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Página das letras > Painéis de S. Vicente
DEBATE
De: Jose Luis Nogueira
Enviada: terça-feira, 20 de Abril de 2010 21:16
Para: 'joaocastronunes@gmail.com'
Assunto: Tertulia goiense
Senhor Professor,
Só agora regressei a casa, depois da excelente sessão que nos proporcionou na passada sexta-feira em Góis e é essa a razão porque só agora me é possível apresentar-lhe os meus cumprimentos e agradecer o elevado interesse e forma simples e aliciante com que que nos proporcionou esta revisitação a um período histórico que sempre me apaixonou.
Foi para mim um verdadeiro privilégio e um prazer assistir a este filme dos acontecimentos e à forma aliciante e com a simplicidade que só está ao alcance dos grandes mestres com que nos proporcionou a sua visão dos acontecimentos.
Bem-haja por isso.
Acresce (e terá sido, na minha opinião, o ponto culminante da tertúlia) a apresentação de uma nova e tão bem fundamentada teoria sobre tão badalada questão, como corolário natural do trilho histórico que nos fez percorrer, teoria simples mas quase autoexplicativa....
Teoria simultaneamente cativante, coerente e consistente que tivemos a prerrogativa única de ouvir em primeira-mão, e que desde já cataloguei e coloquei nos meus ficheiros pessoais sobre o tema, como uma das mais credíveis para o meu fraco conhecimento do tema.
Aproveito o repto que logo ali lançou (e que é testemunho da sua benevolência e paciência) de permitir, a nós leigos na matéria, apresentarmos as nossas dúvidas, para que possam ser pretexto para uma maior solidificação da sua hipótese.
É apenas com esse pretexto que me atrevo a enviar-lhe algumas questões ou dúvidas, com certeza menores e sem fundamento, facto de que peço antecipadamente desculpa pela ousadia, e que se tiver a amabilidade de esclarecer com o seu douto conhecimento será para mim um verdadeiro prazer e enriquecimento pessoal.
Questão 1.
Painel da Família Real
i) A base da Questão: D. Jaime (1433-1459) como figura central e o irmão primogénito D. Pedro (1429-1466) como figura lateral.
CONTRA: Julgo que a sua diferença de idades não é de apenas um ano mas sim de 4 anos e o mais velho D. Pedro parece-me figurar no quadro como parecendo bastante mais novo que o irmão. (D. João o segundo irmão é que se aproxima mais da idade de D. Jaime mas não encaixará na teoria...).
PRÓ: No esquiço inicial o autor do quadro colocou a mão do homem do chapeirão abraçando o jovem à sua frente o que indica uma grande familiaridade que esta relação pai filho poderá justificar. Esta argumentação continuaria válida para uma relação tio/sobrinho - D. Duarte?!?
(Opção de colocação de mão que na versão final caiu, quiçá para não deixar tão explícita tanta familiaridade e tão objectiva relação).
ii) Quem é o homem do chapeirão? Aqui estará a segunda questão chave da teoria do perdão.
É a teoria mais inovadora ao identificar ali o Infante D. Pedro. Se ultrapassada esta questão o resto será mais pacifico, já que a da Duqyuesa de Coimbra, desde Belard da Fonseca já muitos autores a defendem e D. Afonso e D. Isabel serão dos amis consensuais...
A dúviada para mim éq ue o homem do chapeirão estrá mais proximo da descrição e imagens que temos de D. Duarte.
Esta questão das parecenças é sempre muito subjectiva, mas tenho para mim que é difícil rebater os escritos da época que são mais coincidentes com a descrição do homem do chapeirão como D. Duarte e do cavaleiro de joelhos como D. Henrique. No entanto aqui estamos no campo da especulação e da mera opinião pessoal.
CONTRA: Mas a ser D. Duarte perder-se-ia a lógica do perdão.
E naquele painel figuraria sim a Família Real - tout court:
A família real de gerações reinantes:
Questão 2.
Ordem da Jarreteira
Dois dos personagens do Painel dos Cavaleiros terão cintos em posições atípicas, pendente e a tiracolo… ordem da Jarreteira?
(Pareceu-me o Senhor Professor ter referido na sua comunicação que este tipo de símbolo estaria associado aquela ordem?)
Dois membros da Jarreteira?
2 de 3 = Conde de Avranches? D. Henrique? D. Pedro?
Ficam outros signos que alguns autores defendem como os da Ordem de Cristo, da Ordem de Santiago e da Ordem de Avis?
Nota adicional - 2 retratos
A simetria?
A estranha simetria que referi entre o painel e o Codice:
Além da face e chapéu perfeitamnete simétricos, é muito estranho que a simetria chegue à gola, aos botões e ao próprio fecho da capa!??!
Senhor Professor,
Agradeço a sua atenção.
A quente ficam aqui umas questões, mas quero também afirmar-lhe que a teoria do perdão e da Concórdia fazem cada vez mais sentido na minha cabeça e são um pretexto para reler os dois volumes de "Batalha de Alfarrobeira" de Humberto Baquero Moreno e "A maldição da Memória do Infante D. Pedro" de Pinheiro Marques.
Que bibliografia o senhor Professor aconselha mais sobre este tema?
Já agora onde será possível ter acesso ao seu texto (que referiu durante a tertúlia) sobre o encontro entre o Duque de Bragança e o Infante D. Pedro em Góis?
Espero não o ter maçado em demasia, aproveito para reiterar a minha admiração pelo elevado nível da comunicação e ficar ansiosamente a aguardar que publicação da sua obra sobre o tema, que ficou prometida.
