Movimento Cidadãos por Góis


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João de Castro Nunes

Página das letras > Os nossos poetas






A magia do soneto!

Sonetos

Sonetos

D. Gonçalo da Silveira

Beatriz de Noronha, descendente
do sexto marechal de Portugal,
foi sepultada em Góis conjuntamente
com seu marido, guarda-mor real.

Foi um casal perfeito, cujos filhos,
que em número de dez ambos tiveram,
não se afastaram nunca dos seus trilhos
e por diversos modos se impuseram.

O mais novo, chamado D. Gonçalo,
custou a vida à mãe quando nasceu,
abrindo-lhe o caminho para o céu!

Morrendo ao dar à luz um filho santo,
a donatária aguarda que, entretanto,
a Igreja se disponha a homologá-lo!


Regionalismo

É um produto, o Regionalismo,
do espírito beirão dos habitantes
das terras de Arganil e circundantes,
agora em fase de revivalismo.

Não é fácil dizer em que consiste
por muito que se saiba português:
é um modo de ser, de estar…talvez,
que só por estas bandas é que existe.

É um género local de sentimento
peculiar das condições de vida
impostas por um certo isolamento.

Passa por dar valor à região,
prestando-lhe a atenção que lhe é devida
face ao alheamento da nação!



Cimeira euro-africana

Sob o azul do céu de Portugal
dois continentes vão-se dar as mãos
independentemente por sinal
de serem muçulmanos ou cristãos.

Na Lisboa das naus de antigamente
chefes de estado de África e Europa
à mesa vão sentar-se, frente a frente,
comendo por igual a mesma sopa.

Nunca se viu na história coisa assim,
povos tão diferentes em cultura
a congregar-se para o mesmo fim:

reconhecer a toda a criatura
o supremo direito à liberdade
como um valor real da humanidade!



Museu de Góis


Se bem que Góis se assuma só por si
como um burgo-museu por natureza,
só teria a ganhar, tenho a certeza,
com o Museu que em tempos concebi.

Albergaria, desde a pré-história,
diversos testemunhos do passado
bem como algum artístico legado
para perpetuar sua memória.

Museu de Góis teria por letreiro
ou preferentemente, em meu juízo,
Museu do Ceira, como eu quis primeiro.

Além de ser uma atracção futura
em termos de turismo, bem preciso,
daria à vila um timbre de cultura!


D. Luís da Silveira


Grande embaixada chega à capital
de Carlos V, em terras de Castela:
garbosamente vai à testa dela
o guarda-mor do Rei de Portugal.

Veste o senhor de Góis à portuguesa
a fim de impressionar os castelhanos,
austeros, graves, frente aos lusitanos
que gostam de ostentar sua grandeza.

Leva o encargo de em Valhadoli
apalavrar a boda das irmãs
de ambos os soberanos entre si.

Saiu-se bem: agradecendo ao céu,
ei-lo com seus brasões e lorigãs
ajoelhado sobre o mausoléu!



Pedras do Lumiar



Pedras do Lumiar, altos Penedos
quartzíticos, silúricos, de Góis,
quisera desvendar vossos segredos
para os contar a quem vier depois!

Com mais de quatrocentos milhões de anos
contendes os vestígios de animais
que se moviam pelos oceanos
nessas remotas eras abissais.

Devido porventura à imponência
do vosso aspecto fostes entretanto
considerados como lugar santo.

Populações de ignota procedência
que nas vossas vertentes se instalaram
sinais de si no xisto nos legaram!



Titularidade


Com todo o peso que lhe dá a História
e o encanto que lhe vem da natureza,
a povoação de Góis é de certeza
no centro do país a mais notória.

Em pleno panorama sedativo
aos pés de aristocrático castelo
não há na região burgo mais belo
com seu traçado ainda primitivo.

Por suas ruas, templos, casario
mantendo todo o ar da Renascença,
durante a qual foi nobre senhorio,

acima da esperança, tenho a crença
que há-de alcançar a titularidade
de Património ou Bem da Humanidade!



Mais nobre do que pobre


A ideia que de Góis tenho na mente,
longe de ser a de uma zona pobre,
de certos bens essenciais carente,
é mais a de uma terra ilustre e nobre.

Pode orgulhar-se, como se tem dito,
do seu passado histórico servido
por donatários de alto gabarito
e de prestígio nunca desmentido.

Além de possuir um património
sem paralelo em múltiplos aspectos
por obra dos artistas mais selectos,

é Góis, até no seu sector campónio,
o burgo, a serra, a região talvez
onde melhor se fala o português!



Rei mago sem coroa


Nas tábuas quinhentistas da matriz
de Góis, meio de pé meio dobrado,
é ele, o donatário D. Luís,
que de rei mago está representado.

Vestido ricamente de brocado,
não é motivo para admiração
vê-lo daquele modo figurado
dado o seu gosto pela ostentação.

Guarda-mor do monarca e seu valido,
quando de embaixador foi recebido
por Carlos Quinto em terras de Castela,

causou sensacional deslumbramento
a sua escolta cheia de espavento
desde os arreios de ouro às vestes dela!



Guerra e amor


Em vão não foi que ingleses e franceses
durante as guerras de Napoleão
terçaram armas por diversas vezes
em Góis e respectiva região.

Ainda hoje por aqueles alcantis,
aldeias, lugarejos e casais,
se encontram polvoreiras e fuzis
que diferentes são dos actuais.

São restos dos antigos invasores
que remendados e modificados
ainda servem para os caçadores.

Crê-se que vem daí, quanto às donzelas,
a par dos seus cabelos alourados,
o predomínio azul dos olhos delas!



Memorial


Serra do Boco em tempos se chamou
a que do Açor agora se apelida
e foi por Rui de Pina referida
na crónica afonsina que a citou.

Por lá passaram para a Covilhã
vindas da Várzea por caminho esconso
as hostes do Infante D. Afonso
sem chefe, sem comando, ao Deus dará.

Corria a primavera, mas o certo
é que o terreno estava ainda coberto
por neves sobrepostas ou "dobradas".

Muita gente morreu na travessia
assinaladament nas chamadas
veredas do lugar de Albergaria!



"O carteiro"


Em todo o ser humano há um carteiro
que um dia se enamora de uma dama
querendo antes do mais saber primeiro
o nome que ela tem, como se chama.

Para uns é Beatriz, como a de Dante,
para outros Leonor, Laura ou Diana,
para Camões seria... Violante,
sua ama e na afeição sua tirana.

Todos somos carteiros nesta vida
que em dada altura, sem lugar nem data,
nos vemos ante a imagem pretendida.

Só que nem todos temos um Neruda
para com seus poemas na hora exacta
nos dar a sua… calorosa ajuda!



Cosmopolitismo


Devido ao bom cariz da sua gente,
amável, generosa, hospitaleira,
tornou-se Góis, no coração da Beira,
uma estância europeia com patente.

A cada passo chega gente nova
com armas e bagagens que se instala
na sua região para habitá-la,
como o poder autárquico comprova.

São estrangeiros que bem recebidos
e pela natureza surpreendidos
acabam por ficar na região.

Assim se vai enriquecendo a urbe
e seu concelho sem que se perturbe
a sua milenária tradição!



José Malhoa


Malhoa interpretou como ninguém
a gente portuguesa e seus costumes,
suas paixões, excessos e ciúmes
em quadros que pintou por um vintém.

Exímio retratista popular,
nas suas hoje valiosas telas
tanto na rua como nas capelas
o povo das aldeias tem lugar.

Insigne mestre sem qualquer rival
no género das obras que pintou,
seja lá fora seja em Portugal,

teve em Amália a paga merecida
quando ela em fado o imortalizou
na sua voz do mundo conhecida!



Brilho perdido


O conjunto de quadros da matriz
do burgo aristocrático goiense
tem um grande valor, o que condiz
com a capela-mor a que pertence.

Devido à sua originalidade,
quer no desenho quer no colorido,
não possuem qualquer afinidade
com tudo o que entre nós é conhecido.

Acontece, porém, que necessitam
de algumas obras de conservação
por pessoal com acreditação.

Segundo os entendidos que as visitam,
aquelas quatro tábuas no total
são do melhor que existe em Portugal!



Lourdinhas


Na capelinha dita do Castelo
foi de estadão o nosso casamento,
tu de vestido a todo o comprimento,
eu de casaca do melhor modelo.

Era a primeira vez que na capela
depois de restaurada se fazia,
segundo o que na terra se dizia,
uma festividade como aquela.

Toda a gente de Góis compareceu
para assistir à linda cerimónia
sem o mais leve assomo de acrimónia

pela simples razão de que ninguém
como um anjo puríssimo do céu
deixara nunca de querer-te bem!


