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Luis da Silveira

Página das letras > Os nossos poetas








Este é o mundo de agora

Poesia




D. Luís da Silveira
1º Conde de Sortelha

Poesia pré-renascentista


Poesia cortesã, de temas fúteis, de divertimento, de carácter anedódito ou sarcástico. Poesia sobre o amor, as intrigas, as maledicências. Alguma crítica social também, mas sem dimensão política, que se vivia sob a tutela real.
Glosam-se motes em cantigas, vilancetes e esparsas, em forma de apodos, canções e endechas. As trovas, de verso em redondilha geralmente heptassilábica, aqui e ali quebrados em trissílabos e quadrissílabos, e de vocabulário muito reduzido, transmitindo à poesia um modo formal e monótono.
Era assim a poesia dos inícios do XVI, de transição dos trovadores para os renascentistas. Luís da Silveira, donatário das terras de Góis, foi um dos mais representativos. Versejou na corte e nas margens do nosso Ceira.
Demos um tratamento ao texto original dos seus poemas, de modo a ficar em ortografia corrente, à excepção de alguns vocábulos e formas gramaticais, por razões de métrica e poesia. Mas sem se adulterar o estilo do autor, com as sua liberdades poéticas.




Este é o mundo de agora
(sobre os aduladores da corte)

Vi-me em tamanha contenda
com que de cá serviria,
que à míngua da fazenda
me tornei à fantasia.
Cumpro convosco e vendo
como com senhor e amigo,
mas de dissesse o que entendo
mais diria do que digo.

Esperança de proveito
faz fingir mil amizades,
mui cheias de seu respeito,
mui vazias de verdades.
O ódio não aparece,
o amor anda de fora,
este é o mundo de agora
ai de quem não o conhece!

Os rostos andam afeitos
a mil dissimulações,
tudo são modos e jeitos,
só Deus sabe os corações.
Não há i língua que diga
a tenção de seu senhor,
da vontade mais imiga
amostre ela mais amor.

Às palavras dão-lhes cores
naturais com falsa tinta,
mas aos bons conhecedores
logo tudo se despinta.
Vivem de manhas e de artes,
trazem pesos e balança,
com que pesam esperança
que lhes pode vir das partes.

Não buscam amigos sãos
nem menos espirituais,
mas querem-nos temporais,
temporais e temporões.
Que venham logo com fruito
acabados de plantar,
estes prezam eles muito,
estes põem no seu pomar.

Trazem por grandes baixezas
a água ao seu moinho,
sem olhar por que caminho
que não curam de limpezas.
Buscam rodeios, enganos,
perdem a vida e o sono,
para a trazer por seus canos
que os não sinta seu dono.

(v 21) i - forma antiga de aí
(v 23) imiga - forma sincopada de inimiga
(v 37) fruito - forma antiga de fruto
(v 47) cano - nome que se dava ao saltério; pessoa intermédia,
para através dela se conseguirem vantagens (fig.)


Cantigas

1
Senhora, pois que folgais
com meu mal, não me mateis,
porque quanto alongais
minha vida, tanto mais
vossa vontade fareis.

E olhai, se me acabardes,
que nunca mais me tereis
inda que me desejeis,
para me outra vez matardes.
Mas já sei o que cuidais
e de mim o conheceis:
confiais
que, se de morto mandais
que torne, que me achareis.

2
Tudo se pode perder,
nada não pode durar,
e quem nisto bem cuidar
nem folgará com prazer
nem sentirá o pesar.

Se fortuna alguém contenta
com bem ou mal que lhe ordena,
faz-lho por que depois senta
na mudança maior pena.
Faz o mal por o fazer,
faz o bem para o tirar,
e consente no ganhar
pelo perder.

(v 8) senta - sinta


3
(a uma dama que lhe atirou uma pedra)

Com uma pedra me tirastes,
mas queira Deus que alguma hora
as lanceis por mim, senhora.

Bem vos vi querer tirar,
sempre adivinho meu mal,
mas quem poderá cuidar
que não me havíeis de errar,
naquisto como no al?
Vós bem certo me tirastes,
e de vós mesmo, senhora,
me vingue Deus alguma hora.

(v 3, 4 e 9) tirar - o mesmo que atirar
(v 8) naquisto - forma antiga de nisto
(v 8) al - mais


4
Mil vezes tenho provado,
mas em vão o experimento,
de furtar ao pensamento
algum tempo sem cuidado.

Por espias vão enganos
cheios de prometimentos,
não me valem fingimentos,
mais quero o mal de mil anos
que novos contentamentos.
Ó pensamento enganado,
enganado pensamento,
quero-te fazer isento
e tu hás-de inda mau grado!

5
Para que nada em fim
já não posso querer al,
porque já o novo mal
não acha lugar em mim.

Fiz-me livre, fiz-me isento,
sabendo minha verdade,
fiz mil castelos de vento,
levava contentamento
como quem tinha vontade.
Mas agora desde que vim
acabar de querer al,
nunca pode o novo mal
dar nenhum lugar em mim.