Até lá aproveito para apresentar a minha total disponibilidade e elevada consideração,
José Luís Nogueira
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De: João de Castro Nunes [mailto:joaocastronunes@gmail.com]
Enviada: quarta-feira, 21 de Abril de 2010 03:54
Para: Jose Luis Nogueira
Assunto: Tertúlia do Pombalinho
Meu Excelentíssimo e Distinto Amigo, Senhor Eng.º. José Luís Nogueira:
Não pode calcular quanto me sensibilizaram as suas belas e amabilíssimas palavras sobre a sucinta explanação do meu ponto de vista acerca da mensagem dos painéis ditos de S. Vicente, que de há muito me fascinam o espírito e me prendem a atenção, tendo por diversas vezes tido a oportunidade de o expor nos meios universitários da capital, obtendo quase sempre concordância. Foi agora a vez de, em Góis, perante uma simpática e ilustrada roda de Amigos, concretizar a sua definitiva apresentação em termos, por assim dizer, oficiais ou oficiosos, na plena convicção de possuir viabilidade a minha interpretação, que mais não é do que a desmistificação das famosas tábuas afonsinas, sobre as quais, em laborioso estudo, me venho debruçando há mais de vinte anos. As vezes que fui a Granollers, nos arredores de Barcelona, só para sentir a presença, a cinco séculos de distância, do desgraçado condestável D. Pedro de Portugal: "Peine pour joie"!
Muito apreciei as suas judiciosas e doutas intervenções ao logo da tertúlia que, desde então, me obrigaram a rever o meu trabalho, na certeza porém de que todas as objecções que V. Exª teve a gentiliza de me colocar eu próprio a mim mesmo as formulei milhentas vezes, até chegar à conclusão que ora defendo e que pretendo immpor como um dado fortemente alicerçado e adquirido, no seu todo.
Sucintamente vou tentar responder às pertinentes questões que, de novo e por escrito, agora me coloca, a saber:
1º - Foi por lapso que, na versão final dada ao meu texto, atribuí aos dois irmãos, Pedro e Jaime, a diferença etária de cerca de ano e meio, quando na verdade, conforme consta na lista dos filhos do Infante que apresenteo com as respectivas datas de nascimento, há entre eles uma diferença de aproximadamente quatro anos, o que não invalida que fisionomicante o condestável pareça ser o mais velho, como efectivamente era. Observando bem, constata-se que D. Pedro tem um ar mais grave, mais senhor de si, mais determinado, face ao rosto um tanto ou quanto feminino do seu irmão cardeal, a ponto de já ter sido considerado... Santa Catarina. Parecidos, quase iguais, mas etariamente separados por dois pares de anos. Como pode verificar na cópia que há pouco lhe remeti, já procedi à respectiva rectificação.
2º - Nada há, do ponto de vista iconográfico ou meramente histórico-literário, que faça ver na personagem do chapeirão o Rei D. Duarte, muito dado às letras mas nada às modas cortesãs em voga nos meios europeus, que nunca visitou, vivendo sempre as quatro acanhadas paredes do reino, pois nem sequer tomou parte na gesta de Ceuta com seus irmãos. Só o irmão D. Pedro, o markgraf de Treviso, teria cabeça para chapéu de tanta ostentação, à borgonhesa, chapéu que seguramente se fartara de usar nas faustosas cortes por onde deambulou. De resto, para a minha interpretação é uma figura fulcral, pois tudo gira à volta da sua pessoa. Trata-se, ao fim e ao cabo, da sua reabilitação!
3º - A única personagem que ostenta, sem sombra de dúvida, o carismático emblema da Ordem da Jarreteira é o Conde de Avranches; tudo o mais... são suposições sem qualquer evidência, devendo ter-se em conta que eu só recorro ao cinturão para identificar a personagem, pois a questão das Ordens nada tem a ver com a razão dos painéis, que é o único objectivo da minha investigação. Não compliquemos!
4º - Que entre a criatura dos painéis e a da iluminura da Bibllioteca Nacional de Paris existe relação é por demais evidente, só que é assunto em aberto e, para já, carente de interesse para o tema em debate. É prematuro fazer finca-pé nesse controverso documento.
E aqui tem, Senhor Eng.º., o que no fundamental lhe posso dizer sobre as suas e minhas dúvidas acerca dos painéis... da nossa comum paixão!
Voltaremos ao assunto. Para já e para lhe responder na volta do correio, agradeço-lhe do coração a sua honrosa presença na tertúlia e as suas estimulantes observações, sobre as quais continuarei a debruçar-me.
Com as melhores saudações.
João de Castro Nunes
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Tábuas de concórdia?
Esta tese do Prof. Doutor João de Castro Nunes (JCN) sobre os Painéis, inédita no seu todo, embora não nos trazendo novos testemunhos factuais, faculta-nos uma conjectura apoiada em grande saber histórico e poder de análise, que uma longa e brilhante vida profissional proporciona. O que só por si é um valia para os seus leitores.
Embora ela se situe nos antípodas da minha própria explicação (no tempo, na contemporaneidade dos painéis, no objectivo, no destino, nas personagens envolvidas), não deixo de manifestar algumas dúvidas (algumas já expostas na sessão pública), na tentativa de melhor entender o raciocínio de JCN.
*
A tese exposta é caracterizada essencialmente pelo seguinte:
-aceitação da tradicional apresentação dos seis painéis, contemporâneos entre si e com objectivo comum, constituindo consequentemente uma composição homogénea;
-sua execução nos finais dos anos 50 - princípios dos 60, a rogo de D. Afonso V,
-terem como objectivo a conciliação da sociedade em torno do seu rei, depois das detracções e agravos que conduziram a Alfarrobeira,
-tratar-se de um manifesto de inspiração política, de índole não religiosa.
Assim sendo, questiono o que me parece ser questionável:
1. Os painéis surgem-me, na sua globalidade, como que um hino de homenagem ao infante D. Pedro.
No quadro principal, os reis subjugam-se à sua família, ajoelhados ao jovem primo D. Jaime, sob a protecção dos tios e do primo mais velho, este condestável e segunda figura do reino.
D. Pedro, envolvido pelo seu núcleo familiar, domina a cena, com um chapéu à borgonhês, e compreende-se a razão de tal adorno, embora já tivessem decorridos mais de três decénios após a sua passagem pelo distante condado e com ele não mantivesse relações especiais: sendo o cunhado senhor e dominador da Europa, nada melhor para simbolizar o seu poder em Portugal do que apresentá-lo com um chapéu similar.
