olhar para ele … para ver
que tinha mesmo cara de ladrão,
passando a espiá-lo na intenção
de eventualmente o vir a surpreender.
Acontece, porém, que em dada altura,
por mero acaso, em meio da verdura
perdido o camponês o descobriu.
E logo, acto contínuo, concluiu
que o filho do vizinho referido
nunca tivera… cara de bandido!
Ad astra
Um mar de sonhos foi a minha vida,
qual deles da mais alta envergadura,
uns consumados, outros porventura
em fumo convertidos… à partida!
Eu sempre os pus ao nível das estrelas,
nas suas ígneas chamas me aquecendo
e de qualquer maneira pretendendo
em luz acaso competir com elas.
Talvez fosse esse o meu tremendo azar,
sonhar alto de mais, com a ambição
de à sua imensa altura me guindar.
Se nunca as alcancei senão sonhando,
resta-me ainda e sempre a ilusão
de em sonho as atingir de vez em quando!
A serpe
A serpe é simplesmente repelente:
sinuosa, rastejante, sem ruído,
as vítimas ataca de repente,
em vero ou metafórico sentido!
Os modos abomino da serpente:
quando menos se espera, surpreendido,
eis que ela surge sorrateiramente
sem se dar conta nem se ter ouvido!
Quando se enrosca numa criatura
seu sangue ao mesmo tempo envenenando,
é morte certa a sua mordedura!
Assim há muita gente!... simulada,
pés de veludo e olhos espreitando
a altura para dar… a ferroada!
Quartos pegados
Naquela casa ao cimo da montanha
dois quartos há com fecho a cadeado:
num mora a dor, noutro o prazer que estranha
a dor morar exactamente ao lado.
Sem que haja entre eles comunicação,
ambos os moradores mutuamente
se espiam com a máxima atenção,
ainda que por causa diferente.
Inveja a dor a sorte do prazer,
cuja existência, por assim dizer,
é um calmo mar de rosas perfumadas.
Por sua vez, tem o prazer receio
que a dor acabe por achar um meio
de o alcançar, seguindo-lhe as pegadas!
A única excepção
O Poeta, para o ser, não pode ser
uma qualquer pessoa acomodada
numa existência caracterizada
pela abstenção de um ideal qualquer!
Tem de saber sonhar, sonhar em grande
rumo às estrelas ou mais longe até,
sem que nunca o desânimo o comande
ou perca força a luz da sua fé.
De resto, excepto a prática política,
incompatível com a Poesia,
por carecer de consciência crítica,
qualquer ocupação se compagina
com sua criativa fantasia
mesmo jornais vendendo numa esquina!
A cepa do sonho
Terminada a vindima, fica a cepa,
promessa de vindoura produção,
por cujo interior a seiva trepa
para florir na próxima estação.
Do vinho não bebido fica um resto
que misturado ao da colheita nova
lhe dá, como aliás é manifesto,
mais doce paladar… quando se prova.
Lembrar isto nos faz os sonhos nossos,
de cujos estilhaços e destroços
outros surgindo vão que os regeneram.
O mal é quando a cepa chega ao fim
e os sonhos em poeira degeneram,
deixando de haver rosas no jardim!
Alice Sande
Miniaturista exímia, Alice Sande,
em Góis, na sua terra, junto ao Ceira,
como artista que foi, distinta e grande,
de si deixou memória lisonjeira.
Aristocrata de raiz e modos,
já de criança tinha a favor seu
as condições e requisitos todos
para se impor no meio em que viveu.
Justa homenagem, pois, e merecida
é, sem dúvida alguma, a que a autarquia
hoje lhe presta… pela sua vida
entregue às artes, que ela cultivou
com invulgar talento, com mestria
patente nos trabalhos que deixou!
Missão cumprida!
Morrer, fechar os olhos, devagar,
vencido pouco a pouco pelo sono,
suavemente, sem dramatizar,
como folha caída em fim de Outono;
morrer assim, dizendo adeus a todos
sem mágoas de maior nos corações,
as mãos nos apertando com bons modos
longe de mútuas recriminações;
era o maior dos bens que eu poderia
de Deus haver, quando chegar o dia
de eu regressar à bem-aventurança!
Ao retornar ao mundo donde vim,
nada mais quero que deixar lembrança
de haver amado… mesmo até ao fim!
Feras à solta!
Ainda que de boca amordaçada
a minha voz há-de fazer-se ouvir
sem nada haver que a cale, sem que nada
me impeça alguma vez de me exprimir!
Não é qualquer letrado cabotino,
por muito catedrático que seja,
que me encosta à parede por cretino
a vitória lhe dando de bandeja!
Atem-me embora as mãos, fechem-me a boca,
em vão conseguirão silenciar-me,
pois sempre lhes darei resposta em troca!
Só não suporto que, de mãos atadas,
tirem partido… para desancar-me
como é próprio das bestas despeitadas!
Retrospectiva
Gosto, confesso, de sentar-me à tarde
num banco de jardim ou de avenida
e em paz comigo, sem rumor de alarde,
rever como num filme a minha vida:
a minha infância, os meus estudos, tudo
o que me sucedeu durante os anos
da minha juventude e, sobretudo,
as minhas ilusões e desenganos.
Quanta baixeza vi, quanta nobreza
achei também em muita criatura
com que lidei sem sombra de vileza!
Mas o que mais me abisma é constatar,
"alma minha gentil", a quanta altura
por ti pôde chegar meu grande amor!
O rumo certo
O futuro de Góis como concelho,
do meu ponto de vista pessoal,
residirá no facto de ser velho
o seu legado patrimonial.
Velho não só! também rico de história
que dele faz um município eivado
de páginas pejadas de memória,
pelos demais concelhos invejado.
Senhorial de origem, se destaca
pela nobreza da população
tão evidente que se corta à faca.
Longe de outras questões menosprezar,
julgo ser na cultura que estarão
os principais aspectos a encarar!
Armando Gualter de Campos Nogueira
Quem mais que Armando Gualter defendeu,
em todos os debates em que entrou,
a sua terra, o burgo em que nasceu,
quem mais com ela se identificou?!...
Traz Góis nos lábios e no coração
desde menino e moço, sem jamais
esmorecer na sua devoção
pelas suas belezas naturais.
Sabe de cor e salteado tudo
o que respeita a Góis e, sobretudo,
de todos os goienses sabe o nome.
Por ele Góis… seria a capital
da Beira-Serra, dado o seu renome
e sua propensão… senhorial!
Fora de questão
O binómio de Newton, apesar
de pouca gente disso se dar conta,
há quem o queira, à força, comparar
com a Vénus de Milo… sem afronta.
Foi Fernando Pessoa quem primeiro
essa equiparação pôs a correr,
razão talvez por que morreu solteiro
por de beldades… nada perceber.
Por muito científico que seja
e justa causa de fascinação,
não é legítima a comparação
entre o binómio que a escola ensina
e a mutilada estátua feminina
que a todas as mulheres causa inveja!
Por Semelhança
Com este nome ou outro, não importa,
Deus que tudo conhece e tudo pode
e do capote seu nada sacode
nem a pessoa alguma fecha a porta,
dá-se ao luxo, negado ao ser humano,
de sem qualquer espécie de excepção
falar todas as línguas em função
do seu poder augusto e soberano.
Entre elas fala a língua portuguesa
em toda a sua máxima pureza
à maneira de Góis e vizinhança.
Desde, porém, que à sua mão direita
minha mulher sentou, por semelhança
sua pronúncia ainda é mais perfeita!
A ponte
Das pontes a função primordial
é permitir transpor uma ribeira
ou genericamente uma barreira
como seria a depressão de um vale.
Metaforicamente… isso equivale
à ligação não menos verdadeira
entre pessoas de qualquer craveira
no plano meramente cultural.
Sem lentejoulas de falaz miragem
mas tão-somente pela minha idade
muito distante já da mocidade,
assim me vejo, pois, nessa função
de simbólica ponte de passagem
da minha para uma outra geração!
A mais pura flor do Lácio
Que bem se fala em Góis! é uma delícia
ouvir a sua gente conversar,
sendo possível, mesmo sem perícia,
o seu vernaculismo... constatar!
Tem laivos de Camões e Bernardim,
de Luís da Silveira e D. Dinis
que termo pôs ao uso do latim
e fez na vida tudo quanto quis!
O português de lei que em Góis se fala
o tom possui da música de sala
e a limpidez sem mácula do Ceira.
Supera o de Coimbra, seu padrão,
talvez tão-só pela única razão
da sua aristocrática craveira!
Sem par nem tempo
Amar, amar, amar uma só vez,
uma só vez, durante a vida inteira,
sem conhecer o mínimo revés,
eis a felicidade… verdadeira!
Amar somente uma única mulher
e dedicar-lhe toda a sua vida
sem dia algum de interrupção sequer
é a bem-aventurança… usufruída!
Assim me aconteceu, não me cansando
de agradecer a Deus esta mercê,
que frequentemente não se vê.
Amar desta maneira, mesmo quando
ma levou Deus, amá-la eternamente
é galardão que não me sai da mente!
Puxar dos galões
Vai Góis em breve dar um passo em frente
para se destacar na vizinhança
como o concelho mais aliciente
para assumir na zona a liderança.