LIBERDADE

Eu quero a liberdade, a verdadeira,
escrita com maiúsculas na base
dos monumentos sem nenhuma frase
que a desvirtue por qualquer maneira.

Eu quero a liberdade na soleira
da minha porta para quando entrar
saber que ela se encontra no meu lar
sem trela, sem açaimo e sem coleira.

Eu quero a liberdade como Deus
ao ser humano a deu quando o criou
para o amar na vastidão dos céus.

Eu quero a liberdade sem mais nada
exactamente assim como brotou
para entre todos ser compartilhada!


Ode à liberdade


Há que perder o medo de falar
e de pensar também: são atributos
que Deus nos deu sem termos de pagar
para os usar… impostos ou tributos.

Ninguém é mais que Deus, há que dizê-lo,
para arbitrariamente ou em função
de alardeado ou farisaico zelo
nos açaimar a boca e a razão.

O mais que pode acontecer à gente
não suportando o abuso de poder
é sujeitar-se a não sobreviver.

Mas antes isso do que prescindir
da faculdade de fazer-se ouvir
dada por Deus ao homem de presente!



Os Góis


Góis de apelido ou Goes talvez primeiro,
há muita gente assim denominada
e por diversas causas espalhada
no território luso-brasileiro.

Herdado ou simplesmente procedente
da respectiva zona ou região,
tirando os raros casos de brasão
tornou-se um antropónimo corrente.

Conforme alguém com créditos firmados
nos estudos históricos ligados
à vida do concelho deste nome,

longe chegou o áulico apelido
que à dita cuja vila anda cingido
por qualquer lado ou prisma que se tome!



Benazir Bhutto

Cobardemente assassinada a tiro,
à queima-roupa, por um suicida,
Benazir Bhutto terminou a vida
em pleno sonho sem qualquer suspiro.

Morreu subitamente rodeada
dos seus indefectíveis apoiantes
que em dísticos e vozes triunfantes
lhe davam a vitória desejada.

Democraticamente era a esperança
de um povo em prolongada ditadura
sob a invocação da segurança.

Morreu Benazir Bhutto: uma vez mais
uma mulher de grande envergadura
morreu pelos seus altos ideais!


Questão de pundonor

(Ode camoneana)

Como, Camões, por mais que experimente,
não chego nem de longe à tua altura,
prefiro apenas ser uma figura
igual a qualquer outra, a toda a gente.

Deus não me concedeu pessoalmente
uma sombra sequer, por desventura,
da tua inatingível estatura,
que a ninguém mais permite nem consente.

Por isso vou deixar de ser poeta,
meter a minha lira na gaveta
e dedicar-me a diferente vida.

É que profundamente me magoa
a hipótese de ser outro Pessoa,
émulo teu… de via reduzida!


Sapatinhos brancos

Em vez de pés descalços ou tamancos
nas povoações do nosso interior
todas as criancinhas , sem favor,
deviam ter seus sapatinhos brancos.


Deviam ter lacinhos na cabeça
como as meninas usam na cidade
e vestidinhos em conformidade
embelezando a vida que começa.


Deviam todas ter, sem excepção,
meias e luvas brancas destinadas
ao acto da primeira comunhão.


Numa sociedade democrática
que ao menos possam figurar calçadas
de sapatinhos brancos...nesta práctica!


O quarto rei mago

Aos meus cinco bisnetos


Além dos três reis magos que vieram
guiados por um astro refulgente
das remotas paragens do Oriente
e no berço a Jesus ofereceram

incenso, mirra e ouro em homenagem
ao Rei do mundo como Deus e Homem,
há lendas, que nos séculos se somem,
que falam de uma quarta personagem.

Era um monarca russo conhecido
pela sua bondade e que partira
repleto de riquezas que ia dando

pelo caminho aos pobres que ia achando,
de modo que Jesus desvanecido
vendo-o chegar sem nada… lhe sorrira!



Iniquidade

Escandalosamente Portugal
tornou-se num país onde a miséria
ombreia com o grande capital
sem nada se fazer nesta matéria.

Enquanto a maior parte da nação
vive de escassos meios económicos
não falta gente, em postos de gestão,
fruindo de ordenados astronómicos.

Há que denunciá-lo abertamente
e em nome dos princípios da justiça
pôr cobro aos exageros da cobiça.

Entre as populações do continente,
por muito que este quadro se componha,
somos um caso extremo de vergonha!


Cidadania

Não há que ter receio de falar
denunciando o mal onde ele existe
e sobretudo quando ele persiste
em se manter e até se exacerbar.

Constitui um dever do cidadão
bater-se contra toda a demasia,
quer do poder central quer da autarquia,
no que respeita à sua actuação..

Calar-se ante o abuso do poder
por cobardia ou falta de coragem
é não cumprir um cívico dever.

Há que recuperar a nossa imagem
de povo livre e rejeitar a canga
que nos pretenda impor qualquer capanga!



"Lição de tolerância"
Ao Prof. Erik Trinkaus


Dou-lhe toda a razão, sinceramente,
insigne Professor, pela censura
que faz ao mundo de hoje, à nossa gente,
de acordo com a sua conjectura.

Embora exista alguma discordância,
tudo faz crer que entre os Neandertais
e os nossos mais antigos ancestrais
houve uma relativa tolerância.

Contrariamente a nós, civilizados,
onde o racismo ainda é uma praga,
eles nos dão lições… que nada paga.

Tratando-se de ramos afastados
da espécie humana em franca divergência,
nada impediu a sua convivência!




Inutilidades

Que triste parlamento que nós temos,
sem nível, sem prestígio, sem altura,
quase uma espécie de caricatura,
imagem do país em que vivemos!

Para que servem tantos deputados
ali fazendo não se sabe o quê
pois toda a gente se dá conta e vê
que a maioria se mantêm calados?

Pior, há que dizê-lo sem temor,
somente os deputados dos concelhos,
sejam laranjas, rosas ou vermelhos.

Faça o poder autárquico o que for,
abúlicos, acéfalos, daltónicos,
não dizem nada porque são afónicos!


O Cristo Negro
No centenário do nascimento
de Monsenhor Nunes Pereira


Expressamente um dia para mim
o Padre. Monsenhor Nunes Pereira
com toda a sua excepcional craveira
fez um desenho a tinta de nanquim

do Cristo Negro exposto no Museu
conimbricense, um Cristo que entretanto
foi sujeito a restauro, tal e tanto
que o primitivo aspecto se perdeu.

Esse desenho que paguei bem caro
por se tratar de um documento raro
fiz dele oferta à Escola de Gouveia,

de onde foi retirado sem pudor
por cupidez ou se tratar de ideia
contrária à de um qualquer opositor.


O painel goiense dos Reis Magos


Que original é o quadro dos Reis Magos
que na igreja de Góis está patente,
sendo de lamentar os seus estragos
por obra só do tempo certamente.

Nunca vi cena tão encantadora
dando nas vistas, antes de mais nada,
o lindo rosto de Nossa Senhora
tão expressivamente recatada.

Também me toca muito o coração
o Menino estendendo a sua mão
ao mais barbudo rei da comitiva,

o qual, ao que parece, faz tenção
de lha beijar de forma alternativa
entre veneradora e afectiva!


Santa Maria Maior


Todas as Nossas Senhoras
são grandes por natureza,
todas sendo encantadoras,
todas de extrema beleza.

Há-as de vários tamanhos,
conforme o sítio ou lugar,
uma têm olhos castanhos,
outras azuis cor do mar.

Bonitas são todas elas,
todas são lindas e belas
pois são a Mãe de Senhor.

Em todas há santidade,
mas a de Góis, na verdade,
é de todas… a Maior!


"Hony soit qui mal y pense"


Quem a seu cargo tem, na sua mão,
seja em que forma for ou entender,
dinheiros pertencentes à nação
de suspeições se deve precaver.

Ainda que não haja essa intenção,
ninguém pode impedir de se dizer
que é fácil existir a tentação
de se lhes dar o fim que se quiser.


O caso é que são tantos e tão vários
os actos deste género que o povo
admite estar perante um caso novo.

Nesta questão de fundos monetários,
há que tomar os máximos cuidados
com as suposições dos mal pensados!


Aldeias do xisto


Vezes sem conta, em Góis, eu percorri
suas aldeias típicas de xisto;
não sei já quantas vezes por ali
andei sem pretender gabar-me disto.

Podia enumerá-las uma a uma,
desde Aigra Velha e Nova à Comareira,
mas eu prefiro não citar nenhuma
a fim de não pôr lenha na fogueira.