No outro painel central, D. Jaime continua a ordenar, agora com vara de comando, sob o olhar atento dos maiorais do reino, todos companhons de route do tio e de seus filhos, nomeadamente, Pedro Vaz de Almada, Diogo de Azambuja e outros mais que são sugeridos.
Nos painéis laterais, frades cistercienses, pescadores de Buarcos e cavaleiros da saga da Hungria, todos eles são da sua entourage. Até o bispo do seu ducado, Dom João Galvão, secundarizando o influente cardeal de Alpedrinha, arcebispo de Lisboa, da fracção vencedora.
Não se aponta qualquer vassalo da hoste real, apenas os oficiais e as testemunhas. Onde estão "de novo reunidos, vencidos e vencedores"?
Mais do que a reconciliação, parece trespassar nesta descrição, o arrependimento, o mea culpa do rei, solicitando o perdão do tio pelo que fez em Alfarrobeira. Não o entendo a perdoar, mas a redimir-se, não o percebo a reconciliar, mas a desculpar-se.
A reforçar esse meu sentimento, a exclusão dos Braganças e dos tios Henrique e Isabel até parece ser feita para não ofuscar a magnanimidade de D. Pedro.
A admiração que JCN lhe tributa não o terá conduzido, imperceptivelmente, para um outro rumo, o de enaltecimento do infante intelectual, o duque e senhor de Coimbra?
2. Relembremos esses ausentes, que julgo tão necessários serem para o objectivo pretendido.
Os Braganças. Se se queria uma reconciliação nacional e uma motivação para as campanhas militares em curso, esses poderosos não deveriam estar presentes no retrato da sociedade? Após a morte de D. Afonso, em 1461, suceder-lhe-ia seu filho Fernando, 2º duque, auxiliar da coroa e nomeado pelo rei governador de Ceuta. As grandes discórdias só viriam mais tarde, agora era tempo de união, de passar uma esponja sobre o passado, como é referido.
Infante D. Henrique. Nesta época (quer nas vésperas da sua morte em 1460, quer nos anos seguintes), encontrava-se no apogeu da sua força e influência, era considerado nas cortes e meios científicos europeus, financeiramente poderoso, administrador da Ordem do Crato, por sua vez financiadora das campanhas de expansão marítima… como deixá-lo de fora nesta panorâmica dos maiorais do reino? Atreveria a dizer que seria um escândalo, origem de discórdias e não de concórdia…
D. Isabel, duquesa de Borgonha. Ainda que fisicamente longe do reino, aliás tal como seu filho D. Jaime, o seu papel era igualmente primordial nesta reconciliação, pela sua envolvência emotiva e influente junto da família, nomeadamente dos sobrinhos acolhidos e protegidos no seu regaço, após Alfarrobeira.
Só entendo estas ausências, no caso de os painéis se destinarem aos aposentos reais ou longe de olhares inconvenientes, como é sugerido, talvez com um fim específico, que naturalmente se pode conjecturar.
3. Porquê colocar como figura central o jovem D. Jaime, filho mais novo de D. Pedro? Adolescente de 14 anos em Alfarrobeira, terá fugido para Flandres, para junto da tia Isabel. Esta, com a sua grande influência na Europa, consegue junto do Papa nomeá-lo, por condescendência, administrador da arquidiocese de Lisboa, mesmo sem ter idade para tal e exercendo o cargo à distância, de Roma; e, depois, cardeal-diácono. Por lá morreria três anos depois, com 25 anos apenas, ainda sem idade para ter barrete cardinalício, e sem nunca mais (falta de coragem?) ter vindo a Portugal.
Num quadro que se pretende laico, quem é este jovem para o poderoso rei de Portugal se ajoelhar a seus pés? Porque não outro para simbolizar a união entre as fracções desavindas, como, por exemplo, o condestável D. Pedro, segunda figura na hierarquia do reino e igualmente do grupo dos vencidos?
Seria para conseguir do Papa apoios para as suas campanhas africanas? Neste caso, estaríamos na presença de um quadro não de reconciliação, mas de obtenção (porque não?) das boas graças papais…
4. As imagens do condestável D. Pedro (aparentemente uma criança), de D. Afonso V e de D. Jaime, de idades por esta ordem decrescentes, parecem não darem suporte à tese considerada por JCN. Mas tendo a pintura sido restaurada mais de quatro séculos depois, a partir de um estado lastimoso, tal facto será porventura despiciente.
*
Deixo de fora alguns pormenores, para os quais não descortino a sua razão, como, por exemplo, um caixote vazio simbolizando o fim da concessão de eventuais esmolas; ou os pescadores originários de Buarcos; ou um pedaço de corpo humano para testemunhar um acto de juramento. Certamente haverá justificações plausíveis, mas serão, na tese geral, aspectos pouco relevantes.
*
Estes comentários serão de reduzido valor, já que partem de um curioso, perante o professor e investigador prestigiado que é JCN. Se alguma virtude porventura terão, é poderem proporcionar-lhe uma explicação mais pormenorizada da sua conjectura, nomeadamente repetindo alguns argumentos que prestou durante a apresentação pública em Góis.
João Nogueira Ramos
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Meu Excelentíssimo Amigo, Senhor Engenheiro Dr. João Nogueira Ramos:
Ninguém melhor do que V. Exª compreendeu também melhor as motivações subjacentes à revelação ou apresentação da minha versão sobre o significado dos painéis ante um selecto auditório, descomprometido e culto, tendo Góis por palco: não o aplauso fácil e cortês, mas a sujeição à crítica dos meus pontos de vista, porventura ousados, mas resultantes de aturadas reflexões. Foi minha intenção primordial, antes de publicá-la, pôr à prova a minha teoria, já conhecida à puridade em certos meios universitários, mas ainda não publicamente assumida na sua redacção definitiva, embora pontualmente rectificável ou aprofundável em questões de pormenor ou identificação de personagens. E assim entendeu V. Exª que, ciente de razões outras que as minhas e e dominado por dúvidas legítimas, saiu à estacada com elegante e acutilante perspicácia a pôr à minha consideração reparos e reservas que, na medida do possível, vou tentar desvanecer, seguindo a ordem que V. Exª lhes deu, não sem antes, quanto às palavras prévias ou prelúdio em que V. Exª se digna "caracterizar" a minha tese, rejeitar a expressão "a rogo de D. Afonso V" para optar por "a mando de D. Afonso V", mais conforme à realidade política do tempo e das circunstâncias.