6
(à sua amiga D. Joana de Mendonça)

Sentido que quem não sente,
queira Deus que inda se senta
descontente de contente
do que me a mim não contenta.

Novos descontentamentos
lhe causem novos desejos,
tantos arrependimentos
tenha de seus pensamentos
que a mim pareçam sobejos.
Que inda de mim se contente,
tão descontente se senta,
e senta quanto não sente
do que agora contenta.

(v 2, 11 e 12) senta - sinta
(v 4) me a mim - ‘mamyn’ no original



Vaidade das vaidades

Vaidade das vaidades
e tudo é vaidade,
assim passam as vontades
como as cousas da vontade.
Tudo já se desejou
e tudo se aborreceu
e tudo se já ganhou
e tudo se já perdeu.

O homem que mais tem
do trabalho, a que se dá?
A geração vai e vem,
a terra sempre assim está.
As cousas naquesta vida
todas se entregam por conto,
que se que há de mor medida,
tudo lá tem seu desconto.

Não pode ninguém dizer
que há i já cousa nova,
o que foi isso há-de ser,
disso temos certa prova.
Quem carece do passado
julga pelo acidente,
mas coitados, e coitado
de a quem é tudo presente.

Que não lembrem os primeiros
senão quase por história,
tão pouco terão memória
de nós os mais derradeiros.
O tempo vai por compasso,
dias, horas e momentos,
liberal de esquecimentos,
de memórias mui escasso.

Eu fui rei em Jerusalém,
precedi os de ante mim,
tive bens, quis grande bem
e em fim tudo houve fim.
Fiz os meus olhos contentes
e vi o tempo, senhor,
vi lágrimas de inocentes
e não vi consolador.

Tive mil deleitações,
riquezas e bens mundanos,
em tudo achei enganos,
dores e tribulações.
Com trabalho os ajuntais,
com cuidado os possuís,
quando os tendes, não dormis,
ou vos deixam ou os deixais.

Cuidei no meu coração
onde tudo ia ter,
então disse ao prazer:
- porque te enganas em vão?
Por erro julguei o riso
dentro da minha vontade,
assim vi passar o siso
como à grande vaidade.

O sisudo e o sandeu,
tudo vi que tinha fim
e disse então entre mim:
- o que presta o saber meu?
Ignorantes e prudentes
todos têm uma medida,
na morte nem nesta vida
não os vejo diferentes.

Assim que neste presente
bons nem maus não se conhecem,
e a todos igualmente
bens e males acontecem.
Daqui nascem confusões,
nascem descontentamentos,
perdem-se as opiniões,
abaixam-se os pensamentos.

O justo, o sabedor
e o mais cheio de fé,
nenhum não sabe se é
digno de ódio, se de amor.
Quantos isto faz perder,
porque a quem a fé não dura,
encomenda-se à ventura,
e deixa de merecer.

As cousas seu tempo têm
e por seus espaços vão,
tempo de mal e de bem,
tempo de sim e de não.
Tempo há de semear
e tempo há de colher,
e tempo de obedecer
e tempo de mandar.

Não vi fortes vencedores,
nem vi justos viandantes,
nem ricos os sabedores,
nem pobres os ignorantes.
Não vi i merecimentos,
nem menos boa razão,
tempos, acontecimentos,
há nas cousas e mais não.

Vi os ruins soterrados
e o que deles diziam,
e vi-os, quando viviam,
por santos ser adorados.
E vi levar à mentira
os galardões da verdade,
e o que se daqui tira
é que tudo é vaidade.

Vi trabalhos sem dar fruito,
vi que ninguém não repousa,
vi fazer pouco por muito
e muito por pouca cousa.
Ociosos, ocupados,
vi perder dias e anos,
vi enganos de enganados
que doem mais que desenganos.

Vi os pobres sem amigos,
vi os ricos sem contrairos,
vi em tudo mil perigos,
mil mudanças, mil desvairos.
Vi aos cuidados sobejos
falecer-lhe seu cuidado,
e vi aos grandes desejos
falecer-lhe o desejado.

Vi os muito cobiçosos
ter mui largos despenseiros,
e vi néscios ociosos,
ficarem por seus herdeiros.
Dá a fortuna estes meios
aos menos merecedores,
e dos trabalhos alheios
os faz o tempo senhores.

Vi o mundo ser sujeito
de senhores mui sujeitos,
e vi estar o direito
em modos e em respeitos.
Vi tudo sem liberdade
metido sem sujeição,
vi os livres sem vontade
feitos de outra condição.

E não vi nenhum estado
que não fosse descontente,
uns choram pelo passado
e outros pelo presente.
Uns por terem seus cuidados,
outros porque os perderam,
assim que os que não nasceram
são os bem-aventurados.


(v 13) forma antiga de naquela
(v 18) i - aí
(v 105) fruito - forma antiga de fruto


D. Luis da Silveira



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