Tem tudo a seu favor: passado honroso,
ilustre entre os ilustres, singular,
a par de um património grandioso
e de escorreita forma de falar.
Beleza não lhe falta…natural,
população simpática e afável
de nítido pendor… senhorial.
Tudo é questão somente de a autarquia
saber gerir… toda essa mais-valia
de forma decidida e sustentável!
O meu brinde
À Drº Lurdes Castanheira
Tem Góis, Senhora, em vós os olhos postos
para elevardes o seu grau de vida,
tornando mais felizes, bem dispostos,
seus habitantes, deles condoída!
Há muito se esperava este momento
da vossa investidura na autarquia,
dado o vosso real conhecimento
das suas condições de carestia.
Mas não deixeis de dar toda a atenção
à persistente… valorização
do seu legado patrimonial!
Fazei de Góis, Senhora, a capital
da Beira-Serra em termos culturais,
raiz primordial… de tudo o mais!
Valeu por todas!
Esta homenagem que eu não esperava
e que agradeço, muito comovido,
vale por todas de que se falava,
mas sempre recusadas me têm sido!
A verdade, porém, é que no fundo
a culpa é toda minha, pois o certo
é que talvez por um desdém profundo
nunca a poder algum me cheguei perto.
Sempre me quis assim conforme sou,
avesso desde logo a sujeições
honras visando e condecorações.
Não me são gratas, mas por excepção
esta me encheu de gáudio o coração
e para meu governo me bastou!
Bravura, santidade e vilania
A Sua Eminência o Cardeal-Patriarca
de Lisboa, D. José Policarpo
Vossa Eminência tem toda a razão
no que respeito diz à santidade,
perante a qual não há conformidade
por parte do governo da nação.
Os nossos governantes não se dão,
na sua quase generalidade,
com tudo quanto cheire, na verdade,
aos símbolos do espírito cristão.
Preferem ver no santo condestável,
e mesmo assim com muitas reticências,
o paladino audaz e formidável.
Em grande parte, suas excelências
convivem com mais gosto e simpatia
com as demonstrações de vilania!
"Cousas"
Pessoa, para ti "cousas" são "cousas"
e nada mais do que isso, expressamente:
rosas são rosas e, na tua mente,
placas de xisto não são mais que lousas.
Já para Pascoaes, seja o que for,
calhau, pequena pedra no caminho,
um cardo, um par de pássaros no ninho,
são susceptíveis de sentir… amor!
Tudo tem alma, até mesmo o granito
que ao fim de milhões de nos, com certeza,
há-de ser luz ou chama no infinito.
Ó Poeta do Marão, valha a verdade,
em cada "cousa" ou ser da Natureza
sentes que existe uma qualquer saudade!
Mais fama que chama
Sabes, Pessoa? em muitos dos teus versos
em que por convenção a maioria
o supra-sumo vê da Poesia
não vejo eu mais que aspectos controversos!
Que longe estás, Poeta, de Camões,
de um José Régio, um Nobre ou Pascoaes,
que literariamente são padrões
que, por assim dizer, não têm rivais!
Retorcidos na forma e no conceito,
os versos teus não passam, muitas vezes,
de meros trocadilhos ao teu jeito.
Tirando algum poema… extraordinário,
dou-te um papel modesto ou secundário
entre os demais poetas portugueses!
Poesia… e poesias
A Poesia é coisa muito séria:
não são palavras postas ao calhar,
sem nexo, sem sentido, sem matéria,
sem pensamento algum no seu lugar.
Embora não se aprenda nas escolas
de qualquer grau de ensino, a Poesia
tem suas regras, tem suas bitolas,
como qualquer suprema sinfonia.
Não é questão de rima, certamente,
de forma ou de formato, de estrutura,
mas de verbal sonata ou partitura.
A Poesia, para o ser deveras,
domada tem de ser para em esferas
rodar, como em Camões, perfeitamente!
Mestre e amigo
Ao Prof. Amadeu Carvalho Homem
que, não tendo sido meu aluno,
teima em chamar-me… Professor
Meio século ou mais da minha vida
a leccionar passei, coisas diversas:
muitíssimas lições eram conversas,
minha docente via preferida.
Na secretária nunca me sentei,
andando pela sala o tempo todo,
e foi desta maneira, deste modo,
que a atenção dos alunos suscitei.
Com eles convivi da melhor forma,
dentro e fora das aulas, sem por norma
deixar de me arvorar em seu mentor.
De cada aluno fiz um grande amigo
que sempre que se cruza hoje comigo
se mostra, como então, respeitador!
I am in the paints
Parodiando Fernando Pessoa
Tudo são "cousas", nada mais que "cousas",
eu próprio "cousa" sou, cousa nenhuma:
tudo vai desfazer-se sob as lousas,
de mim não perdurando… cousa alguma.
Ficam meus versos, ficam meus escritos,
em grande parte inéditos, fechados
numa arca a sete chaves, manuscritos,
que um dia talvez sejam divulgados.
Já cá não estarei para saber
o que no respeitante aos meus conceitos
os críticos terão para dizer.
Que importa o que, não existindo Deus
para julgar meus actos e defeitos,
possam de mim pensar… os fariseus?!..
Praia virtual
Sob a inspiração do
"Guardador de rebanhos"
Sem que da minha residência saia,
que nem sequer é próxima do mar,
durante o ano inteiro faço praia,
bastando-me, para isso, imaginar
o deslizar das ondas sobre a areia
e a brisa que, soprando do oceano,
me afaga o rosto… para ter a ideia
de estar a fazer praia,,, todo o ano!
Além do que elas são tangivelmente,
as coisas com não menos evidência
são como as conjectura a nossa mente.
Só não consigo obter o bronzeado,
mas para corrigir essa carência
ponho na pele um creme apropriado!
Identidade e coerência
Cada um é como a natureza o fez:
importa é é ser-se em tudo sempre igual,
sem nunca, nem que seja uma só vez,
deixar de ser autêntico e frontal!
Britânico, espanhol ou português,
é mera circunstância acidental;
importa é não perder a lucidez,
julgando-nos um ser especial.
Se alguma vez tivermos de alterar
nossa forma de estar ou conviver,
saibamos nosso espírito manter.
Toda a questão reside em procurar
permanecer fiel às estruturas
que existem na raiz das criaturas!
A força do destino
(Camoneando)
Tem cada qual marcado o seu destino,
escrito nas estrelas, com certeza,
tem cada qual a sua natureza
e tudo o mais… é puro desatino.
Assim comigo penso ou imagino
creio desde logo com firmeza,
não me causando mais do que tristeza
cruel verdade que abomino.
Não vale a pena, pois, com teimosia
remar contra a maré, porque é sinal
de imensa falta de… sabedoria.
Ninguém foge ao que está determinado
logo ao deixar o ventre maternal
por Quem de tudo é dono incontestado!
Folhas secas
Aquela folha que no chão tombou
numa tarde outonal ao pé de mim
a descansar num banco de jardim
é desde logo a imagem do que sou.
Sem que nada interfira em sua queda
aragem, vento ou simples abanão,
as folhas só por si tombam no chão
dizendo adeus aos troncos da alameda.
Assim do ser humano a vida passa
e pronto se desfaz como fumaça
a transformar-se em nuvem passageira.
Quando cair as folhas secas vejo,
logo me vem à mente quão ligeira
é a vida… tão fugaz como um desejo!
"La seule"
Teu corpo, amor, cheirava a sol e sul,
sabia ao sal do mar, a tudo quanto
se representa pela cor azul,
a cor que dos monarcas tem o manto!
Para o teu róseo corpo descrever
Não consigo encontrar, por mais que queira,
Metáfora nenhuma a condizer
Com tua natureza verdadeira.
Era de jade o teu risonho olhar
e de ouro o teu cabelo, mesmo quando
de prata e de luar… se foi tornando.
Hoje no céu tua alma há-de cheirar
ao perfume de Deus, que eu imagino
idêntico ao incenso… do mais fino!
A saga da bandeira azul e branca
Ficou todo o país alvoroçado
ao inteirar-se que na capital
um grupo juvenil havia içado
a bandeira monárquica, real.
Nos paços do concelho aconteceu,
onde há cem anos, no balcão da frente,
idêntico episódio sucedeu
mas de sinal contrário ao do presente.
Foi sol de pouca dura: a autoridade,
depressa a removendo, abriu devassa
para inquirir a culpabilidade.
Independentemente da intenção
que possa estar no cerne da questão,
tudo acabou por ter montões de graça!
Prioridades
"É urgente descobrir rosas"
Eugénio de Andrade
É realmente urgente, muito urgente,
que as bermas dos caminhos que trilhamos
se encham de rosas que não cultivamos,
pois de si brotam… espontaneamente.
É muito urgente, é mesmo impreterível
que nas nossas escolas e prisões
se volte a ler e decorar Camões
por ser o nosso autor de maior nível.
É deveras urgente elaborar
a Poesia como deve ser,
nada fazendo para a degradar.
Urgente é sobretudo refazer
de modo insuperável e correcto
o clássico e artístico soneto!
Até que baste
Trabalho os meus sonetos no papel
como na sua banca o joalheiro
ou como o escultor usa o cinzel
para vincar o traço derradeiro.
A cada texto dou milhentas voltas
mesmo depois de pronto e acabado,
milhentas voltas e reviravoltas
antes de ser do meu total agrado.