1º - Longe de a minha teoria constituir um "hino de homenagem ao infante D. Pedro", ela é prioritariamente o reconhecimento dos bons propósitos do monarca no sentido de pacificar e congregar à sua volta uma sociedade profundamente desavinda por virtude dos acontecimentos que levaram ao drama de Alfarrobeira e suas inevitáveis sequelas, propósitos esses que passariam necessariamente pela reabilitação do Infante, seu tio e sogro, e pelo perdão a todos quantos, salvo raras e justificadas excepções, com ele se conluiaram contra a sua pessoa. Ponto assente.
E começou pela sua própria casa, fazendo-se representar entre o "seu núcleo familiar", constituído pela sua mulher, a Rainha D. Isabel e respectivos progenitores, a par dos seus dois primos directos mais representativos: o condestável e o cardeal-diácono, aureolado em vida pela sua beatitude. Nada mais racional!
Pergunta-me V. Exª por que motivo é D. Jaime e não o seu irmão mais velho, D. Pedro, a segunda figura do reino na hierarquia do poder, a ocupar a posição primacial da cena, ao centro do painel. Para o Rei flectir o joelho ante ele, que outro poderia ser que a "inocente vítima do desvairado acto do seu pai ("eu amo-o e fiz como ele me ordenou") e agora, sob as bênçãos do céu, o beatífico cardealzinho-diácono, já tão distante das impurezas da terra ("Prefiro a morte ao pecado"). Fá-lo-ia perante o condestável, com o qual nunca em verdade engraçou?! Não foi acaso ele, involuntariamente um dos pomos da discórdia? A que pretexto é que seria à sua volta que a família real se sentiria de novo concordantemente unida? Deixo a V. Exª a resposta.
Quanto a D. Jaime, não vejo qualquer relutância, da parte do soberano, em reverencialmente flectir o joelho (não ajoelhar) ante o seu primo que, junto da Santa Sé, lhe defendia os ideais de cruzada, não obstante um dia, nos campos de Alfarrobeira, ter o pescoço aparelhado para a degola. Não vejo, na atitude do Rei, qualquer propósito de pretender desculpar-se ou redimir-se, o que não faria qualquer sentido, mas tão-só de conciliar-se, tomando-o como o anjo da família.
D. Afonso V, Senhor Engenheiro, não terá procedido sob pressão ninguém, mas por sua livre determinação sob os impulsos do seu carácter das razões que apontei na minha sucinta explanação. Foi um acto de graça e de clemência, que apagou só por si a distinção entre "vencidos e vencedores", pois não é destes que se trata, mas daqueles, restituídos ao convívio da nação sob o ceptro de um Rei magnânimo e desejoso de concórdia entre os seus leais vassalos. Como haviam os Braganças, Senhor Engenheiro, de estar presentes nos painéis, se foram os únicos grandes do reino que primaram pela ausência na recepção ao corpo do Infante para a capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha, sob os olhos do monarca contristado. Ao fim e ao cabo, devia-lhe a sua primorosa educação!. Os Braganças não foram excluídos; eles é que se auto-excluíram, passando o Duque D. Afonso a residir longe da corte, na fronteiriça vila de Chaves, onde acabou por falecer em 1461, com o país já pacificado ou em vias disso.
É assim a vida!
2 - Afora os Braganças, também V. Exª acha estranho ou não justificável a ausência nos painéis do Infante D. Henrique, o governador da Ordem de Cristo, figura relevante e dominante da sociedade do seu tempo. À luz da minha interpretação, não haveria ali cabimento algum para a sua presença; nem para ele nem para a sua poderosa irmã, a Duquesa da Borgonha: estariam fora de contexto.
E note, Senhor Engenheiro, que eu não disse que os painéis teriam estado expostos discretamente nos "aposentos reais", "longe de olhares inconvenientes". Antes pelo contrário: ao afirmar que teriam sido expostos em sítios largamente frequentados, como os paços reais, à vista de toda a gente, e não no recesso ou penumbra das igrejas, eu quis precisamente frisar que o Rei pretendeu fazer alarde dos seus nobilíssimos propósitos. Não haverá, da parte de V. Exª , uma simples extrapolação dos meus dizeres, obsessionado, ao que parece, pela ofensiva ausência de tão ilustres personagens? Estou em crer.
3 - Seria D. Jaime pessoa assim tão desprovida de relevo que não justifique o lugar e a função que ocupa repetidamente nos dois painéis centrais?! Olhe que não. Com tão pouca idade, quase uma criança, foi um dos cardeais mais mimados da Santa Sé, ocupando na igreja de S. Miniato, em Florença, um dos mais ricos e vistosos túmulos do Renascimento italiano. Em ar de graça, em carta a pedir-me poema a ele dedicado para ensaio na forja, escreveu um dia o Dr. Joaquim de Montezuma de Carvalho: "Que grande gaiola para pássaro tão pequeno!". Não queira, a sério, formular idêntico juízo!
4 - Acaso, Senhor Engenheiro, não estarão as "imagens" estampadas nos painéis em consonância com a realidade fisionómica das correspondentes personagens? Em contraste com o Africano, tisnado pelo sol ardente das plagas africanas, rosto másculo e adusto, os seus primos sempre tiveram o ar enfermiço das crianças destinadas a uma morte prematura: de D. Jaime, até se disse que foi aconselhado a "tomar mulher" para lhe vigorar o corpo débil e achacoso, enquanto o irmão, o condestável, viria a falecer roído pela tísica e desamparado pelos seus partidários, desiludidos dos seus dotes bélicos, incapaz de ganhar uma batalha e alimentando-se, nos derradeiros tempos da sua vida, de pétalas de violeta. Hei-de escrever um romance. Até nisso, como nos painéis, foram tão parecidos!