Por elas passa, julgo, em grande parte,
o futuro turístico de Góis,
que entre a montanha e a vila se reparte.

Falo por mim, que numa viva roda,
por ventos, chuvas, esquentados sóis,
trilhei aquela zona… hoje na moda!


Objurgatória


Quem do Museu, que foi minha paixão,
na vila de Arganil organizado
por minha iniciativa, é o ladrão
do monumento ali depositado?

Como se disse no comunicado
a que foi dada larga difusão,
era uma ara romana, cujo achado
não se verificou na região.

Era de Góis e dedicada estava
à divindade indígena Ilurbeda
que por aqueles sítios se adorava.

Seja quem for o seu depredador,
que ela o castigue em lenta labareda
até que em seu lugar a volte a pôr!


Lidar com pedras


As vilas, as aldeias, as cidades,
na sua topográfica estrutura,
têm alma própria, têm identidades
como qualquer pessoa ou criatura.

Existe um eixo de orientação
no seu traçado, nunca lhes faltando
um largo principal, cuja feição
não se deve alterar de quando em quando.

Não se pode mexer de qualquer modo
numa edificação, num monumento
sob pena de estragá-los no seu todo.

Cada lugar merece ser tratado
quando se impõe, mas com discernimento
a fim de não ficar… desvirtuado



Envolta em véus

(Ode formalmente nerudiana)

- "Sabe, vizinho, o que é a Poesia,
essa deusa discreta, envolta em véus,
que embora tenha por morada os céus
às vezes faz aos homens companhia?

É que eu, por mais que tente descrevê-la,
não encontro as palavras acertadas
e nem sequer um pouco aproximadas
que possam dar qualquer imagem dela".

- "Olhe, vizinho, ainda que eu quisesse
dar-lhe uma ajuda, não lho sei dizer
porque ela por aqui não aparece".

- "Esse é precisamente o meu problema,
pois quanto mais a quero conhecer
mais ela se me oculta… por sistema"!


Identidade e património


A maneira de ser, a identidade
de uma nação, de um povo, que se entende
como uma espécie de comunidade,
da forma de governo não depende.

Assenta no diálogo constante,
ininterrupto, a bem dizer diário,
com as leiras que temos por diante
servindo-nos de berço e de cenário.

Governe-nos um rei ou presidente,
Manuel, João, Cesário ou Possidónio,
o caso nada tem de transcendente.

O que de uma horda faz uma nação
é o seu comum apego ao património
ainda que não passe de um torrão!


Crimes de opinião


Vem do fundo dos tempos um clamor,
de todos os quadrantes do universo,
contra o poder despótico, perverso,
que encheu a humanidade de pavor:


gritos de sofrimento nas fogueiras
ateadas pela Santa Inquisição,
gente de bem metida na prisão,
execuções sem culpas verdadeiras.

Quando passeio os olhos da memória
pelas vilezas de que fala a história,
um sentimento de asco me domina.

Perante os crimes que o poder inventa,
não há sabão, lexívia ou água benta
que lave a mão que as mentes assassina!



Divina graça


Senhor, estou-te grato por me teres
feito nascer aqui em Portugal
onde são meigas todas as mulheres
dotadas de candura natural.

Podia ter nascido na Inglaterra,
França, Alemanha, Espanha, em qualquer parte
notável pela força e pela guerra
ou pelas mais famosas obras de arte.

Mas ainda bem que assim não sucedeu
pois de outra sorte nunca encontraria
aquela que inteirinha se me deu.

Onde é que fora deste meu país,
católico romano de raiz,
mulher tão recatada existiria?


Por tudo ria


Ria por tudo; era um regalo ouvir
as suas espontâneas gargalhadas,
inconfundíveis, personalizadas,
como somente os puros sabem rir.

Era um sintoma de felicidade,
de paz interna, autêntica, assumida,
peculiar de uma alma dividida
entre o prazer da vida e a santidade.

Por tudo ria, qual uma criança,
sem mal algum, com toda a confiança,
na rua, no café, no lar, à mesa.

Desde o momento em que ela faleceu,
ouvem-na agora os anjos lá no céu
sem darem quaisquer mostras de estranheza!


João de Ruão



Tenho uma Nossa Senhora
feita de pedra d'Ançã:
compreia-a numa penhora
de nobre casa beirã.

Parece vinda de fora
pela impressão que me dá,
mas o certo, muito embora,
é que é de pedra de cá.

Tem uma cara tão bela,
uma expressão feminina
tão delicada, tão fina,

que por outras como a dela
se vê ser obra da mão
do mesmo autor coimbrão.


"Pour bien"
De volta a casa


Não foi de espada em punho e sujeição
à viva força, como os castelhanos,
que os portugueses, com o coração,
foram de meio mundo soberanos.

Hispânicos no berço e nas raízes,
mas desde logo os mais ocidentais,
pese à identidade das matrizes,
sempre nos mantivemos desiguais.

No contexto europeu que perfilhámos
de volta do Império que deixámos
entregue de bom grado aos seus destinos,

há que fazer ouvir a nossa voz,
pois apesar de sermos pequeninos
temos o génio de Camões por nós!


Apresentação

Desvanecido o poeta lê seus versos
com cavernosa voz e gestos largos,
uns menos graves, outros mais amargos,
passando as folhas, ao calhar, dispersos.

Na mesa, gente grada da cultura,
que escuta atenta como se gostasse
a avaliarmos pela sua face
virada para a dita criatura.

Aplausos na assistência prolongados,
consagratórios, mesmo que ninguém
tenha entendido os tópicos versados.

Um êxito: o poeta com desdém
abandona o salão persuadido
de ser um grande génio incompreendido!


O último Silveira

Em pé, de corpo inteiro, sobre a tela,
vestido de armadura de parada,
gola branca de folhos, engomada,
à maneira da corte de Castela,

eis o terceiro conde de Sortelha,
senhor de Góis e D.Luis de nome,
Silveira de apelido e de renome
prócere ilustre da nobreza velha!

Da boca do mastim posto ao seu lado
pende-lhe em ferro o guante descalçado
de uma das mãos de fina contextura.

No canto esquerdo, ao cimo, da pintura
à laia de brasão vê-se a figura
de flecha a prumo em arco retesado!



Falar com rosas

Falar com rosas é falar com Deus
que nelas pôs a sua complacência,
sem precisão de O procurar nos céus
onde Ele tem a sua residência.

Nelas eu vejo a sua natureza
na sua especiosa perfeição,
deixando-me vencer pela certeza
de nelas eu ter Deus à minha mão.

Se Deus tem cheiro, como às vezes penso,
o mesmo deve ser que as rosas deitam,
mais apurado embora ou mais intenso.

Quando com Deus desejo conversar,
sirvo-me delas, que aos montões enfeitam
as jarras "Vista Alegre" do meu lar!


Modus in rebus


Haja decoro na governação:
perante o povo imerso na miséria
evitem os sinais de ostentação
de forma escandalosa e deletéria!

Respeitem quem vos paga os ordenados
com seu suor do rosto e rendimentos
de autêntica pobreza comparados
com os vossos iníquos vencimentos!

Em vez de luxuosas viaturas
topo de gama, para dar nas vistas
como se fossem grandes criaturas,

desloquem-se de modo mais modesto
e, se possível for, sem motoristas,
visando dar ao povo um ar honesto!7


Raça


Seja o que for que esta palavra diga
e tanta gente incomodar parece,
não me deixo levar nessa cantiga
porquanto nem me aquenta ou arrefece.

O que é verdade é que ela é muito antiga
e facilmente não desaparece;
por mim, por mais que alguém me contradiga,
sobre ela digo quanto me apetece.

Se alguém não quer ter raça, é lá com ele,
seja qual for a cor da sua pele
e a forma corporal de que disponha.

No que me diz respeito, continuo
a proclamar a raça que possuo,
sem de ser português… eu ter vergonha!



CAEIRO

Estás equivocado no que dizes,
neste último poema vindo a lume,
quanto ao que diz respeito às directrizes
às quais teu pensamento se resume.

Se não, vê lá: se escreves com razão
que não havia tempo como tal,
como entender a tua afirmação
de ele ter um começo e um final?

Nas tuas teorias não embarco
e por muito respeito que me inspires
nada me impede de agitar o charco.

Nem tudo é "definido" e "limitado",
Poeta intimamente defraudado
por uma simples "cousa" te sentires!


Não te esqueças, Senhor, dos meus Amigos!

Senhor, eu sei que tenho ao pé de Ti
um lugar reservado em atenção
àquela que me deste e que eu perdi
para desgraça minha em dia não.