Cada palavra passo pelo crivo
do meu critério, até chegar ao termo
que julgo dever ser definitivo.
Quase desvairo, quase fico enfermo
de tanto esmerilar os meus sonetos,
que só largo de mão quando correctos!
Minas-novas
São jóias de alto preço os meus sonetos
quer pela forma quer pelo sentido,
bem trabalhados, musicais, correctos,
muitíssimo agradáveis ao ouvido!
Usando termos do falar comum,
disponho-os de maneira harmoniosa,
seleccionando-os todos, um por um,
como se fossem pétalas de rosa.
Por isso a minha Poesia cheira
à flor do Lácio, afortunada e bela,
como se canta em língua brasileira.
Os versos com a minha assinatura,
ou seja, a minha pessoal chancela,
são minas-novas da literatura!
"Atirad piedras, mediocres!"
Rubén Darío
Nas traseiras da casa, no quintal,
herança inestimável dos seus pais,
um certo velho tinha um roseiral
que rosas produzia… sem rivais.
Mordiam-se de inveja os seus vizinhos
que de igual modo cultivando rosas,
estas pouco mais tinham do que espinhos
contrariamente às suas… preciosas.
Numa manhã, chegando-se à janela,
viu seu jardim, parcela por parcela,
deitado abaixo à força de pedrada.
Não se deu por achado; refazendo
de novo o roseiral, ia dizendo:
"Assim procede… quem não vale nada!"
Superação
Mentia se dissesse que não gosto
de criticado ser,,, acerbamente,
por isso não ficando mal disposto
como acontece a quase toda a gente.
Digam, portanto, sobre os meus poemas
as cobras e lagartos que quiserem
quer no tocante aos respectivos temas
quer às imperfeições que eles tiverem.
Não tenham, pois, acanho ou relutância
em dizer mal das minhas produções
de todas as maneiras e feições.
Mas, de igual modo, tenham a elegância
de, em caso de impecáveis os acharem,
fidalgamente… me felicitarem!
Suprema infâmia
Sagrado é o Poeta! Deus lhe deu
o dom de com beleza se ocupar
de tudo quanto é fora do vulgar
sob a rotunda abóbada do céu!
Fala das rosas, fala das crianças,
ou seja, "o que no mundo há de melhor",
fala dos astros, fala sobre o amor
e a doce mãe "fazendo à filha as tranças"!
Rebaixar um Poeta… é ofender Deus
que nele delegou sua vontade
de elevar o moral da humanidade!
Viva Camões e abaixo os fariseus
que por falsa virtude, hipocrisia,
declaram guerra aberta… à Poesia!
Obra do meio
Goiense para mim que, sem o ser
por nascimento, o sou do coração,
é tudo quanto é nobre, belo e são
na forma que se tem de proceder!
Tinha estes além de outros predicados
aquela que eu amei durante a vida
e que precisamente em Góis nascida
os possuía em graus muito elevados.
Terei forçosamente que os ligar
ao meio social em que, de facto,
a sua educação teve lugar.
Devido certamente a esse contacto,
as suas qualidades pessoais
se aprimoraram… cada dia mais!
Vendo-me ao espelho
Se eu quisesse a mim mesmo definir-me
sem narcisismos, objectivamente,
diria de maneira muito firme
que filólogo sou, tão simplesmente.
Quero dizer que estou a par de tudo
o que é pertença da área da cultura,
como seja a palavra e, sobretudo,
as várias formas da literatura.
A arqueologia, a história, a epigrafia,
o grego antigo, o clássico latim,
segredos não possuem para mim.
Sumariamente, em síntese, eu diria
que tudo o que no fundo tenho em vista
é ter o estatuto… de humanista!
Cada qual… a seu jeito
Deixem para os Poetas, por favor,
tudo o que diz respeito à Poesia;
guardem para vocês a teoria
que em nada serve para se compor!
Só eles é que sabem como dar,
ao som da lira, voz às emoções,
só eles sabem, sem mistificar,
dar largas ao papel das ilusões!
Não teve Homero mestre nem Vergílio
quer na epopeia quer no terno idílio
senão seu próprio engenho natural.
Deixem, pois, os Poetas à vontade
com suas propensões, pois cada qual
é como "a eiró que sem rumor se evade"!
Padrão de referência
(Exortação à população goiense)
De Góis façamos com razão de ser
a capital da língua portuguesa
em toda a sua clássica pureza,
fazendo-a como tal reconhecer!
Não há que esmorecer nessa tenção,
batendo-nos com toda a galhardia
para alcançar da douta Academia
esse tão merecido… galardão.
Como afirmado tenho em meus sonetos
e já por toda a parte se propala,
Góis é o concelho em que melhor se fala
a língua de Camões em toda a Beira,
constituindo em múltiplos aspectos
como um padrão para a nação inteira!
"Honoris causa"
Em Góis, da mão de Amigos, recebi
"honoris causa" a borla e o capelo
em cerimónia de sabor singelo,
como se impunha porventura ali.
De mim disseram coisas agradáveis,
excessivas por certo, exageradas,
coisas bonitas de um país de fadas,
mas de qualquer maneira inolvidáveis.
Achei que não devia agradecer,
porque não se agradece o galardão
que brota da raiz do coração.
Mas não deixei, contudo, de dizer
que sem a folha de hera que a embeleza
ruína alguma tem qualquer beleza!
Abaixo os muros!
Abaixo os muros! sejam derrubadas
quaisquer fronteiras e limitações
à difusão das nossas concepções,
abaixo para sempre as paliçadas!
Deixem passar por todas as calçadas,
por todas as cancelas e portões
não só nossas ideias perfilhadas
como igualmente as nossas emoções!
Desmontem-se as muralhas entre os povos,
estreitem-se entre todos os estados
os laços de amizade… sem tratados!
Um clima surja de horizontes novos
sem muros, barricadas, sem paredes,
sem arames farpados,,, e sem redes!
Insofismável
Conforme em meus sonetos se propala,
seja a vila de Góis a capital
de todos os países cuja fala
é a portuguesa língua maternal!
Quer na pronúncia ou no vocabulário
quer na sintaxe ou forma de expressar-se,
Góis é como um perfeito relicário
da língua de Camões… sem duvidar-se.
Esta local… particularidade
raízes deve ter na sociedade
que o seu percurso histórico marcou.
A par dos monumentos que ela herdou,
de pedra e cal, de prata e de marfim,
o idioma é a flor melhor do seu jardim!
O morto… é quem?
Deus está morto! disse Nietzsche um dia
e quase toda a gente acreditou
mas Deus, dando-lhe a volta, o desmentia
e em menos de um segundo o aniquilou!
Por água abaixo foi a teoria
que o pai de Zaratustra arquitectou
e Deus, com um sorriso de ironia,
mais vivo do que nunca se mostrou!
O mal… é que, entretanto, na Alemanha
por culpa do filósofo… morreram
seis milhões de judeus de forma estranha.
Todos aqueles que sobreviveram
mandaram seus escritos às urtigas
voltando às suas tradições antigas!
Portela do Vento
"Silence! y sont les dieux!"
Àquele chão por onde tanta vez,
fizesse sol ou chuva, caminhei
com minha científica avidez
"inspiradas colinas" chamarei!
É que, passados mais de dois mil anos,
ainda hoje ali se sente palpitar
a alma dos povos celtas e romanos
que optaram por viver nesse lugar.
Vieram com seus deuses que deixaram
onomasticamente registados
em monumentos… entretanto achados.
Por isso aqueles sítios montanhosos
profundamente sempre me inspiraram
respeito e sentimentos… piedosos!
Beatrice
É no soneto que me realizo
inteiramente, à minha dimensão,
é no soneto, sem qualquer senão,
que atinjo a perfeição, no meu juízo.
Nos seus catorze versos rivalizo,
tanto no ritmo como na expressão,
com tantos outros vates de eleição
de cujas obras-primas me autorizo.
Tudo me serve para meter nele…
mas de entre tudo quanto se refira
é sobretudo o Amor que me compele.
Só me lamento de não ser Orfeu
para me ouvindo Deus, ao som da lira,
por pena me deixar… ir vê-la ao céu!
Dr. Bernardo Baptista Ferreira
Perfeitamente bem o conheci:
tinha um carácter forte, independente,
que não sendo goiense propriamente
dava a impressão de haver nascido ali.
Era um “João Semana” sempre prestes
a atender os doentes, fosse dia
ou noite fora, a todos atendia
mesmo vivendo em alcantis agrestes.
Casado com senhora da nobreza,
não deixava por isso de se impor
por sua carismática lhaneza.
Era de riso fácil, prazenteiro,
maneiras a puxar a grão-senhor,
cortês, não cortesão nem lisonjeiro!
Saneamento básico
Moralmente, falando, há que limpar
a terra portuguesa de excrementos
provenientos dos departamentos
que tudo fazem menos governar.
Precisa-se, para isso, de uma ETAR
que faça os respectivos tratamentos
e possa dar vazão aos elementos
que, a bem dizer, não cessam de aumentar.
Além de estar nas mãos da ladroeira,
o país, pelo caminho que isto leva,
está-se a transformar numa esterqueira.
Por mais que se proteste e que se escreva,
impera o mal… até que chegue o dia
de termos uma sã… democracia!