Não me alongo mais. Antes porém de terminar, devo precisar melhor as datas entre as quais eu situaria a realização dos painéis, pois foi assunto que não abordei explicitamente no meu texto, muito embora se deduza pela concatenação dos factos, intuitivamente, ou seja: o ano do falecimento da Rainha D. Isabel, em 1455, e o do retorno ao reino do condestável D. Pedro a tempo de se integrar nos contingentes militares incumbidos da conquista das praças africanas de Alcácer-Ceguer e Tânger, para logo voltar a perder as boas graças do monarca por havê-lo abandonado em campanha afim de cingir a coroa de rei dos catalães, comportamento que D. Afonso V lhe exprobrou e, de regresso ao reino, o espoliou de todos os seus títulos e bens, vingativamente. Que temperamentos!
Vai porventura V. Exª continua com as suas dúvidas e eu com as minhas certezas. Que mal há nisso?! Ficarão sempre de pé a abertura de espírito e a boa-fé com terçámos armas à laia, limpa e límpida, dos cavaleiros da Garroteia, que também os há, foras dos campos de batalha, nas lides intelectuais em que nos gostamos de envolver. Ficaremos por aqui?
Cordialíssimas saudações.
João de Castro Nunes
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Meu caro amigo, Doutor João de Castro Nunes,
Muito lhe agradeço os seus esclarecimentos, certamente contribuindo também para que os nossos leitores compreendam melhor os seus pontos de vista. E ficaremos por aqui, certamente - quem sou eu, para terçar armas consigo neste momento? Não quero colocar-me no lugar de D. Pedro que, inadvertidamente, entrou em liça, quando não devia ter entrado, arrastando a família, os amigos, o reino… Esperá-lo-ei em momento mais propício, fui engenheiro e gestor… A morrer, que seja com honra!
O senhor é, nesta matéria, mais feliz do que eu: fica com as certezas, enquanto eu continuarei com as dúvidas, aquelas que se arrastam há mais de um século. Mas há uma certeza que não me tira: a de que a geração dos meus bisnetos continuará com dúvidas, sem certezas…
Contrariamente ao campo das ciências puras (um dos célebres sete problemas de matemática não resolvidos, a "Conjuntura de Poincaré", velha de 106 anos, acaba finalmente por ter uma solução!), a leitura da História continuará a deleitar-nos com a magia da novidade, das especulações, da poesia que nos faz sonhar.
Acaba de ser descoberto mais um "australopithecus" na África do Sul, ao que dizem os especialistas, uma sexta espécie, donde terá partido a raça humana; na semana anterior, foi a vez de um fóssil na Sibéria (pequena coisa, a ponta de um osso de um dedo mindinho, mas o suficiente…) nos ter conduzido a um nova ligação entre os "neandertais" e o "homo sapiens". É fascinante esta evolução das teorias, quando não se consegue, nem se conseguirá nunca, chegar às origens!
Os meus respeitosos cumprimentos e cordiais saudações.
João Nogueira Ramos
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Onde nos levou, Senhor Engenheiro Dr. João Nogueira Ramos, a nossa troca de galhardetes a pretexto das múltiplas interpretações dos painéis ditos de S. Vicente: quase até às origens do ser humano!
Permita-me que, a propósito do controverso cardealzinho de Santo Eustáquio, lhe dedique o poema que sobre ele escrevi para um "ensaio" do Dr. Montezuma de Carvalho, o qual, devido ao seu falecimento, não chegou a ver a luz do dia:
D. Jaime de Portugal
Repousa em mausoléu renascentista,
junto a Florença, o jovem Cardeal
que fez da "pudicitia" a principal
valência que na vida teve em vista.
Sobrinho da Duquesa da Borgonha,
nela encontrou refúgio após a luta
que por motivos fúteis de conduta
foi para o reino causa de vergonha.
Preocupado com a castidade
que algumas vezes fora aconselhado
por acto médico a sacrificar,
D. Jaime, que morreu em santidade,
quis-se ao arminho em tudo comparar:
"Antes morrer que ver-me conspurcado"!
João de Castro Nunes
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Paineis ditos de São Vicente, acerca da Tese apresentada em Góis pelo Professor João de Castro Nunes.
Primeiras impressões.
Poderá parecer a alguns despropositado que, sendo filho do autor, parecendo até que venho intervir em solidariedade tribal, como soe agora dizer-se, me apresente neste lugar a opinar.
E devo desde já esclarecer que, acompanhando detalhadamente o itinerário das abordagens que continuamente se sobrepõem sobre o objecto, o objecto da observação, claro, fui sempre um céptico observador, numa posição de expectativa de resto iconoclasta. A minha opinião é a de que, em termos de arte, a de produção retórica que se acumulou sobre a pintura excede já largamente, em criatividade e génio, a pintura em si.
Foi portanto também com o mesmo cepticismo que parti para a leitura analítica desta abordagem e com o mesmo cepticismo que prossigo. A deglutir ainda um texto breve, com uma estrutura sequencial que, numa primeira abordagem, parece mimética relativamente a qualquer outra, pese todavia a prévia enunciação do autor, pretendendo regressar à pedra.
Vou progredir então por aqui. O regresso à pedra. E, após uma longa e reflexiva estância neste tópico, repescado de um diligente exercício da epigrafia por parte do autor, eu diria que a enunciação se me apresenta válida como metáfora, porque a pedra é exactamente o lugar aonde jamais se regressa. E não se regressa, porque a memória cultural interpõe barreiras intransponíveis.
Portanto, quando um sujeito de observação enuncia a sua intenção assim, tratando-se de um investigador com todo o substrato cultural que subjaz a esta intervenção, tenho eu que superar o sentido literal. E compreender o seu significado mais subtil.
Portanto, regressar à pedra não pode significar o esquecimento nihlista de toda a retórica que já se acumulou sobre o objecto. Diria que se trata de um propósito de intenção, talvez logrado ou não, de tentar delinear um itinerário ao lado de um trilho já erodido.
E tenho que reconhecer que a primeira consequência do propósito, que resulta na banalização do objecto, descarregando-o da carga mística e mítica que o ofuscava, é, do meu ponto de vista, uma válida aquisição.