Se nunca grande coisa te pedi,
peço-ta agora, nesta ocasião,
enquanto não me levas para aí,
onde reside já meu coração.

Guarda também, Senhor, uns bons lugares
para todos os meus familiares
perto de nós os dois, se puder ser!


E não te esqueças, que isso é importante,
dos meus Amigos, que desejo ter
num sítio nem somenos nem distante!

Farisaísmo

Como qualquer de nós, também mamou
o Menino-Jesus em pequenino
conforme antigo artista o figurou
no quadro de um convento feminino.

Hoje depositado no museu
da cidade de Aveiro, em bom estado,
de quando em vez um que outro fariseu
se mostra com a cena inconformado.

É que a Senhora sua Mãe, de pé,
mostra um dos seios túrgido de leite
que a criancinha suga com deleite.

Que tem a ver o caso com a Fé
se foi precisamente à sombra dela
que o seu autor pintou aquela tela?



Heróis, poltrões e santos



Do cobarde ao herói medeia um passo,
uma folhinha de papel de seda,
um breve instante, um minguado espaço,
o tempo de um carvão ser labareda.


E vice-versa, pode porventura
o consagrado herói dar em poltrão,
bastando às vezes ter, a dada altura,
uma oportunidade à sua mão.


Quantos heróis são fruto ocasional
de um fugir para a frente face ao medo
que se apodera do poltrão banal?!...


Entre um e outro é mínima a fronteira,
o que não constitui nenhum segredo:
difícil é ser santo a vida inteira!


"Trago-te na minha vida"

Vítor Matos e Sá


Comigo a trago ainda antes de eu nascer:
ainda era eu pó de estrela ou coisa assim
e já prevendo o que ia acontecer
Deus a terá pensado para mim.


Desde o primeiro instante em que eu a vi,
toda "purinha" como a luz da aurora,
olhos nos olhos, a reconheci
imediatamente, sem demora.


Hoje que ela voltou ao paraíso
onde, se não for antes, penso vê-la
no prometido dia do juízo,


continuo em espírito a trazê-la
dentro de mim nos filhos que me deu
e prova são de que ela não morreu!

Discriminação intelectual:

o drama português

A discriminação pode tomar
as mais diversas formas da existência
desde o país, a raça ou o falar
aos diferentes graus de inteligência.


De todas as razões que a determinam
esta é a mais cruel e revoltante
porquanto a sua vítima eliminam
por se tratar de um cérebro pensante.


Para a mediocridade que detém
as rédeas do poder ou do saber
uma pessoa destas não convém.


Como alegada escória que não presta,
fora da pátria, a estranhos só lhe resta
a sua inteligência … oferecer!


Disparidade


Nada melhor para com Deus falar
que a linguagem musical do verso,
a mesma que entre si devem usar
os anjos e as estrelas do universo.


Não creio ser critério controverso
nem das sagradas normas se afastar:
por isso é deste jeito que converso
com Quem fez o favor de me criar.


É sempre sob a forma de soneto
que me dirijo a Ele com afecto
por se tratar da flor da poesia.


De igual maneira em verso me dá troco,
embora com maior categoria,
primando pelo espírito barroco!

Ilurbeda

Il est des lieux où souffle l’esprit”
Maurice Barrès

Andam deuses pagãos pelas vertentes
voltadas para a crista do Penedo
em cujo panorâmico fraguedo
há do seu génio provas evidentes.

A par do nome hispânico-latino
inscrito em duas árulas romanas
muitas gravuras há pré-lusitanas
sopradas pelo espírito divino.

Difícil é saber interpretar
o que as populações nos transmitiram
nos riscos que deixaram lá ficar.

Sem pretender qualquer decifração,
limito-me a dizer que elas sentiram
andarem deuses… por aquele chão!


“O destino do homem é o conhecimento”

Ao Prof. Carlos Fiolhais

Saber cada vez mais, dia após dia,
ilimitadamente, é de certeza
o destino supremo, que o inebria,
de todo o ser humano que se preza.

Ir aumentando os seus conhecimentos
pelos caminhos árduos da ciência,
compartilhando os seus descobrimentos,
que outro labor mais nobre há na existência?

Dos telescópios aos laboratórios,
da congeminação à conjectura,
o sábio faz da vida uma aventura.

Nos seus elaborados relatórios,
vai da ignorância levantando os véus
até chegar à concepção de Deus!

Candura e optimismo

Enganam-se a si próprios os políticos
que tudo à sua volta querem ver
nadar num mar de rosas… sem dizer
que os tempos actuais são muito críticos.

O mal é quando, procedendo assim,
pensam que iludem a comunidade,
que farta está da sua vacuidade
e só vê mato onde eles vêem jardim.

Já vem de muito longe esta atitude
que por igual afecta ambos os lados:
quem pretende enganar e os enganados.

Só que presentemente, por virtude
de não querer fazer figura de urso,
o povo já não vai nesse discurso!


Voltar ao paraíso


Talvez um dia o homem descontente
com a visão da Terra poluída
a troque por um sítio diferente
onde reconstruir a sua vida.

Mais próximo de Deus seguramente
e sob a sua paternal guarida,
em Marte, onde é propício o ambiente,
terá nova existência garantida.

Sem precisar de leis, em anarquia,
em liberdade física e mental,
outra será também sua moral:

nada de “excelentíssimo senhor”
nem presidente seja do que for
ainda que tão-só de freguesia!


Glória olímpica

Nenhuma glória humana se compara
à do participante com sucesso
nos olímpicos jogos, a mais rara
de todas as proezas que conheço.

De volta ao seu país, levando ao peito
a medalha de bronze, prata ou ouro,
é motivo de orgulho e de respeito
como entre os gregos era outrora o louro.

Acima dos políticos que breve
o povo esquece e, quase como escória,
reduz a pó nas páginas da história,

o atleta que na frente se manteve
em qualquer uma das competições
incólume atravessa as gerações!


Nelson Évora

Ao som da “portuguesa”, olhos no céu,
lento subiu no mastro principal
a bandeira das quinas em sinal
de se ter ganho o olímpico troféu.

Ante o esforço que inundou de pasmo
quem teve a dita de presenciar
do luso atleta a prova singular
todo o país vibrou de entusiasmo.

Merece honras de herói o campeão
que medalhado de ouro conquistou
o reconhecimento da nação.

Nesta hora de profundo abatimento
em que o poder político a lançou
vê nele a pátria uma razão de alento!

Editorial

Para que Portugal, em nossos dias,
se recupere e se coloque ao lado
de qualquer outro progressivo Estado
tem de alterar seu nível de chefias.

O mal está, não na população,
sujeita aos sacrifícios mais extremos,
mas nos banais políticos que temos
e que estão dando cabo da nação.

Em vez de ocasionais oportunistas
à frente dos destinos do país
que tem todo o direito a ser feliz,

fazem-nos falta os grandes Estadistas
capazes de fazer de Portugal
uma nação moderna e actual!

Testemunho olímpico


Jogou-se, conviveu-se em paridade
como se a China fosse o mundo inteiro
sem distinções de nacionalidade,
de raças, línguas, cor da pele ou cheiro.

Em clima fraternal de amor e paz,
lutou-se com vigor por um lugar
no pódium reservado ao mais capaz
em cada última prova a disputar.

Durante três semanas, em Pequim,
reacendeu-se o espírito da Grécia
sem qualquer incidente ou peripécia.

Extinta a chama olímpica por fim,
de novo passará de mão em mão
para outra universal competição!


"La boina gris"


Paráfrase a Pablo Neruda

Pela minha existência não passaram
Natércias verdadeiras ou fingidas
nem quaisquer outras musas referidas
pelos Poetas que as imaginaram.

Não tive Marissóis nem Marissombas,
as "boinas grises" das canções de amor
dos verdes anos de Neruda em sombras
e brasas escaldantes de fervor.

Com Dinamenes, Bárbaras cativas,
Ofélias, Julietas não sonhei
nem poeticamente as invoquei.

Sem recorrer a literárias divas,
foi a "Rucinha" a doce companheira
que a mente me ocupou a vida inteira!

Uma só cor de pele


Foi uma apoteose a sua entrada
na sala reservada à Convenção
dos Democratas, calendarizada
em torno à Presidência da Nação.

Por entre intermináveis ovações
e respectivos agradecimentos,
que enchiam de calor os corações
unidos pelos mesmos sentimentos,

o negro cidadão Barack Obama
em voz segura e calma apresentou
as linhas principais do seu programa.

A América no “sonho” acreditou:
a fazer fé nas perspectivas dele,
ninguém terá diversa cor de pele!

