O aroma dos teus passos
Pelas tuas feições, pelos teus traços.
fisicamente sinto-te presente
a envolver-me todo nos teus braços
como era teu costume antigamente.
Reconheço-te até pelos teus passos
pisando à minha volta, ainda quente,
o chão familiar, cujos espaços
te sinto percorrer suavemente.
Persiste o teu aroma singular,
num misto de beleza e santidade,
a perfumar, amor, o nosso lar.
Estás presente em tudo que me cerca,
amaciando a infelicidade
da tua amarga e prematura perca!
Compasso de espera
Ao que chegou a terra portuguesa,
considerada a última nação,
por sua extremadíssima pobreza,
dos vinte e sete Estados da União!
Integrada na Europa, a que voltou
após seu grande império abandonar,
a pátria de Camões não se mostrou
em condições de se manter a par.
Perante esse descrédito… devido
à má governação que temos tido,
maus dias nos esperam certamente.
Com este panorama deprimente
não vai ser nada fácil o país
entrar proximamente nos carris!
Punhos de renda
Eu gosto do soneto aristocrático,
de finas mãos e luvas de pelica,
punhos de renda e de casaca rica,
de borla e de capelo, à catedrático.
Detesto-os quando pobres de roupagem,
sem métrica perfeita, descuidados,
mal feitos, contorcidos e forçados,
pelintras no que toca à linguagem.
Tomando por modelo os de Camões
ou de Petrarca, muito semelhantes,
eu gosto do soneto sem senões.
Deus me conceda a graça de escrever
os clássicos sonetos como dantes
os houve e novamente pode haver!
Aurea mediocritas
“A justa medida em tudo é excelente”
Pitágoras
Assim também o disse o velho Horácio,
o vate preferido de Mecenas,
introdutor da métrica de Atenas
na poesia lírica do Lácio.
Derrotado em Filipos combatendo
em prol dos ideais republicanos,
ao fim de tormentosos desenganos
foi sua vida aos poucos refazendo.
Epicurista de alma e coração,
em odes a Mecenas dedicadas
mostrou-se adepto da moderação.
Dizer-se pode que, por outras formas,
foram por ele em Roma exercitadas
do filósofo grego as áureas normas!
Presépio meu
Dos cinco irmãos eu era o mais activo
em fazer o presépio do Natal,
com muitas ovelhinhas, por motivo
de ter um certo jeito natural.
De véspera, com cestos sobraçados
a grande custo, o musgo procurava
pelos caminhos, montes e valados,
onde ele mais fofinho se mostrava.
Depois… sobre ele com amor dispunha
em barro de Barcelos as imagens
representando as várias personagens.
Enternecido no final compunha
a gruta do Menino, envolto em linho,
sorrindo para mim… no seu bercinho!
“Mais forte que a morte”
Cântico dos cânticos
Fica sabendo, amor, lá nas estrelas,
onde possuis agora residência,
que só nunca me encontro, apesar delas
te afastarem da minha convivência.
Além de pelo aroma te sentir
ainda em casa, ao pé de mim, de facto,
também por minha vez tento atingir
em pensamento, amor, o teu contacto.
Seja qual for a lei da natureza,
que frente frente um dia nos juntou,
nunca estaremos sós, tenho a certeza.
Seria absurdo, convencido estou,
que perante um amor tão singular
a morte nos pudesse avassalar!
Bene merens coniunx
Poetas de todo o mundo, universais,
sem tempo nem lugar, poetas só,
poetas que ficastes imortais,
do meu trágico drama tende dó!
Acompanhai na lira os meus poemas
de órfica inspiração sobre o amor
pondo aos meus pés os vossos diademas
em preito e por respeito à minha dor!
Não me tenhais inveja pelo facto
de eu ser maior que vós no tratamento
que em verso dar consigo ao sofrimento!
Poetas principais, eu fiz um pacto
comigo mesmo de, por via dela,
vos exceder… a fim de merecê-la!
Sob o espectro da miséria
De Portugal à porta bateu forte
o arcanjo da pobreza, desasado,
de macilento rosto e magro porte,
deixando o povo todo alvoroçado.
Já não se sabe onde ir buscar dinheiro
para comprar o pão de cada dia,
de todos os direitos o primeiro
que quem governa respeitar devia.
Como é que a este ponto se chegou
foi coisa que o poder nunca apurou
e para o qual também contribuiu.
Foi na medida em que isto permitiu
que o soberano Estado é responsável
por este panorama… miserável!
Um bom combate
Travei um bom combate. É tempo agora
de, próximo do fim, fazer as malas
e no porta-bagagens colocá-las
para a qualquer momento me ir embora.
Quer dentro de fronteiras quer lá fora
o meu país servi, travei batalhas
nas áreas do saber, não quis medalhas,
deixando uma família… que me adora.
Reveses tive alguns, porque ninguém
se encontra livre de na vida achar
pessoas que não trazem mais que azar.
Tudo, porém, foi compensado e bem
pelo maior amor que alguém já teve
e para o qual a vida foi tão breve!
Carta aos meus filhos
Prestes a ir-me embora, filhos meus,
para encontar-me com a vossa Mãe
que foi à minha frente ter com Deus,
lembrai-vos sempre disto muito bem:
amai tudo o que é bom na natureza,
tudo o que tem valor e qualidade,
nunca afirmando terdes a certeza
pois que ninguém é dono da verdade;
vossos pontos de vista defendei
com vigor e coragem, muito embora
sendo capazes de dizer: “Não sei!”;
mas sobretudo, pela vida fora,
nunca façais papel de delatores
pelo que toca aos livre-pensadores!
“Justiça carvalhal” (*)
Se eu tivesse talento para tal,
dos carvalhos faria a apologia,
essa árvore ancestral que traduzia
a mente da justiça imparcial.
À sua sombra o Santo Rei da França
ouvia os seus vassalos e lhes dava
a sentença que nunca se afastava
da precisão dos pratos da balança.
E lembraria que no município,
que tem por sede Góis, os seus senhores,
que dos monarcas foram guardas-mores,
era sob eles, ante o povo a ver,
que em plena praça pública, em princípio,
cumprir juravam… com o seu dever!
(*) Locução usada em Fafe para expressar a
justiça pronta e certa.
Árduas veredas
Fazer uns versos não é ser Poeta:
a fim de merecer este estatuto
é necessário, além de ser asceta,
ter um carácter livre e devoluto.
É preciso ser puro de intenções,
ter a alma aberta para ouvir estrelas,
a mente limpa de devassidões,
valor para arrostar com as procelas.
É necessário ter um coração
capaz de amar, durante a vida inteira,
uma mulher da nossa devoção.
Ser-se Poeta, sê-lo de verdade,
implica humanamente ter craveira
e ser um candidato à santidade!
Carta às minhas três Filhas vivas
Antes que soe a hora da partida,
o que suponho seja brevemente,
vos deixo esta missiva redigida
há muito tempo já na minha mente.
Casadas muito bem ficais com Gente
cientificamente conhecida
pelo bom nível, mais do que excelente,
da obra realizada ou produzida.
Das virtudes que em vós eu mais admiro,
aquela que sem dúvida prefiro
é o vosso culto pela Honestidade.
À vossa quarta irmã não me refiro,
a chamada Maria da Saudade,
que olhando está por vós na eternidade!
It’s been a long time
Quando outra vez no céu nos encontrarmos,
ao pé de Deus, no mundo das estrelas,
quando de novo, amor, nos abraçarmos,
colchas não faltarão pelas janelas!
Os anjos virão todos assistir
ao nosso reencontro e um cheiro a incenso
por toda a imensidão se há-de sentir,
conforme eu imagino, como penso.
Estou-te a ouvir dizer, ó meu amor,
“Faz tanto tempo!”, como a actriz sueca
em Casablanca diz para o cantor.
Espero que haja quem, na ocasião,
entoe, como foi na discoteca,
o “Como o tempo voa!” da canção!
O meu soneto da fidelidade
Em homenagem a Vinicius de Moraes
Tive um amor que nunca mais morreu,
o qual, tendo na terra terminado,
a vigorar continuou no céu
com mais intensidade, redobrado.
Tive um amor que nunca esquecerei
em circunstância alguma, por mais anos
que vão passando desde que cessei
de ter contigo, amor, tratos humanos.
Tive um amor que nunca há-de morrer,
mesmo depois de a terra se extinguir
e para sempre o sol se escurecer.
Amor assim… é luz que não se apaga
até que os astros deixem de fulgir
e em rosas se transforme cada fraga!
Como ouro velho
Sempre que pretendi dar expressão
figurativa à cor dos teus cabelos
antes que os anos, com a sua acção,
principiassem a embranquecê-los,
logo me vinha à mente fascinada
o tom dos ouros velhos, essa cor,
pela aragem dos tempos patinada,
que tem a talha antiga, meu amor!
Recordo-me de quando te dizia,
levado pela minha fantasia,
que teus cabelos eram de ouro velho
mesmo já quando, brancos como o linho,
tu constatavas, vendo-te ao espelho,
que tudo não passava de carinho!
Que saudades, amor, tenho de ti!
Que saudades, amor, tenho de ti,
da tua doce voz, do teu sorriso,
do teu formoso rosto, do teu riso
que nunca mais, amor, eu esqueci!
As horas passo, amor, a recordar-te,
a recordar a tua companhia
sem deixar um momento de evocar-te
na minha arrebatada poesia.