Também é óbvio que o discurso em canto chão do autor, propondo o que vê numa abordagem breve, como um murmúrio ou balbucio, um primeiro passo num trilho indefinido, esperando explicitamente que outros prossigam, diz bem da prudência de dezenas de anos de árdua praxis, consolidada no doutrinal saber de que nada se conclui com uma singular intervenção.
E eu continuo a olhar para o objecto, que já não consegue deixar de ser o espelho da Nação, e, numa prévia avaliação desta proposta, só posso deduzir que, com alguns desenvolvimentos porque muita matéria fica ainda de fora, me agrada a conclusão: deixou de ser. É um episódio doméstico.
Porque espero que o autor detalhe neste âmbito e alcance o tema do perdão e da concórdia, seja, o perdão e a concórdia no seio da casa real ou dinástica, não corresponde, no contexto, a uma reconciliação ou concórdia nacional, senão doméstica, entre a casa real, que integra os seus pares e alguns integrantes das casas ou tribos dos seus pares. E isto não é a Nação, com maiúscula.
E colocaria a ênfase no facto de que, assim sendo, nem todos teriam que ser perdoados, porque é no arbítrio do poder e legitimidade para perdoar que se inclui ou se exclui. Seja, não estão ali os excluídos do perdão, ou porque não havia que perdoá-los, ou porque o perdão de uns exigia a relativa passagem de outros à periferia. O aprofundamento do que, na sequência histórica, se passará nas décadas posteriores e contíguas, iluminará desenvolvimentos futuros.
E este é apenas o registo, ainda em cima da surpresa, que posso e entendo fazer. Sabendo que a metodologia de resolver o problema todo de uma vez esbarra sempre com problemas intercalares por resolver. Não vale a pena olhar para ali e querer, numa única empresa, identificar toda a gente, mais todos os caracteres textuais que estão escritos e em alusão, todas as insígnias e ainda adivinhar a proveniência e o local a que se destinava a obra, o que subjaz ao visível e até o autor. Porque esses itinerários rasantes já sabemos aonde levam.
E como exemplo do que pode verter na análise de quem quer resolver os problemas todos de uma vez, vou apenas citar um exemplo.
Os recursos de manipulação laboratorial que já foram e podem ser mobilizados para enriquecer a observação analítica da pintura não estão de forma alguma esgotados, balbuciam ainda. Mas, sem que eu compreenda bem como, subitamente aparece um esboço do que presumidamente seria o desenho preparatório do conjunto constituído pelo homem do chapeirão e o menino que o antecede na sequência dos planos.
E fico atónito. Porque aquele desenho não cabe na tábua, que cortou o ombro do menino. Seja haveria uma deslocação longitudinal quase caótica, para esquerda do observador, na composição original. Conheço com alguma profundidade o itinerário técnico documental até hoje realizado sobre os painéis. Mas gostava de ver esse documento reflectográfico. Aquele desenho não é um documento reflectográfico e, com toda a franqueza, é um mistério, não se compreende de onde irrompe.
Mais tarde ou mais cedo será necessário passar para o lado de lá do ruído.
E, como a conversa é como as cerejas, vamos puxando por elas.
E, se, na minha abordagem de historiador, Rui de Pina não pode ser considerado uma fonte histórica, senão uma narrativa histórica com o estatuto de qualquer narrativa, penso que há que reler Rui de Pina para desmistificar muita matéria. E iniciar a leitura, não pelas narrativas do confronto entre o Infante Regente e o Rei sobrinho, mas pela crónica de Dom Duarte, pela carta que, antes de comparecer em Belas após o levantamento do irmão em Lisboa, Dom Pedro lhe escreve e se apresenta como a orientação fundadora do novo reinado. Tendo presente que é diligência de Dom Pedro, introduzindo novos hábitos nos rituais dinásticos, a imediata entronização do Príncipe, que até então não os havia, nem a progenitura era garantia de sucessão.
Dom Pedro trazia de facto de fora novos hábitos e cautelas cortesãs.
Manuel de Castro Nunes
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Ainda a nova tese dos painéis
A interessante opinião que Manuel Castro Nunes (MCN) tece ao redor da tese do Professor João de Castro Nunes (JCN), sugere-me três pequenas observações, que mais não são, e utilizando a sua imagem, que efeitos do puxar pelas cerejas.
MCN, numa posição de observador com perspectiva iconoclasta, como confessa, está de acordo com o desanuviar da carga mística e mítica que tem pesado sobre os quadros. Mas julgo que também concordará que tal facto não será consequência do trabalho de pedra de JCN, na sua justa intenção de delinear um caminho, como um leitor menos atento poderia concluir. A motivação profana dos quadros foi uma opção (legítima) de JCN, e não induzida pela memória da História, que importa aqui realçar. A ver vamos se outros prosseguem esse caminho.
Por outro lado, parece-me claro que o estar-se em presença de um episódio familiar é uma dedução de MCN e não o evidenciado por JCN. Este, na sua tese, induz indubitavelmente que se trata de uma concórdia a nível nacional, envolvendo vencedores, vencidos e todos os seus vassalos sem distinção de categoria social. E daí a razão dos meus juízos, oportunamente feitos, sobre eventuais omissões.
Por último, quero expressar a minha total consonância à incorrecta metodologia frequentemente utilizada de se tentar resolver a totalidade do problema de uma só vez. Não saber distinguir o essencial do acessório é um pecado em que muitos têm incorrido, dando demasiadas asas à imaginação e ocasionando efeitos contrários aos pretendidos.
E para que não me atentem como mais um espectador de bancada, acomodado no fácil papel de crítico, não deixarei, quando as circunstâncias se proporcionarem, de expor a minha própria "teoria" (que não é de agora). Talvez ela peque pela vivência da minha vida profissional, mais dada a factos do que a conjecturas, mas… irei à liça.
João Nogueira Ramos
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Exmo. Amigo, Senhor Engenheiro Dr. João Nogueira Ramos:
Afinal, Senhor Engenheiro, V. Exª não tem somente "dúvidas", mas também "certezas", como deixa ssupor o afã com que está disposto a terçar armas pela sua "teoria", alicerçada, não em "conjecturas", mas em realidades, ou seja, "factos". Qual o português que não tem a sua?!...