D. João da Silveira

Herdeiro por direitos de nobreza
dos títulos do pai, senhor de Góis,
em Alcácer-Quibir, entre os heróis,
deu a alma a Deus nessa funesta empresa.

Acompanhando D. Sebastião
menino e moço cheio de ilusões,
honrou seus pergaminhos e brasões
cumprindo o seu dever de cortesão.

Nunca um senhor de Góis regateou
à Pátria e ao seu Rei por lealdade
seu próprio sangue, a vida e o porvir.

Também por ele, em Alcácer-Quibir,
de onde aos seus paços nunca mais tomou,
gemeram as guitarras ... da saudade!



Benazir Bhutto


Cobardemente assassinada a tiro,
à queima-roupa, por um suicida,
Benazir Bhutto terminou a vida
em pleno sonho sem qualquer suspiro.

Morreu subitamente rodeada
dos seus indefectíveis apoiantes
que em dísticos e vozes triunfantes
lhe davam a vitória desejada.

Democraticamente era a esperança
de um povo em prolongada ditadura
sob a invocação da segurança.

Morreu Benazir Bhutto: uma vez mais
uma mulher de grande envergadura
morreu pelos seus altos ideais!



Saber ouvir


Só não quer escutar a voz do povo
quem não está seguro da razão
e quer impor a sua opinião,
o que aliás não é nada de novo.

Há que remar contra esta má tendência
de tudo resolver sem referendo
seja qual for o caso ou diferendo
que esteja em causa face à prepotência.

Dê-se ao povo em questões de discordância
o supremo direito que possui
de se pronunciar… mesmo à distância.

Depreciar o parecer alheio,
além do mais, no fundo constitui
a mais completa prova de receio!...



João Alves Simões


João Alves Simões, amigo meu
que muito estimo e prezo, à sua custa
subiu a pulso e por maneira justa
à posição que tem e mereceu.

Admiro-lhe a indómita vontade
de triunfar na vida social
mantendo embora o porte pessoal
da sua originária identidade.

Ufana-se de ser "um pé rapado"
que em berço d' ouro, em brasonado lar,
não foi nascido e menos embalado.

Sem desdenhar sua ascendência pobre,
plebeu de facto, como faz notar,
entre os mais nobres não é menos nobre!



Dr. Mário Ramos


Mário Paredes Ramos esquecido
por muitos dos goienses tem andado
embora em seus estudos tenha sido
quem lhes patenteou o seu passado.

Quem pretender saber com precisão
alguma coisa sobre o que ocorreu
no velho burgo e sua região
consulte o Arquivo que ele promoveu.

Fonte de informação não há melhor
em todos os sentidos e matérias
desde as menos credíveis às mais sérias.

Nele tem Góis o seu cronista-mor,
sendo de lamentar que sua história
não seja objecto de maior memória!




Pobres de espírito:
in memoriam

Em certas terras, vilas e cidades,
é frequente verem-se uns tolinhos
que, originando às vezes burburinhos,
são incapazes de fazer maldades.

Conheci muitos pelo país fora,
almas lavadas, corações de pombo:
seu nome não figura em nenhum tombo
nem autarquia alguma os comemora.

Dou como exemplo, em Góis, o bom do Mário,
inofensivo como foi o Roque,
embora não iguais, pelo contrário.

Sem ter de seu um único ceitil,
como ninguém merece que se evoque
o Toninho Espanhol, em Arganil!



A Realeza em Góis


De Góis o velho burgo senhoril
festivamente em arco embandeirou
para saudar, amável e gentil,
Sua Alteza Real que o visitou.

Foi há cem anos que precisamente
El-Rei D. Carlos fez igual visita,
que D. Duarte Pio, seu parente,
noutro contexto agora reedita.

Então, para o banquete oficial,
mandou-se vir de França, em porcelana,
um serviço de mesa especial.

De todo o território da comarca
é Góis a região que mais se ufana
de ter ficado na alma do Monarca! 7



"Margaritas ante porcos"
S. Mateus VII 6

Como nas suas fábulas compara
Esopo ou Fedro, indiferentemente,
é fraca ideia dar a um demente
uma esmeralda ou qualquer gema rara.

É como quem a porcos ou galinhas,
em lugar de bolotas ou ração,
lhes dá para comer, à refeição,
uma porção de pérolas marinhas.

Mal empregado o tempo e o feitio,
desperdiçada a cera e o pavio,
a burilar poemas a preceito,

quando se verifica que a pessoa
a quem são dedicados, com efeito,
preferiria carapau com broa!



Azeite de Góis


Que tratos de polé sofre a azeitona
até chegar a ser azeite puro,
seja em que parte for, lugar ou zona,
sem se prever mudança no futuro!

Há sítios como Góis onde, porém,
o método seguido no lagar
é do melhor que a tradição mantém
na forma de o fazer e preparar.

Bom para o prato, à mesa da família,
também nos templos da comunidade
arde ante Deus à guisa de vigília.

Entre Arganil e o termo da Lousã
pela sua excelente qualidade
melhor azeite que o de Góis não há!



Pedagogia familiar


Nas famílias goienses predomina
um sentimento de aristocracia
não por razões de genealogia,
mas de nobreza de alma, que se ensina.

Tanto partilha deste sentimento
quem na vila reside ou fora dela:
goiense é todo aquele que revela
identidade de comportamento.

Do seu passado histórico orgulhoso,
todo o goiense nem por isso deixa
de ser acolhedor e prestimoso.

Socialmente quando promovido,
o cidadão goiense não se queixa
de em berço de ouro não haver nascido!



Historicidade


Na sua estrutural complexidade
a História não se faz unicamente
com textos de isenção suficiente
e presumível autenticidade.

Faz-se também, com mais veracidade,
com pedras, cacos, contas de colar,
que desde logo têm o seu lugar
no que respeita à historicidade.

Se o texto escrito às vezes nos ilude
por não passar de uma qualquer versão
de quem promove a sua redacção,

a fonte arqueológica, em virtude
de não ter compromissos com ninguém,
é se calhar a que mais força tem!



Maria de Lourdes Guimarães



Em Góis nasceu, em Góis a namorei,
a Maria de Lourdes Guimarães,
com quem na capelinha me casei
mandada construir, além do mais,

pelo senhor da povoação de Góis
e conde de Sortelha, guarda-mor
de D. João Terceiro, embaixador,
que em Góis viria a falecer depois.

Recordo a vila sempre com saudade
pois lá passei românticos momentos
de rara e juvenil felicidade.

Sempre que lhe ouço o nome ou quando o leio,
é para lá que vão meus pensamentos
pois foi dali que minha esposa veio.



Em paridade


Da França vindos e da Normandia,
então sob o domínio de Inglaterra,
quando o Renascimento principia
e a Idade-Média finalmente encerra,

em Góis pululam grandes arquitectos,
artistas de renome contratados
para levar a cabo altos projectos
ainda agora em parte conservados.

Não é para admirar que desde então
em Góis se manifeste a propensão
para o convívio internacional.

Seja qual for a cor dos estandartes,
é grato ver a gente de outras partes
buscar para viver este local!



A caixa de charutos


Na tampa duma caixa de charutos
tenho um quadro pintado por Malhoa:
comprei-o numa loja de produtos
de artesanato há tempos em Lisboa.

Era hábito do mestre utilizar
para dar corpo à sua inspiração
o que na altura ou em qualquer lugar
para esse efeito ele encontrasse à mão.

De natureza sacra, representa,
muito ao seu gosto, Cristo ajoelhado
no sítio onde será crucificado.

Analisada por pessoa isenta,
a caixa de charutos vale agora
uma fortuna… em caso de penhora!



A casa das Ferreirinhas


No Largo do Pombal considerado
em Góis a sua sala de visitas
foi demolido o prédio abandonado
das Ferreirinhas vulgarmente ditas.

Sem requerer nem aguardar despacho
da suprema entidade competente
pela autarquia foi deitado abaixo
na mira de um arranjo pertinente.

A verdade porém é que ainda agora
por mais que se lamente esta demora
tudo no mesmo estado permanece.

O caso é que, tirando o Paço Velho,
se trata do solar que se conhece
mais singular da sede do concelho!



Fidalgo


Cortês de modos e Cortês de nome,
o médico de Góis, Doutor Diogo,
era um grande senhor que desde logo
nunca do meu espírito se some.

No copo de água com que terminou
a minha boda em sala apalaçada
com pinturas no tecto decorada
foi ele quem brindou e discursou.

Era eu então ainda um escolar
em fim de curso, por licenciar,
a quem vaticinou ventos felizes.