Nunca mulher alguma foi amada
tão loucamente como tu, amor,
com tanta intensidade, tanto ardor!
Sem caminhar contigo de mão dada
devido à tua sempiterna ausência
como hei-de suportar esta existência!
Humorismo e Humanismo
À memória do humanista inglês Sir Thomas More,
lembrando o seu “bom humor” perante o infortúnio.
Rir é saudável; rir à gargalhada
é um dom dos deuses; para toda a gente
nada melhor, perante um incidente,
do que uma terapêutica risada!
Rir descontrai, desanuvia a mente,
retemperando-a em todos os sentidos
e sem ter precisão de comprimidos
bem faz ao corpo quando está doente.
Brincando, há que saber falar a sério,
dizer verdades com jocosidade
sem descambar, contudo, no impropério.
Nada há mais salutar do que o humorismo
que ao fim de contas, na realidade,
não passa de uma forma de humanismo!
Malha larga
Não creio na justiça em Portugal
em face do que vejo acontece
nos actos do poder judicial
que muita vez não dão para entender.
Evito recorrer ao tribunal
a fim de meus assuntos resolver
pois de antemão já sei qual o final
que desde logo acabarão por ter.
O que sucede mais frequentemente
é o ministério público arquivar
qualquer processo sem o dissecar.
Como se o arguido fosse imune,
acaba no geral ou comummente
por, sem julgado ser, ficar impune!
O último combóio
O último comboio vi partir
contigo a bordo, enquanto na estação
adeus eu te dizia com a mão
até não mais, amor, te distinguir!
Parado ali fiquei, sem reagir,
e, por assim dizer, colado ao chão,
até que me saíste da visão
com teu suave jeito de sorrir.
A tua imagem foi-se dissipando
à medida que o trem se ia afastando
inexoravelmente para o céu.
Foi como se uma névoa me ocultasse
tuas feições, a tua linda face
por trás, ó meu amor, de espesso véu!
Goiense
É para mim goiense um adjectivo
que emprego quando quero traduzir
uma atitude, um modo de sentir
ilimitadamente admirativo.
Goiense é quanto me sugere o belo
desde o olhar daquela que eu amei
e a cuja vida a minha consagrei
até à ruça cor do seu cabelo.
Aplico-o, sem reservas, quando quero
frisar o que há de bom na natureza
e tudo o que altamente considero.
Goienses são, portanto, os meus poemas
de maior qualidade ou mais beleza
independentemente dos seus temas!
“Achadiço”
Arganilense sou de humor inteiro,
embora não nascesse em Arganil,
mas nem por isso menos verdadeiro,
ainda que diverso… no perfil.
Beirão me fiz, minhoto de nascença,
sem contudo enjeitar a minha terra,
marcada estando bem minha presença
na velha capital da Beira-Serra.
Aqui amei como jamais ninguém
outra pessoa amou na sua vida
em grande parte aqui desenvolvida.
Desenterrei do solo o seu passado
de remotas origens, para além
de uma porção de filhos lhe ter dado!
Ao som da música
A minha poesia é trabalhada
ouvindo a voz longínqua das estrelas
sem pretender rivalizar com elas,
ainda que não menos apurada.
Componho-a ao som das grandes partituras
dos clássicos da música europeia
segundo as mesmas linhas e molduras
que estão no coração da sua teia.
Por isso ela me sai melodiosa
quer cante o amor da esposa estremecida
quer o perfume que provém da rosa.
Não sou nenhum Beethoven ou Mozart,
mas não lhes fico atrás, modéstia à parte,
pela harmonia… em verso… conseguida!
Omnibus libertas
À memória de Raul Proença
Para todos eu quero a liberdade
que exijo para mim; seria um mal,
que humilharia a própria Humanidade,
se ela por si não fosse universal.
Eu não a quero só no meu cantinho
como se fosse um privilégio meu,
também a quero para o meu vizinho
que a ela tem direito, assim como eu.
Enquanto houver um homem, meu irmão,
que por querer ser livre em seu pensar
acabe atrás das grades da prisão,
tomando-o pessoalmente como agravo,
que de modo nenhum devo calar,
também por extensão me sinto escravo!
Ressonâncias
Nos versos meus ecoa a tradição
que vem de Homero e passa por Horácio,
que a Hélade inspirou e que do Lácio
chegou até à nossa geração.
Camões está no meio do percurso
fazendo ponte para a actualidade
que nele se revê, valha a verdade,
no que respeita ao lírico discurso.
Isso não quer dizer que em odres velhos
não meta ideias novas, consentâneas
com as preocupações contemporâneas.
Os clássicos por sua natureza
em termos de magia e de beleza
são desde Orfeu meus principais espelhos!
Lisura e contenção
Ante o poder à margem da decência,
despótico, exercido sem vergonha,
há sempre quem discorde e se lhe oponha,
ainda que com risco da existência.
O menos que se pode requerer
de quem governa um povo, uma cidade,
ou seja, uma qualquer comunidade,
é contenção na sede de poder.
Mas, além disso, importa de algum modo
que o chefe de governo de um país
esteja limpo de sinais de lodo.
Ninguém deve oprimir um cidadão
unicamente pelo que ele diz
sobre as vilezas da governação!
Eironeia
A rir se vão dizendo, gracejando,
verdades como punhos: bem jogada,
a ironia queima em lume brando,
ferindo de maneira disfarçada!
É preferível atacar, brincando,
sem ter de puxar logo pela espada,
somente da bainha a retirando
para vibrar a última estocada.
Ninguém melhor que os gregos a esgrimiram,
podendo-se afirmar que dentre nós
pertence a palma a Eça de Queiroz.
Consiste a ironia em provocar
naqueles que atingidos se retiram
um lívido sorriso, um verde esgar!
Inveterada pecha
O mal que mais afecta o nosso povo,
além da inveja, em forma negativa,
é carecer de mente receptiva
a tudo quanto seja estranho ou novo.
Trancas à porta, esbirros nas fronteiras,
sempre houve entraves inultrapassáveis
a ideias tidas por indesejáveis
devido a terem cheiro de estrangeiras.
Daí seguramente o grande atraso
que fez de Portugal uma nação
do fim do rol… da civilização.
Longe de se tratar de puro acaso,
tudo proveio manifestamente
da natural feição da nossa gente!
O mundo por destino
Fora da sua pátria o português
não tem problema algum de identidade:
faz-se passar em França por francês
com sua enorme versatilidade.
Sem prescindir da nacionalidade
que, longe de perder, até talvez
venha a sentir com mais intensidade,
pronto supera a sua impolidez.
Pode não ter vislumbres de cultura,
pode até ser de todo analfabeto,
mas raramente faz… triste figura.
É que nós somos, baixo qualquer tecto,
por nosso puro engenho natural,
um povo de destino… universal!
Políticos e fraldas
Entre a classe política que temos
e as fraldas destinadas às crianças
diz-se que existem certas semelhanças,
ainda que nem sempre o constatemos.
É de Eça de Queiroz o aforismo,
pejado de sarcasmo e de ironia,
que o escritor esgrime com mestria
na sua prosa eivada de humorismo.
A semelhança entre ela e os cueiros
resulta simplesmente dos maus cheiros
que à sua volta espalham, pelo espaço,
quando frequentemente, a cada passo,
não são mudados, como diz o Eça
com a actualidade que não cessa!
Nuno de Santa Maria
Ao condestável dobro o meu joelho
em preito de homenagem reverente
tendo no meu espírito presente
que ele é da pátria um género de espelho!
Dobro o joelho à flor dos cavaleiros
que garantiram com o seu valor
a continuidade, ante o invasor,
do solo português… nos Atoleiros!
Mas sobretudo rezo, desde agora,
ao grande herói da portugalidade
que as palmas recebeu da santidade!
Orgulhoso e soberbo muito embora,
deu provas de humildade no momento
em que se fez porteiro do convento!
À luz dos girassóis
Para Eugénio de Andrade
Ao pé da tua, a minha Poesia,
caro Poeta das roseiras bravas,
das coisas simples em que te inspiravas,
é pura prosa sem qualquer valia!
Admiro em ti, por intenção tomada
sem género nenhum de coacção,
a tua singeleza ou discrição
propositadamente cultivada.
Há sol nos teus translúcidos poemas,
sol e luar, segundo o estado de alma
que te levasse no momento a palma!
Subtil na forma e lírico nos temas,
alheio a exibições de linguagem,
de ti teus versos são perfeita imagem!
Um jovem Rei no exílio
Discretamente, de cabeça erguida,
sem qualquer enxovalho popular,
D. Manuel Segundo na partida
foi simplesmente nobre e singular.
Leva no peito em sangue uma ferida
que nunca mais havia de passar,
uma chaga recôndita, escondida,
que faz questão de para si guardar.
Entregue aos seus estudos na Inglaterra,
nem por isso, na sua solidão,
deixa de ter na ideia a sua terra.
Com ele morre toda a esperança
de persistir a Casa de Bragança
à frente dos destinos da Nação!
Assumir as raízes
Uma esponja passar sobre o passado
para apagá-lo como se, em verdade
nunca houvesse existido ou começado,
é puro desatino...ou vacuidade.
Não faz qualquer sentido obliterá-lo
como se vem propondo ultimamente
em certos meios para refundá-lo
em novos moldes… diferentemente.