A minha pouco tem de original, a não ser a sua contextualização no seguimento do critério enunciado pelo Prof. V. Magalhães Godinho, segundo o qual obra de tal magnitude tem por força de estar compaginara com qualquer evento de idêntica grandeza ou relevância durante a governação do Africano. Apenas isso. Só que tive a percepção de um facto que escapou, na selecção dos acontecimentos, à argúcia do egrégio historiador: a conciliação dos ânimos após Alfarrobeira. O resto... são minudência... para continuarmos a "partir pedra", indefinidamente. Que a concórdia se limitasse ao seio da família real ou se alargasse a toda aa comunidade da nação, é questão predominantemente literária, ou seja, de adequada expressão vocabular.
Afinemos a prosa. Houve excluídos? Seguramente; uns por agravos indesculpáveis, outros por vontade própria deliberadamente, como foi o caso dos Braganças. Sempre houve...
ovelhas ranhosas!
Também creio, como V. Exª, que nem todos os partidários do carácter apologético ou devocionário dos painéis alinharão comigo.
Ainda bem, para essas emblemáticas tábuas não deixarem de continuar a alimentar a auto-estima nacional paredes-meias com a "Mensagem" e quejandas vaticinações de imperiais destinos... por haver.
Poeticamente, quebro lanças pela mesma dama! Fora isso, bato-me pelo carácter politico-profano dos painéis... da minha devoção.
Convictamente. Cada vez mais seguro da justeza da razão que me assiste, mas aberto à sua arguição. Dialogar com V. Exª é sempre um exercício de elegante controvérsia!
Com muito apreço e cordiais saudações.
João de Castro Nunes
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Excelentíssimos Senhores.
Uma vez mais, solicito a publicação deste breve comentário.
Apenas para desfazer duas ambiguidades.
Breve, para não perturbar com a minha intervenção o natural fluir do debate, que gostaria de observar sereno, apenas para desfazer duas questões que suscitaram leitura ambígua.
Caro Amigo Engenheiro João Nogueira Ramos, permita-me o abuso de o interpelar pessoalmente, é óbvio que a minha perspectiva iconoclasta como observador da pintura, descarregando-o da mística e mítica que aos ombros carrega, é anterior à leitura da proposta do Professor João de Castro Nunes. Nem outra coisa se poderia deduzir do que escrevi. Esta proposta vem de encontro à minha disposição, que nunca foi a de interpretar o móbil da obra, senão a de observar a forma como cada um olha para ela.
E esta questão, uma vez que estamos a tratar de cerejas, que saem aos molhos da cesta, prende-se com a seguinte. Que sintetizo para já assim, para não ficar a cesta sem cerejas.
Eu também estive presente na apresentação e no debate ''in situ''. E parece-me ter ficado claro, mesmo da parte do autor, que, na sua e por coincidência minha perspectiva, a Nação, insisto na maiúscula para me furtar a eufemismos, não se pode reduzir aos vencedores e vencidos em Alfarrubeira, não vá a batalha carregar também com essa carga mística e deixar de ser um episódio, pelo menos relativamente, doméstico.
E, já agora, proponho-lhe uma reflexão, deduzível do apelo que fizera na anterior intervenção. Vamos reler Rui de Pina, para constatar que alguns episódios domésticos latentes advinham já da sucessão de Dom João I, interrogando, na estrutura narrativa, a ''pressa'' no levantamento do Rei Dom Duarte. Talvez houvesse outro candidato à sucessão. E por isso o Duque de Coimbra tenha ficado a reflectir e chegou a Belas na disposição de fundar novos hábitos sucessórios.
E muito lhe agradeço, com toda a sinceridade, o permanecer no debate, sem se subestimar por cavalheirismo, porque basta lê-lo para ter a certeza de que está a intervir bem firmado, na terra. E, se com cautelas, só faz ''jus'' a um espírito e disposição rigorosos. E é o rigor que prezo em Vossa Excelência. Porque a razão, ou a falta dela, só se deduzirão da interacção dialéctica.
As minhas cordiais saudações.
Manuel de Castro Nunes
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Senhor Professor, meu bom Amigo!
Mas onde foi o Senhor beber esse elixir, de que eu tenho certezas?! Tomara-as eu! Tenho uma interpretação pessoal (todo o português a tem - e vou ignorar o motejo que este seu dizer pode comportar para algumas mentes, não a deste seu amigo…), mas longe, muito longe, de ter certezas!
E se lhe deixo supor algum afã, permita-me revogar essa sua ideia, pois mais uma vez se engana. A minha interpretação não é de agora e sempre me contive de a expor; se a refiro nesta ocasião, mais não é por, imprevistamente, me encontrar exposto em arena pública, e não querer ser entendido como mais um comentador "on line", agora tão em voga, frequentemente associados a considerações depreciativas de trabalhos de investigação sérios e profundos, como é este que suportou a sua tese.
E a minha interpretação dos painéis também não está alicerçada em factos, senhor Professor. O que quis dizer foi que a visão que tenho da questão, sobre a qual nos debruçamos, poderá estar viciada por vir de profissional de um área, que, essa sim, se alicerça em factos, em raciocínios dedutivos, longe da emotividade, o que me diferenciará de profissionais de outras áreas. Tão simples como isso.
Aliás, se a minha "teoria" (e fiz questão de aspar o termo) está a provocar algum frenesi, estou tentado a deixá-la em envelope lacrado, a ser aberto pela geração subsequente. É mais cómodo, liberta-me para outras coisas e não ofusco quem quer que seja.
Quanto ao resto da sua missiva, folgo em ver a pormenorização do seu pensamento, nomeadamente ao colocar a tónica no campo literário. Julgo descortinar algum desanuaviamento na sua tese, os quadros surgem agora aos olhos dos observadores com um envolvimento menos preciso e mais poético, que a pintura aliás bem merece.