Deus o ouviu, pois a verdade é esta:
em todos os aspectos e matizes
a nossa vida foi… sempre uma festa!


Democracia

Hugo Chávez perdeu; ficou provado
que contra o povo que viver deseja
em liberdade, seja como seja,
ninguém tem o poder assegurado.

Fácil não é vencer uma nação
sem primeiro a calar e humilhá-la,
que não há força que lhe tire a fala
enquanto lhe pulsar o coração.

Hugo Chávez perdeu; o povo em massa
saiu às ruas para demonstrar
que a viver livre quer continuar.

Não há para um país pior desgraça
que entregar-se nas mãos de um ditador
qualquer que seja a respectiva cor!


That is the question


Sob o pretexto de um qualquer partido
ao cabo de legítima eleição
indiscutivelmente haver vencido
não tem total poder de decisão.

Sem pretender, para o devido efeito,
fazer doutrina, quero tão-somente
dar uma opinião a este respeito
conforme aquilo que me vai na mente.

É que nem toda a gente vai votar,
o que não quer dizer que não desfrute
do cívico direito de opinar

quando apesar de achar-se programado
entre os vários autarcas se discute
assunto grave ou de maior cuidado!


"Atirai pedras, medíocres!"
Rubén Darío

Quando o monarca D. João Terceiro
por desacatos que ele provocou
Camões fora da pátria colocou
mudando-lhe em desterro o cativeiro,

um escarninho riso sorrateiro
no rosto dos rivais se divisou
e toda a corte se regozijou
por ver-se livre, enfim, do desordeiro.

O mal foi quando o Poeta ao regressar
na mão trazia para lhes mostrar
o poema que nas Índias compusera:

"Agora atirai pedras" - lhes dissera -
"medíocres de engenho e de talento,
atirai pedras, montes de excremento"!


O abantesma da matriz de Góis

Num quinhentista medalhão do tecto
por Luís da Silveira encomendado
a Diogo de Castilho, o arquitecto
daqueles tempos mais solicitado,

figura decepada uma cabeça
hirsuta, feia, trágica e horrenda
constituindo uma excelente peça
com nome epigrafado na legenda.

É o bíblico Holofernes, o feroz
perseguidor do povo da Judeia
a quem Judite deu um fim atroz.

Dada a similitude das feições,
quem desconhece… fica com a ideia
de ser o Holofernes de Midões!



Nossa Senhora do Bebé-chorão

Á memória do Pe. Nunes Pereira
no centenário do seu nascimento.

Por Monsenhor Augusto Nunes P'reira
sobre papel à pena desenhada
tenho na minha sala, encaixilhada,
uma Nossa Senhora à minha beira.

Supõe-se ser a imagem verdadeira
da célebre Senhora venerada
em Arganil em época passada
e quase de certeza que a primeira.

Brotou-lhe da caneta para mim
expressamente desenhada assim
num surto de espontânea inspiração.

Por via do Menino que segura
passámos a chamar a essa escultura
Nossa Senhora do Bebé-chorão!


O corrosivo mal da inveja


A inveja mata, corroendo lenta
mas imparavelmente a alma humana:
é mal que de si próprio se alimenta
e aos poucos vai tornando a mente insana.

Pintaram-na os artistas primitivos
da forma mais horrenda que é possível:
animalescos dentes incisivos,
aspecto facial vesgo e temível.

É sempre deletéria a sua acção
no meio social, embora às vezes
pareça ter o dom da emulação.

Por mim não acredito que assim seja
especialmente quanto aos portugueses
que primam sobre todos pela "enveja"!


Da penúria à demasia


Tendes razão, Amigos: quando a esmola
é de tal forma grande que não cabe,
por mais funda que seja, na sacola,
o pobre estranha… e que pensar não sabe.

É talvez caso para, em sua mente,
ficar de pé atrás, desconfiado,
julgando até que pode ser presente
no mínimo ardiloso… ou artilhado.

Para não dar aspecto de ludíbrio,
mesmo na esmola deve, em conclusão,
manter-se um razoável equilíbrio.

Na vida o sonho, diga-se a verdade,
é salutar, mas com moderação
para que tenha… credibilidade!



Sensibilidade democrática



A crítica é saudável: só tem medo
de prestar contas pela sua acção
quem não dispõe de justificação
ou guarda para dentro algum segredo!

Sem crítica não há democracia
no bom sentido que a palavra tem:
menosprezá-la pressupõe desdém
pelos princípios da cidadania.

Seja qual for o género de crítica
que se nos faça, em público ou privado,
no concernente à prática política,

todo ele é construtivo mesmo quando
por qualquer forma o povo discordando
demonstre não se achar do nosso lado!



Inveterado hábito


Enquanto o português não for capaz
de responder na volta do correio
a qualquer carta e deixa para trás,
por hábito arvorado em tradição,

a resposta devida ao remetente,
pode afirmar-se sem nenhum rodeio
que por melhor motivo que se invente
é falta elementar de educação.

Se assim continuarmos a fazer
contrariamente aos outros europeus,
é caso para se reconhecer

que muito embora à Europa pertençamos
ainda nem sequer nos abeirámos
do lado ocidental dos Pirinéus



"Pour bien"


Há quem veja na crítica uma ofensa,
abominável por assim dizer,
mas quem desta maneira julga ou pensa
não tem razão nenhuma para o crer.

Aliás, é conhecida a reacção
de Salazar às críticas honestas:
por mais legal que fosse a intenção,
eram-lhe sempre odiosas e molestas.

O mais provável que sucederia
a quem dele dissesse algo de mal
era candidatar-se ao Tarrafal.

Porém, segundo a etimologia,
sem ofender a crítica não passa
dum juízo de valor… que até tem graça!



Desenlace adiado



Se nas margens do Ceira os dois irmãos,
os Duques de Coimbra e de Bragança,
D. Pedro e D. Afonso, a espada e lança,
medindo-se, tivessem vindo às mãos,

não se teria dado Alfarrobeira
que segundo a Duquesa da Borgonha
foi para Portugal uma vergonha
imprópria de barões da Jarreteira.

E Góis, numa doméstica contenda,
de menos monta, sem o gonfalão
de El-Rei assinalando a sua tenda,

nas páginas da História hoje estaria
por no seu território logo então
sanada ter ficado a rebeldia!


Previdência


Se um dia em plena serra te encontrares
sob inclemente céu e sol ardente
e não tiveres onde te abrigares,
toma esta decisão na tua mente:

quando de novo por ali passares
não te esqueças de pôr uma semente
para fazer nascer, nesses lugares,
uma árvore… num gesto previdente.

Quem sabe se mais tarde, anos andados,
passando por ali um neto teu,
ele não vai agradecer ao céu

ter providenciado no sentido
de naquela aridez haver surgido
uma sombra… devida aos teus cuidados!


Papalvos


Papalvos, é o nome; parolada
à volta de dois riscos num rochedo,
uma dúbia figura lá gravada,
tentando interpretar o seu segredo!

É quase um crime, uma perversidade,
aproveitar-se da iliteracia
de uma qualquer boçal comunidade
para a induzir a entrar na parceria.

Utilizando termos nunca ouvidos
por aquelas paragens, descabidos,
querem deixar o povo embasbacado.

Mas o mais curioso disto tudo
é ver a autoridade sobretudo
deixar-se engarampar pelo seu lado!


Puro engano


Equivocado está rotundamente
o chefe do governo português
ao afirmar, neste final de mês,
que o povo deveria estar contente.

De vinte e um baixar-se tão-somente
o Iva para vinte, como o fez,
conforme a natureza do freguês
não representa nada… veramente.

Para quem rico é, tanto lhe dá,
nas compras que efectua ou que fará,
pagar mais um ou menos um por cento.


Pelo que ao pobre diz respeito, o certo
é que nas compras para seu sustento
nem à casa dos vinte chega perto!



Em Góis te vejo em tudo


Em Góis, que foi teu berço, junto ao Ceira,
vejo o teu nome escrito em toda a parte
desde que eu comecei a namorar-te
e nunca mais saí da tua beira.

Vejo-o no peitoril abençoado
da janela que deita para a frente
da casa onde moravas e que a gente
gastou de horas sem fim lá ter passado.

Vejo-o no Cerejal onde o gravei
em cada tronco de árvore no centro
de um coração, de forma a caber dentro.

Vejo-o na capelinha em que casei
em pleno inverno, a meio de Dezembro,
numa manhã de sol, se bem me lembro!


"Eixo do mal"


Por coisa alguma perco um seu programa,
sábado à noite, para me informar,
em crítico e sumário panorama,
acerca do que importa verberar.