Nada mais louco, nada mais sem jeito
voltarmos aos cueiros da nação
com cerca de um milénio quase feito!
Importa é melhorá-lo e desde logo,
aproveitando os ventos de feição,
como europeus entrarmos no seu jogo!
O sonetista
Maquineta me chamam de sonetos:
honrosamente o sou; mas é preciso
não confundir bom-senso com juízo
nem africanos em geral com pretos.
Fazer sonetos não é tão-somente
meter palavras dentro do aparelho
e dar à manivela sem que a gente
distinga o cor-de-rosa do vermelho.
Antes do mais, é necessário ter
suficiente engenho, como teve
Luís Vaz de Camões, a quem se deve
a perfeição maior, e não sofrer
de falta de sentido musical
e miopia de ordem cerebral!
Eterno tema
Ao som dos violinos vai sair
mais um soneto meu revivalista:
preparai os ouvidos para ouvir
este poema que vai dar na vista!
Vou cantar a ternura das mulheres,
o riso das crianças, a harmonia
dos astros e a cor dos malmequeres
e tudo quanto a alma me inebria!
Vou cantar a saudade, aquela eiró
que, se evadindo, como diz Neruda,
de figurino a cada passo muda!
Vou cantar Deus, a cujos pés repousa
a minha alma gentil, desfeita em pó
sob a mais leve e guarnecida lousa!
Última carta aos meus filhos
Tenho-vos dado, meus filhos,
de acordo com vossa Mãe,
os conselhos que, por bem,
vos afastem de maus trilhos.
Sede tementes a Deus,
a virtude cultivai,
o vosso próximo amai
mesmo que sejam ateus!
Não queirais ser delatores,
nem mentalmente sequer,
pois não há coisas piores!
E, sobretudo, jamais
a quem dispõe do poder
o jogo nunca façais!
Cidadão do mundo
O meu neto Francisco realiza
meus sonhos de rapaz, nunca cumpridos,
ser cidadão do mundo que analisa
em todos os aspectos e sentidos.
Nos seus estudos universitários
e sua actividade laboral
tem percorrido territórios vários
com povos de cultura desigual..
Em todos eles, indistintamente
de continente para continente,
tem feito as mais saudáveis amizades.
São tempos outros, oportunidades
que no meu tempo, quando era rapaz,
ninguém de imaginar era capaz!
A chave do portão
Quando, por causa da maçã de Adão,
do paraíso Deus nos expulsou,
seguramente nunca imaginou
que alguém trouxesse a chave do portão.
Por isso, às vezes, regressando lá
sem ninguém ver, de modo encapotado,
roubámos à sorrelfa uma maçã
que vamos devorar para outro lado.
Só tenho pena que, ao passar revista,
a Deus a sua falta dê na vista,
por nós pagando os anjos que Ele pôs
de guarda a esse recinto, na certeza
de que, pensando bem, nenhum de nós
se atreveria a entrar… na fortaleza!
O grande embuste!
Não há que ter ilusão
quanto à maneira concreta
e desde logo secreta
como é feita a eleição
dos diversos deputados
ao chamado parlamento,
os quais, em dado momento,
são pelo povo votados.
Sem ser chamado a escolher,
este só tem que dizer
se concorda ou não concorda
com a lista que os partidos
lhe apresentam para a engorda
dos seus membros preferidos!
Transmutação
Polarizaste, amor, todo o meu ser
sem volta a dar-lhe, da cabeça aos pés,
não mais querendo, amor, do que viver
contigo… contra ventos e marés!
Perdi minha vontade de ser eu
para contigo me identificar:
somos um só, pois foi nisso que deu
minha atracção por ti… tão singular!
Como Camões diria, do seu jeito,
me transformei na criatura amada
em ti me aniquilando… satisfeito!
Um dia, quando a Deus prestarmos conta
das nossas vidas, pouco ou nada monta
da tua, amor, minha alma separada!
Poema de outros tempos
Um poema vou compor à moda antiga
em lira de ouro ou cítara de prata
e dedicá-lo, em forma de cantiga,
ao meu amor… que de paixão me mata!
O seu olhar de jade exaltarei
e seu sorriso leve como espuma,
seu modo de falar de ouro de lei
como jamais falou mulher alguma.
Meu poema afinarei pelas estrelas
no seu cadenciado movimento
pelas rotas azuis do firmamento.
Poeta algum dos livros de leitura
terá cantado uma outra criatura
tão singular e de feições tão belas!
Ode à vida
Quero uma pátria à altura dos meus sonhos,
de rosto limpo, aberto, escarolado,
cioso do seu mítico passado,
sem governantes mórbidos, bisonhos!
Quero para os meus netos um país,
além de respeitado, enaltecido,
por gente nova e válida gerido,
mas nunca por políticos senis!
Quero uma terra cheia de crianças
que sejam, no futuro, as esperanças
de uma nação de nível europeu!
Quero ter a afoiteza … de rezar
sem respeitos humanos no meu lar
com a família que o Senhor me deu!
Deicídio
Pela graça de Deus eu vim ao mundo
de natureza humana revestido
e, por esse motivo, parecido
à sua imagem, com que me confundo.
Como pessoa estou portanto acima
de tudo o mais que existe no universo
além de, à simples vista, ser diverso
por possuir um sopro… que me anima.
Ao pé de mim, comparativamente,
que são os sóis com sua incandescência,
pois nenhum deles… ama, pensa ou sente?
Privar um ser humano da existência
é o mais abominável dos labéus
porque é matar uma fracção de Deus!
“Esta é a ditosa terra minha amada!”
Ainda que sem rumo ou à deriva
o barco da nação vá navegando
por culpa manifesta do comando
e da tripulação correlativa;
mesmo que chafurdando impunemente
a classe governante se compraza,
das próprias leis fazendo tábua rasa,
num mar de corrupção sem precedente;
embora no contexto mundial
pareça este país uma falperra,
onde para a rapina tudo val;
eu continuo a preferir viver
na pátria de Camões, na doce terra
que tenho por melhor que outra qualquer!
Sonata azul
Ouvidos ler ou lidos no papel,
os meus poemas na realidade
têm a cor e a tonalidade
dos olhos de David, rei de Israel.
Têm da turquesa a cor imaculada
Peculiar da classe da nobreza,
a cor por excelência que se preza
de ser da natureza a mais cotada.
Tanto na forma como no sentido,
passando pelo seu vocabulário,
serviam para forro de sacrário.
São castos, meu amor, como os teus olhos
de um verde-azul, suave, enternecido,
capaz de em rosas transformar abrolhos!
Como num sacrário
Num bom soneto cabe tudo quanto
quisermos lá meter, desde a amizade
ao nobre sentimento da humildade,
que se acobertam sob o mesmo manto.
Cabe lá tudo que possua encanto
pelo que diz respeito à humanidade
e particularmente a santidade
que Deus em cada ser estima tanto.
Cabe lá tudo quanto se quiser
desde que seja bom na natureza,
como é a formosura da mulher.
Nos versos de um soneto que se preza
tão-só não pode ou deverá caber
um sentimento reles de baixeza!
A via do erro
"O orgulho é o caminho do erro"
Antero de Figueiredo
O orgulho é irmão gémeo da sandice
pois têm a mesma mãe, o mesmo berço,
como aliás o povo sempre disse
em toda e qualquer parte do universo.
Não é preciso ser-se inteligente
ou muito culto para o compreender
pois salta à vista, ainda que sem lente,
esta verdade fácil de entender.
O orgulho cega e tira a sensatez,
não permitindo a quem dela faz gala
ver para além da sua própria pala.
Sendo, portanto, irmão da estupidez,
quando se juntam ou se encontram perto,
tudo o que fazem… nunca bate certo!
Nevermore
Nunca mais, meu amor, estarei só
nesta vida sem ti… porquanto sei
que embora há muito reduzida a pó
de ter-te ao pé de mim nunca deixei.
Sinto a tua presença corporal
em forma de anjo a acarinhar-me o rosto,
uma presença mais que virtual
porque lhe sinto, além do aroma, o gosto.
Nunca mais, meu amor, hei-de sentir-me
separado de ti momento algum
até contigo novamente unir-me.
Nunca mais, meu amor, hei-de contar
para te ir ver os dias, um a um,
pois nunca me chegaste a abandonar!
Para lá do nada!
Não posso acreditar de forma alguma
que a morte corporal do ser humano
seja o final de tudo, que se esfuma
sem deixar rasto algum, sacro ou profano.
Depois do nada, tem que haver por força
alguma coisa mais, seja o que for,
que para além do nada se reforça
como em particular seja o amor.
Não há poeta algum que assim não creia,
contemporâneo ou não, com sua veia
que lhe confere o dom da intuição.
Se lá não chego pela inteligência,
nem pelos fundamentos da ciência,
chego de facto… pelo coração!
“Tournez, tournez, chevaux de bois”
Verlaine
Sem saber por que razão,
vieram-me hoje à lembrança
meus brinquedos de criança
de madeira e papelão.
Hoje é tudo diferente,
custando muito dinheiro,
coisas vindas do estrangeiro,
sem ninguém ficar contente.
As crianças sem cessar
pedem sempre mais e mais
aos seus pais e suas mães.
Por não ser menino mau,
eu tive para montar
um cavalinho de pau!