Como reconhece, há ainda muita pedra para bater. O Senhor restringiu-se a uma determinada galeria, alertado por sinos tangidos pelo Prof. Magalhães Godinho, e que foi escavada com a sua mestria reconhecida. Mas estão de fora ainda muitas mais galerias, nas quais, quando menos se espera, poderá surgir, ao fundo, uma luz cintilante…
Por vezes, a descoberta de um fragmento de osso da ponta do dedo mindinho de uma criança, como sucedeu há semanas na Sibéria, faz balançar as mais alicerçadas teorias…
Desde o início que me apercebi que o Senhor Professor se quer bater pela sua dama, do mesmo modo como D. Pedro o fez, e isso certamente só o prestigia. Eu não cavalgo a seu lado, como outros que seguiram o Infante, por percorrer caminho diferente e por preferir trote mais ajustado. Vou para longe de Alfarrobeira. O que não elimina a possibilidade de nos encontrarmo-nos à beira de um atalho, para uma repousada e serena arguição, antes das lutas que certamente irá travar e contra quem ambiciona derrubá-lo.
Renovo as minhas saudações amigas e respeitosas.
João Nogueira Ramos
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Caro Amigo, Dr. Manuel de Castro Nunes,
Disponha sempre para me interpelar pessoalmente, só me sinto lisonjeado por isso. Pela minha parte, também farei o possível para não deixar vazia a cesta.
Não me passou pela cabeça saber se a sua interpretação era ou não anterior à leitura da nova tese, pois, tal facto, como compreende, não era para mim relevante para o que quis transmitir. Não me atrevia sequer entrar na sua esfera, ainda por cima correndo o risco de relegar para segundo plano a tese de JCN. É esta que está em causa e a que nos trouxe, em boa hora, ao nosso convívio.
Quanto à segunda questão, se dúvidas houvesse (que não as tive), bastaria ler o que, hoje mesmo, JCN explana com muita clareza, em nova e feliz intervenção. O que está em causa é a sociedade, ou o reino, ou um corpo nacional em formação (em maiúsculas ou minúsculas), conforme a imagem que preferir. Nada mais, aliás, do que confirma o seu soneto:
(…)
Basta olhar para o todo e concluir
estar ali a sociedade inteira
de novo unida após Alfarrobeira
A reflexão que novamente me aconselha, já a tinha feito. Mas, confesso, em nada altera o que eu exprimi nas minhas considerações. Não seria sua intenção tê-la endereçado a JCN, sugerindo-lhe mais uma âncora para a sua tese?
Cumprimentos e amigáveis saudações.
João Nogueira Ramos
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Felicitações
Da Profª Doutora Susana de Oliveira Jorge, catedrática da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, recebeu o Prof. Castro Nunes a seguinte mensagem:
"Parabéns pela sua recente reinterpretação dos Painéis".
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Meu Exmo. Amigo, Senhor Engenheiro Dr. João Nogueira Ramos:
Muito me pesa a ideia de involuntariamente ter podido contribuir para V. Exª , em carta lacrada, estar disposto a deixar para a posteridade a revelação da sua "teoria" sobre a mensagem dos Painéis. Já cá não estarei, dada a minha avançada idade, para dela tomar conhecimento e certamente me congratular com a sua viabilidade. Conjecturada ou apoiada em documentação pertinente, será, de qualquer modo, uma achega a juntar a tantas outras sugeridas pelas emblemáticas e problemáticas tábuas afonsinas.
Eu fico pela "minha" com a certeza que ponho em todas as causas pelas quais me bato. Sou uma criatura de convicções inabaláveis, ou seja, de "certezas"… quando realmente as possuo. Não tenho pejo em afirmá-lo. Só não me bato por "teorias" em que não acredito, o que não é o caso.
Aliás, Senhor Engenheiro, parece que se esgotaram, de parte a parte, as razões do debate em que, pela força das circunstâncias, estivemos envolvidos. Só nos resta aguardar, pacientemente, que no fundo de alguma gaveta de recôndito arquivo de província surja, como na Sibéria, um outro fragmento ósseo da ponta do dedo mindinho de uma inocente criança… para derrubar ou pôr em causa a minha proposta de interpretação que, no seu augúrio, vai precisar de amarras ou âncoras para não soçobrar.
E permita que, a concluir, lhe dedique este poema que tem por motivação a minha empatia e espiritual vinculação ao Infante das "sete partidas" que a vida me obrigou também a percorrer:
Irmãos de armas
Por fantasia às vezes me imagino
ser descendente, por qualquer costado,
de algum dos companheiros que, a seu lado,
compartilhar quiseram seu destino.
Daí, talvez, a minha simpatia
pelo trágico fim de Alfarrobeira,
após me ter achado à sua beira
lutando em sonhos pelo chão da Hungria.
Já se passaram trinta gerações,
já decorreram seis centenas de anos,
já desbotou o esmalte dos brasões!
Mas guardo intacta em mim, Senhor Infante!
vossa memória, alheio a desenganos
de ser um vosso cavaleiro andante!
João de Castro Nunes
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Sr. Doutor João de Castro Nunes, meu Amigo de longa data,
Duas breves palavras apenas para lhe manifestar o meu agradecimento pelo soneto que teve a amabilidade de me dedicar.
Apesar de não comparticipar consigo a sua simpatia pelo trágico fim de Alfarrobeira, como faz questão em o patentear, é sempre uma mercê que muito me distingue.
Muito obrigado e os meus melhores cumprimentos.
João Nogueira Ramos
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De uma carta enviada ao Prof. Castro Nunes pelo Sacerdote Dr. Amílcar dos Santos Neves, extraímos:
"Quero também deixar uma palavra acerca do seu belo trabalho sobre as Tábuas Afonsinas.
Confesso-me surpreendido pela nova leitura que lhe faz. É certo que nunca me tinha chegado senão aquela "versão escolar" transmitida habitualmente. Nunca se me tinha posto o problema da contextualização da obra e quando li a sua magnífica abordagem ao assunto, mais se arreigou em mim o sentimento de dúvida que sempre senti na contemplação dos painéis.
Agradeço-lhe a oferta, porque foi para mim uma revelação que me abriu novas perspectivas na interpretação de tão conhecida como ainda pouco (?) estudada obra."
Ega, 10 de Maio de 2010.
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