A maneira melhor de exorcizar
a praga dos políticos sem chama
é com humor ridicularizar
seus actos em grotesco diagrama.

Vivendo-se em regime democrático,
é salutar o espírito socrático
brandindo o argumento da ironia.

Em luta aberta contra a pelintrice
e toda a espécie de cabotinice
eu não dispenso a sua companhia!



Vila morena

Que pena, Zeca Afonso, o uso que deram
ao teu lindo poema sobre a vila
de Grândola, a morena, que destila
todo o teu génio que eles perverteram!

Quando te veio à mente essa canção
em prol da liberdade, longe estavas
de ela servir para a revolução
que tudo foi… menos o que sonhavas.

Grândola há muito que deixou de ser
o símbolo do teu imaginário
traído pelas hordas do poder.

Principalmente na actualidade
ninguém vê nela, bem pelo contrário,
qualquer vislumbre de fraternidade!


João

Era o mais lindo nome que existia,
minha mulher dizia por amor,
o nome de João, o precursor
da vinda de Jesus, que ele anuncia.

Não há capela, igreja ou romaria
em que ele não esteja em seu andor,
em procissão saindo quando for
da sua festa o respectivo dia.

Sendo judaico primitivamente,
talvez não haja um único idioma
em que ele não exista no presente.

A língua em que, porém, tem mais beleza,
filha dilecta do falar de Roma,
é sem dúvida alguma a portuguesa!


Mais linda do que nunca


Hoje sonhei, amor, que tu voltaste
mais linda do que nunca, adolescente,
e que devagarinho me beijaste
para eu não acordar subitamente.

Tinhas recuperado a juventude
envolta numa auréola de estrelas
que me ofuscavam tanto que não pude
ver-te logo as feições por culpa delas.

De ti por todo o ar se difundia
um doce aroma como julgo terem
os anjos que te fazem companhia.

Se eles, ó meu amor, não se opuserem,
vem sempre que puderes como agora
sorrir-me em sonhos pela noite fora!


As minhas velharias


Tenho uma colecção de antiguidades
que em grande parte dos meus pais herdei
e que em diversas oportunidades
dia após dia aos poucos aumentei.

Em cada região por onde andei,
desde as pequenas vilas às cidades,
a pé, de carro, interrogando a grei,
obtive uma porção de raridades.

Móveis antigos, livros, pergaminhos,
armas, brasões, damascos e arminhos,
faianças, porcelanas, santos velhos

dos mais variados sítios e concelhos,
não só me cercam de arte e poesia
como me fazem culta companhia!



"O Justo dos Justos"

O cônsul Sousa Mendes referido
por montes de judeus ter arrancado
às câmaras da morte, condoído,
foi pura e simplesmente exonerado.

De nada lhe valeu ter apelado
e éticas razões ter aduzido:
o caso fora já sentenciado,
estando desde logo demitido.

Como será possível sem salário
catorze filhos sustentar sem ter
para o efeito o ganho necessário?!

Que fim de vida teve tão cruel:
doente e pobre, à beira de morrer,
pediu que o amortalhassem de burel!



Memória para sempre


Em Israel, no bosque consagrado
ao cônsul Sousa Mendes, de Cabanas,
algures entre aldeias lusitanas,
um facto deve ser assinalado.
As árvores que o integram, de ordem vária,
são tantas quantos foram os judeus
que o diplomata, pondo em risco os seus,
fez por salvar de execução sumária.


Diz-se que são dez mil exactamente
além de ao centro se encontrar mais uma
acima das demais, proeminente.

Crescendo, o bosque falará por si,
até que a própria terra se consuma,
do "anjo de Bordéus", lembrado ali!



Mantas de trapos

Na minha mente, em imaginação,
perpassam rostos, mãos que utilizaram
aqueles vários trastes que ficaram
de recuados tempos que lá vão.

Olha as colchas tecidas de farrapos
por enrugadas mãos de alguma avó
que para se entreter, vivendo só,
fazia mantas com montões de trapos.

Olha aquelas panelas ferrugentas
de ferro com três pés, aquele leito
de tábuas de castanho carunchentas.

Essas coisas sem préstimo hoje em dia
têm alma própria e guardo-as com respeito
na minha colecção de etnografia!



Veleidades

Filho de antiquários afamados,
coevos de Barjona e de Junqueiro,
nasci num berço de ouro verdadeiro
de príncipes há muito embalsamados.

Cresci por entre arcazes brasonados
de casas nobres sem nenhum dinheiro
que tudo iam vendendo ao adeleiro
para pagarem juros atrasados.

Daí meu gosto pelas velharias
que foram a paixão da minha vida
e me inspiraram tantas poesias!

Cercado de relíquias de solar,
eu me sonhava, de alma convencida,
um conde de algum reino… por achar!



Medo ancestral

Há que perder o medo e combater
de peito feito e de cabeça erguida
todo e qualquer despótico poder
que nos pretenda controlar a vida!

Há que perder o medo de falar
que vem de muito longe, das raízes,
desde que o humano ser, sem protestar,
se sujeitou a alheias directrizes.

Há que perder o medo de sair
à rua e proclamar sem desistir
os ideais que estão na nossa mente.

Há que perder o medo de supor
que carecemos todos de valor
como se nem sequer fôssemos gente!


"Frente-a-frente"

Eu vejo, às vezes, à segunda-feira,
o "Frente-a-frente" na televisão,
onde em disparatada cavaqueira
cada um emite a sua opinião.

Entristece-me a falta de craveira
da presuntiva elite da nação,
cujas ideias, próximas da asneira,
me causam uma péssima impressão.

O que me choca mais nestas sessões
são as intermináveis discussões
sem qualquer fundamento ou coerência.

Mas não me deixa menos consternado
uma descaradíssima tendência
para um certo esquerdismo assaloiado!


Confrontação

Ser contestado é bom; ser posto à prova
é salutar; faz bem de quando em quando
saber-se que nem toda a gente aprova
as nossas veleidades de comando.

Estamos muitas vezes saturados
de uma total respeitabilidade
que nos endeusa e torna equivocados
pelo que toca à nossa identidade.

Na Roma antiga era hábito chamar
aos generais nos triunfais cortejos
todos os nomes para lhes lembrar

que não passavam de homens como nós,
devendo refrear os seus desejos
porque o poder é efémero e veloz!


Antípodas

Gosto do céu porque ele é infinito,
gosto de tudo o que é maior do que eu,
do espaço sem limite, do granito
que mais do que ele nunca alguém viveu.

Gosto do que é eterno como Deus
com quem um dia me confundirei
passando a ser idênticos aos seus
os atributos que eu assumirei.

Formando um corpo só numa alma só,
farei parte integrante do universo
sem princípio nem fim, verso ou reverso.


Gosto de me sentir um ser acima
de simples "cousa" a desfazer-se em pó,
pois esse é o grande sonho que me anima!


Treze… a zero!

Para cada juiz do Tribunal
que tem concretamente por missão
verificar se face à Constituição
qualquer acção política é legal,

para seu uso próprio e pessoal
foi posto, sem nenhuma precisão,
um automóvel à disposição
topo de gama, sensacional.

E o povo mergulhado na miséria,
com salários de fome e de vergonha,
além dos que deixaram de ter féria!

Perante este cenário revoltante
não haverá, meu Deus, ninguém que ponha
às quatro rodas um travão possante!!


Caras e corações


Segundo Leonardo, o nosso rosto
permite ler o nosso interior
como um espelho à nossa frente posto
com todo o seu poder revelador.

Nem sempre assim será, seguramente,
havendo em rostos feios almas belas
e formosura apenas aparente
em corações repletos de mazelas.

Mas em princípio eu creio na doutrina
da suma autoridade florentina
que encheu de enlevo a minha mocidade.

Um claro exemplo és tu, amada minha,
cujas feições rivais das da "Purinha"
eram penhor da tua… intimidade!


Pendor azul


Respira-se de Góis na povoação
um ar de aristocrático ambiente
que por contágio tenho a sensação
de se estender a toda a sua gente.

De muito longe vem a fidalguia
dos seus armoriados maiorais
aos quais por sua vez se juntaria
a dos Silveiras, guardiães reais.

De todo esse passado que ficou
registado nas páginas da história
algo na vila de hoje perdurou.

Sem preocupações de pormenor,
dá-me a impressão que cada morador
é portador de atávica memória!


Heróis… outros


À memória de Sir Thomas More

Herói não é tão-só quem oferece
o peito às balas enfrentando a morte;
nem sempre é o soldado audaz e forte
que esse apelido excepcional merece.