Campo de concentração
Repleta de minhotos, transmontanos,
gente da Beira, Algarve e região,
a Lisboa de agora, destes anos,
parece um campo de concentração.
Um ponto se tornou de convergência
da grande maioria dos concelhos
quase desertos em consequência
de se irem convertendo em lar de velhos.
Com a afluência aos bairros da cidade
sem distinção de origem nem de nada
vai o país perdendo a identidade.
Terra de exílio, acabará por ser
uma parda cidade povoada
por quem somente quer sobreviver!
Sem remorsos
Quando Deus me chamar, vou sem remorsos
de coisa alguma haver efectuado
que não devesse e não ter feito esforços
para viver sem sombra de pecado.
Santo não fui, bem longe estando disso,
nem flor de perfeição, botão de rosa,
mas simplesmente um português castiço
que entronizou no peito a sua esposa.
Criei meus filhos com amor e zelo,
discípulos deixei, que nesta altura
já mestres são… de borla e de capelo.
Se em desfavor de alguma criatura
errei de forma grave, em tribunal
a Deus direi: - “Senhor! não foi por mal!”
Elegia beiroa
Arcaicas terras da Beira
de sinuosas estradas
e montanhas boleadas,
já não tenho companheira!
Não há paisagem nenhuma,
desde a fronteira até Góis,
que não tenhamos os dois
visto e revisto, uma a uma.
Estão marcados seus passos
nos caminhos e veredas
dos teus cinzentos espaços.
Não têm conta as vezes que ela,
subindo às tuas penedas,
quis ver terras de Castela!
“As time goes by”
O tempo como passa, meu amor!
parece que foi ontem que nós dois
perante Deus, na capelinha, em Góis,
jurámos viver juntos, sem supor
que um dia, após seis décadas passadas
num “ledo e cego” enleio, alicerçado
em oito filhos, seja Deus louvado!
teríamos as vidas separadas!
Como o tempo passou, breve e veloz,
e como impiedoso e duro algoz
os laços desatou que nos uniam!
A esperança nos ficou, graças a Deus!
de terem novo fôlego nos céus
as ilusões que entre ambos existiam!
Lobos de barriga cheia
À memória de Aquilino Ribeiro
Os lobos que mais uivam, meus senhores!
não são os que têm fome, em alcateia,
os rebanhos rondando em cada aldeia,
enchendo de temor os moradores.
Com estes posso bem, sendo bastante
para os afugentatar uma fogueira
ou simplesmente o som de uma caldeira,
como ao padre dizia o acompanhante.
Os que me causam medo são aqueles
que organizados, de barriga farta,
acham que tudo lhes pertence a eles.
São esses que me inspiram mais pavor,
infernalmente uivando com furor
se alguém dos seus repastos os aparta!
Zêuxis: beleza e fealdade
Não existindo numa só mulher
a perfeição de Helena, Zêuxis teve
a ideia genial, como se escreve,
de a várias, em Crotona, recorrer:
os olhos de uma; de outra, o seu cabelo;
os seios desta; daqueloutra, a perna…
e assim refez, para ficar eterna,
a bela Helena, arquétipo e modelo!
“Não me convence! – disse alguém no meio –
se ele não for capaz, do mesmo jeito,
de retratar o horrendamente feio!”
“É para já! – lhe retorquiu o artista –
Dirija cada qual a sua vista
para sua alma… e veja o seu efeito!”
Vinho da casa
Quem do meu vinho acaso não gostar,
à minha moda feito e ao meu gosto,
só lhe resta buscar outro lagar,
outro processo de pisar o mosto.
Metaforicamente dizer quero
que quem não partilhar minhas ideias
prossiga o seu caminho e, como espero,
bater à porta vá de outras aldeias.
A natureza deu a cada qual
uma certa maneira pessoal
de se coser com suas próprias linhas.
Deixem-me, pois, gozar das minhas vinhas
o vinho do meu jeito elaborado,
ainda que em sentido figurado!
Como um estigma
Tenho o sagrado dom da Poesia
que Deus me deu, não sei por que razão,
o dom de transformar em harmonia
as pulsações banais do coração.
Talvez não seja mais que fantasia
ou mesmo descabida presunção,
não longe das fronteiras da ousadia,
esta maneira minha de expressão.
O certo é que meus versos naturais,
fluentes, espontâneos, musicais,
brotam de mim como água cristalina,
o que me faz supor ou constatar
que só por mera inspiração divina
pode esta circunstância haver lugar!
Questão vocabular
Ao Prof. J. M. S. Simões Pereira,
em plena concordância linguística
Há que dar a razão a quem a tem:
pelo que a novos termos diz respeito
para expressar qualquer novo conceito,
eu acho o seu critério muito bem!
Respeitemos os termos consagrados
e, por assim dizer, comprometidos
com hábitos de longe transmitidos
e fortemente em nós… enraizados.
Se “matrimónio” desde logo implica
a existência de mãe no “casamento”,
que é uma espécie de acasalamento,
como entre os animais se verifica,
para outro qualquer tipo de união
invente-se… ajustada… locução!
Inalienável!
Quero ter o direito de falar,
no meu país, da forma que entender;
quero ter o direito de expressar
o que me vai na mente… sem temer!
Constitui um direito elementar
de que me não pretendo desfazer,
seja qual for, a fim de me calar,
a dissuasora força do poder.
Num verdadeiro estado de direito
não há nenhuma justificação
para, a pretexto de qualquer razão,
alguém querer privar-nos, com efeito,
em seu maquiavélico proveito,
da nossa faculdade de expressão!
Sobre a Saudade
Em competição com Pablo Neruda
Saudade não se aprende nem se ensina:
não há livro nenhum a seu respeito
que peremptoriamente nos defina
o sentido real deste conceito.
É sentimento que ninguém domina
quando se instala e nos invade o peito,
não existindo dose de morfina
capaz de minorar o seu efeito.
Só sabe o que é saudade quem um dia
sofreu dessa moléstia para a qual
vacina não existe ou terapia.
Em todo o caso nada há de pior
que nunca ter sofrido dessa dor
que tem a sua sede em Portugal!
Amor-próprio
“Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio”
Pablo Neruda
Quem não tem amor-próprio nada tem:
é como um trapo de limpar o chão,
uma coisa qualquer, um cidadão
que não desperta a estima de ninguém.
Ter amor-próprio é possuir-se brio
perante o infortúnio e o sucesso,
é ter carácter, é manter-se avesso
a tudo quanto cheire a compadrio.
Tirem-me o acessório, o secundário,
o fato de domingo, o numerário
ou tudo o que me possa dar prazer.
Mas não me privem da minha auto-estima
que indiscutivelmente ponho acima
do ar que respiro… para não morrer!
Cultura… na cidade
Nos cadeirais solenes do saber
de cada Faculdade revestida
de borla e de capelo, a condizer,
cultura existe que não tem cabida.
Mais próxima do meio popular,
que lhe confere toda a importância,
entre ele é que ela encontra o seu lugar
ainda que sem pompa ou circunstância.
Anda pelos cafés e galerias,
exposições, museus e livrarias
por todos os recantos da cidade.
Fora dos muros da Universidade,
mais terra a terra, mais humana e viva,
há pois uma cultura… alternativa!
Penoso dom
Os deuses foram pródigos comigo
concedendo-me o dom da Poesia,
que não deixa aliás de ser castigo
que a alma me tortura e me angustia.
É que não se é Poeta impunemente,
não se cultivam rosas sem espinhos,
não se descobre um novo continente
sem palmilhar incógnitos caminhos.
Para atingir o cume das montanhas
há que de rocha em rocha, encosta acima,
trepar pelas veredas mais estranhas.
As propensões de que o Poeta goza
são dádiva dos deuses, cuja estima
acaba ao resto por nos ser penosa!
Goethe
Ante os heróis me curvo com respeito,
seja qual for seu tipo de heroísmo,
seja qual for o respectivo feito,
sem pôr em causa o meu patriotismo.
A todos eles tiro o meu chapéu
independentemente da nação
em cujo solo está seu mausoléu
para imortalizar a sua acção.
Políticos, soldados, pensadores
merecem por igual a minha estima,
a par dos mais egrégios escritores.
Somente abro excepção para os Poetas
que, como Goethe, ponho muito acima
das minhas referências predilectas!
Se o amor é fogo
Se o amor é fogo, como diz Camões,
é bom não se esquecer que pelo vento
pode ser apagado num momento
ou deflagrar em magnas combustões.
Se ele é pequeno, basta um sopro só,
uma ligeira brisa ou leve aragem,
para na respectiva personagem
o extinguir e reduzir a pó.
Porém se é grande o fogo desse amor,
em vez de o exaurir, a ventania
o faz ainda arder com mais vigor.
Tudo é questão, portanto, de saber
como é que o amor ao vento reagia
para se aquilatar do seu poder!
Prova final
Aproxima-se o fim; serenamente
espero despedir-me da existência
sem nada me pesar na consciência
num percurso de vida transparente.
Amei como ninguém, perdidamente,
apaixonado até quase à demência,
criei meus filhos na maior decência
fazendo deles prestimosa gente.
Andei por muitas Universidades
obtendo uma cultura singular
no vasto campo das Humanidades.