Herói é sobretudo, quanto a mim,
quem perante o carrasco que o tortura
não verga, não se rende, mas perdura
nos seus pontos de vista até ao fim.


Herói é quem no poste das fogueiras
não cede e continua a defender
as crenças que ele tem por verdadeiras.


É perante esses que me curvo e rendo
porque são eles que, segundo entendo,
de heróis o vero nome devem ter!


"Servir os outros"


Para chegar a Deus da melhor forma,
a um xeque perguntou certo islamita
com boas intenções qual era a norma,
a via, face à lei, mais expedita.


Ele lhe respondeu sinceramente
que nele próprio estava a solução:
amar como a si próprio toda a gente
sem nenhuma reserva ou excepção.


Nada mais simples, nada mais directo
para Deus alcançar, acrescentou,
esteja ou não prescrito por decreto.


Pois é, diremos nós, o ser humano,
cristão, judeu, budista ou muçulmano,
foi sempre nesse campo que falhou!


Era monolítica


No mundo monolítico de agora
sente-se o homem só, desnorteado,
sem rumo certo, desvalorizado,
fruto de uma anomia que o devora.


Em cada madrugada, em cada aurora,
é sempre a mesma coisa, o mesmo enfado
que se exacerba pelo dia fora
e atinge à noite o grau mais elevado.


Num meio social de baixo nível,
sem crenças, ideais, motivações,
sente-se o ser humano desprezível.


Drama maior que a terra poluída
e a progressiva falta de comida
é o do homem só… perante as multidões!

Poéticos contrastes

À memória de Pablo Neruda

Lendo os teus versos sinto-me gorado
ante o fulgor da tua Poesia:
sou como um frio capitel talhado
a esquadro e régua em clássica harmonia.


Abrasa-me a envolvência dos teus temas
e sua tropical pujança e cor:
sob a cálida acção dos teus poemas
de mim se apossa um lânguido torpor.


Tumultuosos como o Amazonas
invadem-me a bramir todas as zonas
em que se gera o fogo da paixão.


Perante a tua ígnea inspiração,
ainda que escorreitos e correctos
que álgidos são, Poeta, os meus sonetos!


Beijing


Todos temos um sonho na existência,
pessoal ou colectivo, pouco importa,
pois o que está em causa é a sua essência
e não a realidade que o suporta.

Um sonho teve a China milenária:
fraternamente abrir ao mundo os braços
e com todos os povos solidária
quebrar fronteiras, estreitar os l

Sob a olímpica chama da igualdade
Levada até Pequim, ficou provado
estar a China aberta à Humanidade.

Cumpriu-se o sonho da longínqua China
mais perto agora de qualquer Estado
por desigual que seja a sua sina!


Saudade:

saúde, solidão, solicitude

Saudade é sida que se pega à gente
por mais que não se queira ou que se faça:
não se pode evitar ficar doente
por ser o mal maior da nossa raça.


Trazemos a moléstia nas entranhas
como se fosse um vírus insanável
que toma às vezes proporções estranhas
causando imensa dor, mas agradável.


“Delicioso pungir de acerbo espinho”,
como um grande Poeta lhe chamou,
a todos nos atinge um bocadinho.


O mal reside, convencido estou,
no termo em si, nessa palavra mista
que só na nossa língua se regista!


Espírito olímpico

Mais alto, mais depressa, mais possante,
em honra pan-helénica dos deuses,
era a norma prescrita por Elêusis
para alcançar o louro verdejante.

Em paridade todos os helenos
na palestra de Olímpia disputavam
o primeiro lugar a que aspiravam
numa modalidade… pelo menos.

Morreu a Grécia há mais de dois mil anos,
mas o seu ideal competitivo
ainda agora permanece vivo.

Só que nas actuais competições
são diferentes as motivações
que põem à prova os músculos humanos!


Superação sentimental


A minha mais normal forma de escrita
é preferentemente a poesia:
trabalho-a como quem de uma pepita
faz um produto de joalharia.

Quanto à modalidade favorita,
seja na prática ou na teoria,
é sem qualquer lugar a contradita
o clássico soneto de algum dia.

Tratado por Petrarca e por Camões
de modo exímio no Renascimento,
alvo é também das minhas atenções.

Se não possuo deles o talento,
tenho a favor de mim, sem restrições,
a força que me vem do sentimento!


Razões de agenda


“Por motivos de agenda”, valha-os Deus!
os nossos governantes principais
primaram pela ausência entre os demais
políticos de Estados europeus

nos olímpicos jogos de Pequim
a cargo da potência mundial
que é hoje a China, o que lhes ficou mal,
há que dizê-lo, procedendo assim.

Se algum país devia estar presente
a nível de governo em alto grau,
seria Portugal… logo na frente.

Para marcar a nossa primazia
nos tratos com a China bastaria
retroceder ao caso de Macau!

Pangloss

Neste país à beira-mar plantado,
onde são mais os tansos que as areias
e cujo povo vive enfeitiçado
pelo fingido canto das sereias,

abundam na política os farsantes
que pintam cor-de-rosa a negridão
e levam, mais agora do que dantes,
com suas lérias a população.

Na sua colorida linguagem
fazem lembrar aquela personagem
que no “Candide” escrito por Voltaire

só vê da forma que pretende ver,
em tudo pondo um fio de optimismo
sem sentido nenhum de realismo!



Ode olímpica

Com pompa e circunstância terminaram
os olímpicos jogos de Pequim:
os concorrentes que se defrontaram
não mais se esquecerão do povo chim.

Nem todos as medalhas alcançaram
de jade e ouro ou recompensa afim,
mas todos como irmãos participaram
no festival guardado para o fim.

Regressam como heróis aos seus países
que honraram pelo esforço dispendido
de acordo com severas directrizes.

Com seus requintes de hospitalidade
a China demonstrou ter o sentido
da mais universal fraternidade!


Miopia

Que em “pequenino” Portugal se está
de dia para dia transformando,
o que me leva a ir imaginando
como será no dia de amanhã!

Se já neste momento não se avista
de Portugal qualquer porção da Europa,
por este andar em breve ninguém topa
senão quanto estiver à sua vista.

Não é questão, digamos, de tamanho,
pois Portugal não cresce nem mingua,
mas cada vez se torna mais tacanho.

Na minha linguagem nua e crua,
a culpa é dos governos que, à porfia,
nos vão pegando a sua… miopia!


Chave na porta


Viver em paz, numa qualquer aldeia,
longe da insegurança da cidade,
vai-se tornando uma vulgar ideia
para escapar à criminalidade.

Tudo é questão, seja bonita ou feia,
de nela haver maior comodidade
quer nos acessos, coisa que rareia,
ou condições de habitabilidade.

É disso que o governo deveria
prioritariamente se ocupar
a fim de a situação não se agravar.

A quem viver deseja sem canseira,
tranquilamente, eu lhe aconselharia
a região da capital do Ceira!

Aquela velha casa

Ao Prof. Zé-Manel Polido,
em cuja poesia me inspirei.


Naquela casa antiga, cujas portas
há muito estão fechadas, já não mora
pessoa alguma, que se saiba, agora
porque talvez estejam todas mortas.

Foi casa nobre, incontestavelmente,
pelo brasão que ostenta na fachada,
bem como por aquela enorme escada
que lhe daria acesso pela frente.

Ali se amou, ali se conviveu,
ali se festejou, lá se morreu
na católica fé dos seus maiores.

Sempre que por lá passo, nunca posso
deixar de ciciar um padre-nosso
pelos seus falecidos moradores!


Regionalismo

É um produto, o Regionalismo,
do espírito beirão dos habitantes
das terras de Arganil e circundantes,
agora em fase de revivalismo.

Não é fácil dizer em que consiste
por muito que se saiba português:
é um modo de ser, de estar…talvez,
que só por estas bandas é que existe.

É um género local de sentimento
peculiar das condições de vida
impostas por um certo isolamento.

Passa por dar valor à região,
prestando-lhe a atenção que lhe é devida
face ao alheamento da nação!


Barack Obama

A todas as pessoas solidárias
com o “sonho americano”.


Barack Obama que, seguramente,
filho de negro e branca, amulatado,
será dentro de pouco o Presidente
do povo americano…esperançado

num futuro de paz e de igualdade
sem contar para nada a cor da pele,
mas tão-somente a personalidade,
tem toda a América a rever-se nele.

É novamente o “sonho americano”
à vir à tona da água, a ganhar asas,
a ser fogueira de sopradas brasas.

Mesmo sob o poder republicano,
permita Deus que a América do Norte
não dê motivos a que o sonho aborte!










João de Castro Nunes

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