Falta-me ir ter com Deus, a quem compete
saber se eu fui capaz de perdoar,
mais que uma vez, setenta vezes sete!
Guerra colonial
Saúdo os bravos que, fiéis à História
que Luís de Camões cantou em verso,
tornando-a conhecida do universo,
credores são de perenal memória!
Conscientes ou não da sua acção
em terras portuguesas de além-mar,
bateram-se sem nunca contestar
dos seus confrontos a motivação.
Atraiçoados de maneira vil
pelos chamados capitães de abril,
merecem todo o nosso gratifício.
Não tem sabido a pátria degradada,
outrora em verso heróico celebrada,
reconhecer seu nobre sacrifício!
“Livre e humano”
Ao Prof. A. Carvalho Homem
que me transmitiu este ideal
Livre e humano: assim quero viver,
livre de algemas, livre de mordaças,
livre de sindicâncias e devassas
impostas pelas forças do poder!
Como as águias voando nos espaços,
quero manter-me livre, independente,
não tendo a coisa alguma presa a mente
por qualquer tipo ou género de laços.
E quero ao mesmo tempo ser humano,
ou seja, tolerante e compreensivo
menos perante a vara do tirano.
“Elha por elha”
Até bem pouco, em tempos de Aquilino,
nas povoaões beiroas, que descreve
naquele seu estilo genuíno,
muito primitivismo se manteve.
Eu próprio o constatei nos meus passeios
por aquelas paragens sertanejas,
velhas aldeias, lugarejos cheios
de rústicos solares e de igrejas.
Assim se viveria exactamente
no tempo dos antigos lusitanos
há cerca de dois mil quinhentos anos.
Somente há pouco, só recentemente,
com a chegada da televisão,
se soube o que era… a civilização!
Mosquitos e moscardos
Perante a lei, dizia um magistrado,
iguais não somos todos: há que ter
em consideração qual o poder
de que dispõe o cidadão visado.
Como teia de aranha, a lei varia
de caso para caso, consoante
a criatura que ela tem diante,
ou seja, quem a afronta ou desafia.
Se na teia de aranha por acaso
um mosquito se deixa emaranhar,
não mais se pode dela libertar.
Porém, se de um moscardo for o caso,
vai teia e tudo o mais à sua frente,
como ante a lei sucede com a gente!
Continuidade
Permitiu Deus que os dois, enamorados,
chegássemos a velhos sem deixarmos
de reciprocamente nos amarmos,
dos nossos sete filhos rodeados.
Ela partiu primeiro para o céu,
como era seu desejo e meu também,
porquanto quem na terra se mantém
é quem mais sofre, ou seja, o caso meu.
Um dia, reatado o nosso amor
junto de Deus, em pleno firmamento,
espero venha a ser ainda maior.
E, sobretudo, nem por um momento
conhecerá qualquer interrupção
em toda a sua eterna… duração!
“Santa Rússia”
A Rússia soviética voltou
às suas tradições religiosas:
apenas sete décadas durou
o império das cadeias tenebrosas.
Voltou-se à liberdade de expressão
e de sem medo se poder falar,
bem como a respeitar-se o cidadão
na sua faculdade de pensar.
Voltou-se à “Santa Rússia” do passado,
do culto das imagens colocadas
pelo poder político… de lado.
Consigo mesmo a Rússia se encontrou,
voltando às procissões estatizadas
que o credo comunista… interditou!
Bravura, santidade e vilania
A Sua Eminência o Cardeal-Patriarca
de Lisboa, D. José Policarpo
Vossa Eminência tem toda a razão
no que respeito diz à santidade,
perante a qual não há conformidade
por parte do governo da nação.
Os nossos governantes não se dão,
na sua quase generalidade,
com tudo quanto cheire, na verdade,
aos símbolos do espírito cristão.
Preferem ver no santo condestável,
e mesmo assim com muitas reticências,
o paladino audaz e formidável.
Em grande parte, suas excelências
convivem com mais gosto e simpatia
com as demonstrações de vilania!
Góis: como um feitiço!
O nome Góis tem magia,
não me sai do pensamento
quer de noite quer de dia,
a toda a hora e momento!
É como uma sinfonia
tocada num instrumento
da maior categoria
que me causa enleamento.
É, não sei por que motivo,
um topónimo local
estranhamente emotivo.
Com quatro letras escrito,
não existe em Portugal
outro nenhum tão bonito!
D. Manuel II
Com ele terminou a dinastia
com outro Manuel iniciada:
há quase nove séculos fundada,
findou também com ele a monarquia.
Previsto não estava que reinasse
por ser filho-segundo, mas o certo
é que o acaso quis ou Deus decerto
que esse destino ingrato lhe tocasse.
Renunciou ao trono muito moço
e sem alarde, em paz, sem alvoroço,
partiu para o exílio… de bom grado.
No Panteão Real jaz sepultado
ao pé do seu irmão, cujo lugar
ele assumiu no ofício de reinar!
Clarisse Barata Sanches:
uma glória goiense
A sua inspiração, Distinta Amiga,
é muito simplesmente inesgotável
e quanto ao seu valor não sei que diga
senão que me parece incomparável!
Tudo lhe serve para versejar,
dando prioridade à Natureza
e a tudo quanto possa ter lugar
nos seus altos conceitos de Beleza.
Não há matéria nobre que não tenha
nos seus belos sonetos cabimento
sempre de primoroso tratamento.
Que nunca em sua mente falte lenha
para aquecer os nossos corações
com suas talentosas criações!
Imparável agressão
Chamou-se neolítico o momento
em que, deixando a selva, o ser humano
quis arrancar da terra o seu sustento
com toda a espécie ou género de dano.
E desde então, por todas as maneiras,
não mais deixou de lhe alterar a face,
o solo revolvendo, abrindo leiras,
por muito esforço que isso lhe custasse.
Não voltou mais a Terra a ter descanso,
forçada a dar ao Homem sempre mais
pelo que tange a bens materiais.
Em pressuroso e gradual avanço,
assim se deu na Terra sem defesa
a primeira agressão à Natureza!
Orion
Ver para além da Terra, quem me dera
ver para além dos astros, até Deus,
os olhos mergulhar no mar dos céus,
topar as nebulosas… eu quisera!
Lembrar-me que eu talvez já tenha sido
um grão de estrela acaso caducada
na imensidão dos tempos transformada
em qualquer um de nós, põe-me aturdido!
Ao berço remontar da nossa origem,
presenciar do cosmos a vertigem,
que sensação fantástica seria!
Talvez mais tarde pela astronomia
nos seja dado penetrar a fundo
em todo o espaço que rodeia o mundo!
Integralidade
Quem ama a pátria verdadeiramente
assume em toda a sua dimensão
o seu percurso, sem fazer questão
do sistema político vigente.
Em novecentos anos de existência
teve o país inúmeras bandeiras
com variações de costas e fronteiras
e tempos de infortúnio e de excelência.
Tivemos reis a par de presidentes,
uns efectivos, outros provisórios,
e todos mais ou menos excelentes.
Ainda que entre si contraditórios,
todos estes contornos se entrelaçam
em filigranas mil que me ultrapassam!
Ao leme da minha alma
Sou da minha alma o capitão sem medo
que a ninguém presta contas a não ser
a Deus, quando acabar este degredo
a que me condenou… por me querer.
Nas congeminações em que me enredo,
já concluí que Deus, a bem dizer,
à queles a quem ama, tarde ou cedo,
à prova põe… fazendo-nos sofrer.
À parte Deus, ninguém por conseguinte,
seja por zelo seja por acinte,
sobre minha alma tem qualquer domínio.
Sou de mim mesmo o capitão: só eu
comando a minha nau por entre o breu
sem precisar de mapa ou de escrutínio!
O descalabro!
Um século depois do seu começo
o regime político que temos
o cúmulo atingiu do mau sucesso
nos dias conturbados que vivemos!
Tudo são fraudes, nada funciona
desde a justiça à banca, para não
se referir sequer a educação
que, de hora a hora, mais se desmorona.
Uma tristeza… aquele parlamento
que mais parece um bando de garotos
primando por seu mau comportamento!
Deus nos acuda! Deus nos deite a mão
e caso escute e ouça os nossos votos
acabe por ter dó… desta nação!
Irrecusável graça
Católico, apostólico, romano,
defendo a obrigação que o homem tem
de procurar ir sempre mais além
em tudo o que respeita ao ser humano.
Não deve ter limites a ciência,
pois seria de todo lamentável
que o homem sem motivo razoável
menosprezasse a sua inteligência.
Seria ofensa a Deus, que no-la deu,
negar-se a perscrutar o que se passa
na terra que habitamos e no céu.
A fé, seja qual for a sua igreja,
não deve pôr reservas a essa graça
que em cada humano cérebro lateja!
À moda de Borgonha
Ele não é, não pode ser aquele
o Infante D. Henrique, por vergonha
de usar chapéu à moda de Borgonha,
isso bastando para não ser ele!
Tirando acaso a posição das mãos,
o resto não se ajusta, nem de longe,
em face dos seus hábitos de monge,
ao traje social dos cortesãos.
Trajar assim, à moda borgonhesa,
de resto, em Portugal, com à vontade,
só uma personagem portuguesa:
o Duque de Coimbra, acostumado
a frequentar, devido ao seu estado,
as múltiplas nações da cristandade!
João de Castro Nunes
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